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GIBRAN LACHOWSKI, repórter e professor de jornalismo, sugere ao repórter RODRIGO VARGAS, do “Diário de Cuiabá”, que levante informações mais amplas sobre o que houve na Usina Hidrelétrica de Colíder, onde trabalhadores foram acusados, pelo jornal, em editorial, da prática de vandalismo

Gibran Lachowski, repórter e professor de Jornalismo, e Rodrigo Vargas, repórter do Diário de Cuiabá. Conflito envolvendo trabalhadores da construção civil em Colíder, Mato Grosso, provoca também reflexões sobre a prática do jornalismo no Estado

Revolta? Vandalismo? Conflito editorial.

Por Gibran Luis Lachowski

A possível existência de um conflito entre reportagem e editorial dentro de um mesmo veículo de comunicação pode gerar uma boa dose de prazer. E foi o que ocorreu, acredita-se, no jornal “Diário de Cuiabá” de quinta-feira, 14 de fevereiro. A referência é quanto à manchete do veículo (“Trabalhadores destroem parte de usina hidrelétrica no norte”), sobre uma impactante ação dos homens que erguem a Usina Hidrelétrica Colíder, entre os municípios de Colíder, Itaúba e Nova Canaã, no nortão de Mato Grosso.

Cerca de 50 a 100 dos 2,1 mil trabalhadores que levantam o empreendimento (segundo cálculo preliminar da Polícia Civil) roubaram armas de fogo dos seguranças, incendiaram alojamentos, refeitório, ambulatório, áreas de lazer, dezenas de veículos e levaram R$ 500 mil dos caixas eletrônicos. Não houve registro de feridos – ao menos até o fechamento da matéria –, conforme apuração do jornalista Rodrigo Vargas.

A concessão da obra está sob responsabilidade da Companhia Paranaense de Energia (Copel) e de um consórcio construtor liderado pelas empresas JMalucelli e CR. Almeida).

O conflito

O repórter relatou o ocorrido. Apontou a suposta causa (reação a “possível não pagamento de horas extras referentes ao trabalho na terça-feira de Carnaval”). E qualificou a atitude como “revolta”. Ou seja, deu ao fato um caráter de revide social. O tom jornalístico aparece na página B1, caderno “Cidades”, texto “Canteiro é incendiado”. O termo “revolta” está sobre o título, geralmente feito pelo editor do caderno. Esse recurso editorial se chama “chapéu” e tem a função de sintetizar o assunto, dar um direcionamento a quem lê a notícia.

“Revolta” também aparece na matéria de Rodrigo Vargas, que ouve o outro lado da história, dando espaço para a negativa empresarial, quer dizer, de que não houve ameaça de descumprimento trabalhista. A palavra desponta, ainda, no pequeno texto que explica a manchete de capa, montado praticamente a partir dos primeiros parágrafos do material interno.

O acontecido na Usina Colíder precisa ser melhor apurado jornalisticamente, o que deve fazer Vargas nos próximos dias, provavelmente indo até o local. Afinal, como diz o experiente jornalista Ricardo Kotscho, “lugar de repórter é na rua”, conversando com as pessoas, olhando no olho, sentindo a situação… Porque uma pergunta precisa ser respondida: a ameaça de não pagamento de hora extra por um dia de trabalho durante o Carnaval seria capaz de gerar tamanha reação?

Já o editorial (parte em que o jornal enquanto empreendimento dá sua opinião explícita sobre algum assunto apurado pela reportagem) enfrenta “a revolta” de Vargas, ou tenta arrefecê-la. Qualifica a ação dos trabalhadores como “vandalismo”. Assume a motivação como descumprimento trabalhista ao dizer que tal questão deve ser resolvida de modo consensual, pela via da legalidade. E cobra dura ação do Estado. Isso aparece no texto “Ordem pública”, na página A2.

O editorialista, que geralmente é o editor geral, diretor de redação, diretor-presidente, editor executivo, editor do caderno “Opinião”, membro do conselho editorial ou alguém com similar status na empresa, chega a ser raivoso em suas palavras, o que lhe faz perder o bom senso. O momento mais evidente é quando sugere que o Estado atua com mais firmeza na defesa dos trabalhadores do que na dos patrões, chamando de “exigências” o que, na verdade, não passam de “direitos básicos”. Entre eles, trabalho sem insalubridade, uso de equipamentos de segurança, alimentação controlada por profissional e alojamento adequado.

À frente, o editorial do “Diário” dá como certo algo que nem mesmo a equipe de reportagem apurou, demonstrando mais uma fragilidade na argumentação. Afirma categoricamente que os empresários responsáveis pelas obras atendem todos os requisitos da fiscalização trabalhista. E se não for assim? Editorial tem que se basear na apuração jornalística e não orientá-la para que se molde a uma crença, análise ou vontade.

O tom editorializante do assunto continua na página A2, caderno “Opinião”, ao eleger a postura dos trabalhadores como a nota dissonante do dia, num quadro regular do veículo, chamando-a de “ação violenta”. E, na capa – geralmente fechada pelo editor executivo ou geral –, no “chapéu” da manchete, fixa o termo “vandalismo”, brigando com a percepção do repórter.

O bom combate

Ao fim da leitura de todo o material sobre os trabalhadores da usina, parece que os tais homens são realmente fortes e organizados, a ponto de destruírem um grande empreendimento. Dá a entender que donos de construtoras e empresários de vários outros setores, como os da mídia, “temem que a moda pegue”. Já imaginou um “’não pagou, tomou” como princípio de conduta?

De qualquer modo, pensando jornalisticamente, o correto é que o assunto mereça uma incursão in locu, no olho do furacão. Afinal, quem são esses homens que quebraram todas as convenções legais e foram capazes de produzir uma notícia – em conformação e efeito – tão impactante como ficção? Nada mais instigante para o bom jornalismo, que teimosamente se baliza pelo interesse público, pelo humanismo, pela busca da verdade factual, pela abertura de espaço para vozes diversas e opostas.

 

Gibran Luis Lachowski, jornalista e professor do curso de Comunicação da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat\Alto Araguaia)

Email: prof.gibranluis@gmail.com

9 Comentários

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  1. - Responder

    KKK, esse Gibran é um gozador. O DC não paga nem os salários em dia. Vai ter dinheiro para pagar diárias, hotel e restaurante pro repórter?

    • - Responder

      Piolho, trabalhei no “Diário” e sei, realmente, que o atraso é constante.

      Mas, ainda assim, não sei de que forma, Rodrigo Vargas tem feito boas reportagens fora de Cuiabá.

      Uma delas (em 2012) foi sobre como Campo Grande, mesmo não sendo subsede da Copa, está com obras de infraestrutura bem mais avançadas que a capital de Mato Grosso.

      Continuemos a conversa, Piolho…

  2. - Responder

    Parabéns Gibran pela profunda análise feita desta notícia. Sei também que o competente Rodrigo Vargas quando assina uma reportagem merece todo o respeito. Já na direçao do jornal, fora o Gustavo Oliveira, nao sei avaliar quem responde pelos editoriais. Vamos aguardar a resposta do Diário, que tem a obrigaçao de se manifestar oficialmente.

  3. - Responder

    O Rodrigo Vargas é assim mesmo gosta de perseguir pobres e funcionários públicos, só que não façou do Luan Santana comendo peixe no Pantanal em plena Piracema.

  4. - Responder

    Boa “Piolho”, agora, o problema dos revoltosos é que roubaram um banco e embolsaram o dinheiro, se ao menos tivessem incendiado todas as notas teriam atraído as esquerdas para junto de si, mas como ficar ao lado da ação desses trabalhadores, nem sob a justificativa de furto famélico.

  5. - Responder

    Parabéns Gibran pela análise sobre a matéria dos “revoltosos de Colíder”. Em relação ao editorial, algo deve ser exlicado a sociedade sim, ainda mais em se tratando de um veículo de comunicação. Gustavo Adolfo, com toda sua competência, resolverá tal questão…

  6. - Responder

    Não é de hoje algumas construtoras que atuam em Mato Grosso exploram a mão-de-obra em Mato Grosso. Condições precárias de trabalho e baixos salários são algumas dessas irregularidades. Essas obras da Copa são exemplo dessa situação. Em relação aos acontecimentos em Colíder, onde estão os fiscais do trabalho? Até que se prove ao contrário, lá estão trabalhadores e não bandidos…

  7. - Responder

    Caro Gibran, a respeito de suas opiniões, esclareço que em momento algum qualifiquei o ocorrido como um ato de “revide social” em meu texto, como você entendeu. Minha apuração (feita de longe, como você bem pontuou em seu artigo) não me permitiria tal conclusão.

    O uso do termo “revolta” está previsto no dicionário Houaiss em diversas circunstâncias, inclusive quando se pretende fazer referência a uma “grande perturbação” ou “agitação”, ou até mesmo, por extensão, “grande alvoroço de pessoas; desordem, tumulto”. Foi neste sentido que tratei do episódio na minha matéria.

    Acho pouco provável que o motivo (“alegado”, conforme consta no texto) possa ter sido apenas uma discordância a respeito de horas-extras de um feriado. Mas isso não me permite a conclusão de que haveria outros motivos possivelmente mais graves. Como você mesmo disse, é necessário apurar mais.

    As empresas construtoras negaram descumprir a legislação trabalhista. O sindicato de trabalhadores (em nota divulgada após minha matéria ser publicada) chamou o fato de “tragédia” e “depredação”. Veja trecho da nota:

    “(…) 1. As depredações ocorridas na fábrica NÃO foram motivadas por reivindicações trabalhistas, haja vista que o Sintecomp encontra-se em processo de negociação coletiva, que transcorre normalmente, estando dentro do prazo, já que a data-base da categoria é julho. O sindicato informa que não houve qualquer determinação no sentido de realizar paralisação ou depredação na citada usina;
    2. Os indivíduos que praticaram tal ato (cerca de 50 pessoas encapuzadas) NÃO foram identificados pelo Sintecomp como trabalhadores de sua base, mas sim como pessoas externas ao local de trabalho; (…)”

    É a verdade? Não posso afirmar, mas é óbvio que tal posicionamento tem a credibilidade de uma instituição que, por definição, tem que estar ao lado dos trabalhadores.

    Sobre sua sugestão, creio que uma visita ao local, embora importante sob o aspecto jornalístico, tampouco será garantia de encontrar uma resposta definitiva.

    Digo isso com experiência de quem cobriu in loco, e durante quase 30 dias, uma confusão semelhante (embora dezenas de vezes maior) ocorrida em 2011 no canteiro da usina de Jirau, em Rondônia.

    Por lá, o motivo alegado também era algo aparentemente banal: uma briga entre funcionários e um motorista de ônibus de uma empresa terceirizada.

    Visitei o canteiro, mas, como estava tudo destruído e incendiado, não foi possível atestar possíveis condições inadequadas de alojamento.

    As instalações que sobreviveram, porém, me pareceram bem feitas, limpas, organizadas, sinalizadas e de acordo com a legislação em vigor. Poderia afirmar, com base nesta visita, que as empreiteiras estavam corretas? Não.

    Entrevistei trabalhadores que criticaram as condições de trabalho e o tratamento grosseiro por parte de supervisores no local, assim como outros que disseram que o canteiro era “excelente” e criticaram duramente os responsáveis pela confusão.

    Todas as opiniões foram registradas e publicadas (procure no sistema de buscas da Folha.com e poderá analisar).

    Registrei, ainda, as estranhas coincidências entre a confusão de Jirau e chegada de um sindicato dissidente, sediado no Pará, e que vem tentando se infiltrar em todas as regiões do país onde há grandes obras de infraestrutura.

    O sindicato local acusou o “pau-rodado” de insuflar o episódio, como forma de enfraquecer a representação local e atrair os operários do canteiro (mais de 20 mil pessoas) para sua base, assegurando milhões em contribuição sindical. No site da Folha você encontrará a história completa.

    Jamais me atreveria, portanto, a cravar o ocorrido em Colíder como um “revide social”, a não ser que tivesse elementos muito concretos para isso (o que não foi o caso, dadas as limitações de uma apuração por telefone).

    Quanto ao suposto “conflito” entre o editorial do Diário de Cuiabá e minha apuração, não vejo nada de errado nisso. Acho ótimo que uma reportagem possa vir a público ainda que suas conclusões contrariem a opinião da instituição que a imprime. Aliás, deveria ser sempre assim.

    Sigo aberto ao debate. Ao Luiz Blanco, registro apenas que ignoro o que tenha sido o tal episódio envolvendo o cantor sertanejo e a Piracema, mas convido o autor do comentário a buscar na internet a lista de temas que já abordei ao longo de mais de 15 anos de estrada. É em nome dessa trajetória que, embora respeite, considero injusta sua crítica em relação ao meu trabalho.

    • - Responder

      Rodrigo, não entendo porque vc sentiu uma carga sobre si por conta do texto que fiz. No geral, apontei qualidades de seu trabalho.

      A sugestão de que houvesse incursão no local do acontecido para melhor apuração dos dados foi colocada como procedimento básico a ser seguido e não como algo que vc não faria. E vc sabe, pois se conhece, tal procedimento corresponde a uma prática jornalística sua e, também, sabemos, recomendada no jornalismo.

      Realmente a expressão “revide social” representa a minha percepção do que foi escrito, e isto cabe, como vc mesmo salientou, a quem faz o texto opinativo. Então, onde está o problema?

      E mais uma: as palavras não significam apenas o que está no dicionário. Elas ganham simbologia dentro dos contextos em que são colocadas ou às quais se referem. Por isso é que vc, repórter, não cravou “vandalismo”, “depredação”, mas sim “revolta”.

      E vc sabe, Rodrigo, que a palavra “revolta” é bastante associada a um imaginário que suscita mudança, transformação, causa de transtornos ao “status quo”.

      E por fim, igual a vc, acho ótimo que hajam discordâncias entre reportagem e editorial. Fui justamente isso que falei o tempo inteiro no artigo. Em nenhum momento disse que isso era errado. Apontei apenas que o conflito reforçava o conservadorismo, o atraso do pensamento editorial, que é o da instuição jornalística (jornal “Diário de Cuiabá”.

      No mais, Rodrigo, também sigo aberto ao debate.

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