GIBRAN LACHOWSKI: Viver em Alto Araguaia é pedagógico

Para Gibran Lachowski que vive e dá aulas de jornalismo em Alto Araguaia, "o mundo está bem além das capitais".

Viver em Alto Araguaia
Por Gibran Luis Lachowski

 

Faz um bem danado ministrar aulas numa universidade pública de Mato Grosso cujo campus situa-se numa cidade de cerca de 15 mil habitantes que faz divisa com um município goiano de aproximadamente seis mil pessoas. Mostra que o mundo está bem além das capitais. Afinal, vive-se o racionalismo reducionista e bastante equivocado não só em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, algumas das vedetes do noticiário comercial.

Este ano em Alto Araguaia, situada a cerca de 400 km de Cuiabá e separada de Santa Rita do Araguaia\GO por apenas uma ponte sobre o rio Araguaia, foi fundamental para me mostrar como o eixo da vida muda conforme nos movimentamos.

Organização social

Marca a história de qualquer pessoa ver de perto um movimento estudantil que se coloca nas ruas em defesa da permanência dos cursos que a única unidade pública de ensino superior presencial da cidade possui. A referência é à Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat)\campus de Alto Araguaia, que dispõe de Comunicação Social (habilitação Jornalismo), Licenciatura em Letras e Licenciatura em Computação.

Existe uma discussão interna na universidade sobre a migração dos cursos para um campus em Rondonópolis, que ainda seria criado. Os colegiados de Curso e Regional da instituição em Alto Araguaia definiram pela retirada, mas a decisão final depende do encaminhamento do Conselho Universitário (Consuni) da Unemat, que envolve membros de seus diversos campi e não apenas do diretamente interessado. As demais unidades ficam em Cáceres (sede), Alta Floresta, Barra do Bugres, Colíder, Juara, Luciara, Nova Xavantina, Pontes e Lacerda, Sinop e Tangará da Serra.

Entender a situação

Amplia-se a compreensão e o sentido humanístico o fato de saber que parte das ausências às aulas acontece por causa da quebra do ônibus que traz estudantes de um município distante uma hora de onde se situa a universidade.

Às vezes o veículo fica no meio do caminho por conta do protesto de caminhoneiros indignados com o excessivo tempo de espera para descarregar produtos no já pequeno estacionamento do terminal rodoferroviário entre uma cidade e outra. É o que ocorre com quem mora em Alto Garças e estuda em Alto Araguaia e enfrenta os congestionamentos na nas proximidades da América Latina Logística (ALL).

Amplidão

Cria uma abertura tremenda no olhar a constatação de que uma cidade com cerca de 15 mil habitantes pode ser palco de um assassinato no fim da tarde, na porta de um estabelecimento comercial localizado na via principal. O cobrador Antônio Carlos Faria Pimentel (Bicudo) foi morto a tiros em primeiro de março em frente a uma revistaria e conveniência situada na avenida Carlos Hugueney, também BR 364, no centro de Alto Araguaia.

Também faz matutar o fato de saber que por pouco não se presenciou em horário de almoço o assassinato de uma mulher em frente a um restaurante. Funcionária do cartório eleitoral do município, Custódia Torres Carvalho foi morta a tiros pelo ex-esposo Elton Penno, que se suicidou no dia seguinte.

Alarga, ainda, a concepção da “imaterialidade da vida” a notícia da morte por afogamento de um homem que participava de um encontro acadêmico ocorrido na “sua” universidade e no qual havia ministrado palestra na noite anterior. O estudante de pós-graduação da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Silvio Sandro Soares desapareceu nas águas do rio Araguaia, em Alto Araguaia, em 9 de novembro e seu corpo foi encontrado no dia 12. Ele participava de um evento sobre análise do discurso na Unemat.

Democracia

Impõe-se como desafio raciocinar de que modo vai funcionar a democracia institucional de um município em que todos os vereadores fazem parte da base aliada do prefeito. Os nove parlamentares eleitos e reeleitos em Alto Araguaia integraram a chapa do funcionário público estadual Jerônimo Samita Maia Neto (PR), mais conhecido como Maia Neto. Ele foi padrinho político do prefeito que se despede, o advogado Alcides Batista Filho (PT), que abriu mão de uma nova disputa ao executivo.

Maia Neto vai para o quarto mandato (venceu eleições também  1992, 2000 e 2004). Sucede historicamente o avô (Jerônimo) e o pai (Silvio). É primo do atual presidente da Câmara de Vereadores, Vanderalques de Castro, o Vando, reeleito. Tio da parlamentar mais votada (916 votos), Sylvia Maia, também reeleita. Irmão da secretária de Saúde, Marta Maia. Os três são filiados ao PR. O prefeito eleito também é irmão do empresário João Maia, que comanda a única tv da cidade, a “Integração”, afiliada da Rede Record.


Enfim, viver em Alto Araguaia é pedagógico. Põe mais perto da gente aquilo que muitas vezes se teme, se rejeita, se elogia e se deseja. Viver assim nos oferta oportunidades de sermos mais comedidos nas palavras. Mais incisivos nas ações. Igualmente protagonistas de histórias que se constroem diariamente, a partir do ensino, da vida social e do engajamento político, como nas capitais.

Gibran Luis Lachowski é jornalista e professor do curso de Comunicação Social da Unemat\Alto Araguaia

7 Comentários

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  1. - IP 189.72.142.232 - Responder

    Caro professor, seu texto me fez lembrar que no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, me deslocava de Sinop para Alto Araguaia, bimestralmente, a fim de participar de uma Pós-graduação em Língua Portuguesa e, mesmo por pouco tempo, aprendi a gostar dessa cidade, simples e simpática.
    Lembro-me que ficávamos alojados em um prédio público perto às margens do rio Araguaia. Cada manhã eu tinha o prazer de atravessar o Rio Araguaia para tomar café com um delicioso pão de Queijo, em outro Estado, na primeira barraca à direita, após o rio, na cidade de Santa Rita-GO.
    Em Alto Araguaia,aprendi a gostar do arroz com pequi, no restaurante do Cleodom.
    Depois ia para as aulas, tão bem ministradas por renomados professores, sempre com a atenção da direção e professores da UNEMAT, que me fogem os nomes nesse momento.
    São muitas lembranças dessa cidade.
    Talvez isso não tenha muita importância, mas, realmente, as cidades pequenas também tem muito a oferecer.

    • - IP 201.34.244.161 - Responder

      É isso, aí, Gilson! Sigamos a olhar muitos outros cantos que não os centrais ou dito centrais (risos)…

  2. - IP 177.0.34.144 - Responder

    Enquanto a gente não pensar no interior e o interior não se pensar não seremos nação. Mas sim apenas um país desigual.

    • - IP 201.24.174.171 - Responder

      Valeu, Vicente, pela sugestão! Frça, e jeito, na caminhada…

  3. - IP 200.101.35.34 - Responder

    É isso aí Gibran. Tocastes em um problema vergonhoso. Em pleno século XXI ainda não conseguimos nos livrar dessa praga do coronelismo que ainda assola nosso país e compromete a democracia. Mais triste é ver que essa prática política é apoiada por alguns puxa sacos que ministram aulas no ensino universitário e jogam na lata do lixo, todo e qualquer compromisso com a formação cidadã.

    • - IP 200.101.35.34 - Responder

      Grato, Mario, pelo comentário. Você bem que poderia escrever mais sobre o coronelismo existente em Alto Araguaia. Abraços!

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