PREFEITURA SANEAMENTO

GIBRAN LACHOWSKI: O trabalho não dignifica o homem. Respirar é fundamental. Sorrir é fundamental. Vadiar é fundamental.

Gibran

Sociedade do cansaço
Por Gibran Lachowski

O título deste artigo repete o nome de um dos livros de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano. A obra trata de como, nos dias de hoje, as pessoas se autoexploram, pensando serem livres para trabalhar o quanto e quando querem. Trata-se de uma ilusão provocada pela maquinaria sutil do capitalismo, segundo o autor, que é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim.

Professoras e professores, sobretudo do ensino superior, sentem muito essa falsa sensação, alimentados pela sanha produtivista de publicar artigos científicos e pontuar na plataforma Lattes. Madrugadas a fio fazendo revisões bibliográficas, preenchendo formulários acadêmicos, dando pareceres a revistas científicas, decididamente, não garantem melhoria na qualidade de vida nem felicidade. Felicidade é algo mais etéreo, apesar de terrenal.

Profissionais liberais, jovens ultraconectados que adoram trabalhar sentados no chão tomando refrigerante, pessoas que ofertam sua força de trabalho na condição de microempreedoras individuais para empresas que não querem assinar carteira de trabalho… toda essa gente também sofre de autoexploração. Vive sob o paradigma da sociedade de desempenho.

É estimulada a acreditar que tem liberdade para trabalhar quando, quanto e onde quer. Assim, relativiza a noção de patrão e o cumprimento de tarefas (nada a ver com o belo sonho de uma sociedade sem senhores nem escravos). Julga ter apenas o próprio limite a ser ultrapassado, como se fosse uma sadia competição consigo. Resultado: diminuição do contato social e dos momentos de diversão, distúrbios alimentares, sensação de vazio, falta de utopias, depressão, suicídio… infelicidade.

Portanto, em vez de “comprar” discurso e estilo de vida hegemônicos da contemporaneidade, melhor desconfiar do subtexto. Também é bom questionar alguns mantras assimilados pelo mundo corporativo. Nesta quadra da História o trabalho não dignifica o homem, pois o que assegura a dignidade de homens e mulheres passa pela vida como um todo, sendo o trabalho uma importante dimensão, mas, de longe, não a única. Respirar é fundamental. Sorrir é fundamental. Vadiar é fundamental. Alimentar-se com calma, sentindo o gosto da comida, a textura, é fundamental. Perder as horas olhando nos olhos da camarada, do companheiro, lembrando de bons e maus momentos, elucubrando sonhos vale muito mais.

Gibran Lachowski, jornalista e professor universitário em Mato Grosso

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