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GIBRAN LACHOWSKI: Começamos, ainda que a duras penas, a compreender que a tão decantada internet, com suas múltiplas mídias e plataformas, por incrível que pareça, não é terra de ninguém. Trata-se de um terreno que pertence à realidade, regido por leis palpáveis, conhecidas do nosso dia a dia. E é bom que seja assim

 Gibran Luis Lachowski é jornalista e professor universitário, no curso de Comunicação da Unemat - Universidade Estadual de Mato Grosso, campus da cidade de Alto Araguaia


Gibran Luis Lachowski é jornalista e professor universitário, no curso de Comunicação da Unemat – Universidade Estadual de Mato Grosso, campus da cidade de Alto Araguaia

Todo mundo é responsável

por Gibran Luis Lachowski

A popularização e, certo modo, a banalização do que se faz nas redes virtuais sociais tende a colocar todo mundo que vive e\ou navega por este universo na condição de responsável pelo que possa acontecer de grave ou prejudicial a alguém. E aí não cabe mais dizer que apenas postou, comentou, curtiu, compartilhou ou retuitou.

E se a corrente informativa resulta em morte, como no caso da dona de casa Fabiane Maria de Jesus no Guarujá (SP), confundida com uma suposta sequestradora de crianças, o mínimo de participação já pode levantar suspeita de coparticipação. É o que se discute atualmente diante da onda de justiçamentos no Brasil.

O assunto começou a ganhar repercussão no país logo após um comentário da jornalista e apresentadora do “SBT Brasil”, Rachel Sheherazade, feita na edição de 4 de fevereiro deste ano do programa. A profissional disse compreender a atitude de um grupo de pessoas no Rio de Janeiro que havia detido, agredido, deixado nu e amarrado a um poste um rapaz acusado de assalto. Sheherazade justificou seu entendimento na percepção de que o Estado brasileiro era ineficiente e injusto e que, por conta disto, parcela da população sentia-se estimulada a fazer justiça com as próprias mãos.

Como sabemos, movimentos sociais, entidades de jornalistas e políticos de esquerda tiveram reações contrárias e conseguiram constranger Sheherazade e o SBT. Hoje em dia ela continua no telejornal, porém bem mais amena. Nesse caso, um bom debate foi iniciado, entre outras coisas, sobre a importância e as consequências do uso da liberdade de expressão. Pois o direito de expor opiniões está automaticamente ligado ao direito de ser contestado e até mesmo processado judicialmente, sobretudo em caso de ofensa aos direitos humanos.

Democracia subentende responsabilidade

O fato envolvendo o “assassinato” da dona de casa no Guarujá é mais singular não somente por ter nascido em uma rede virtual social (o facebook), mas também porque a página “Guarujá alerta”, que espalhou o boato, tem por administrador um não-jornalista. Em tese, portanto, uma pessoa que se dispõe a auxiliar a comunidade, fazendo, de certa maneira, um trabalho gratuito.

Obviamente que há diferenças brutais entre a responsabilidade social do jornalista – que lida profissionalmente com a informação – e a de um abnegado ou de alguém que gosta de informar e se manter informado ou, ainda, de uma pessoa que posta mensagens só pra passar o tempo ou tirar um sarro. Entretanto, em tempos de explosão de consumo internético, todo mundo se torna fonte de informação e, como estamos lidando com uma rede mundial de computadores, todo mundo deve ter noção mínima de que o que se faz neste ambiente pode se espalhar como foguete e sem controle.

Afinal, a ciberdemocracia difundida entusiasticamente pelo filósofo Pierre Lévy (e abraçada rapidamente pelas gigantes virtuais, pelas telefônicas e assemelhadas) não poderia funcionar apenas a partir de facilidades e pontos positivos, como o aumento da possibilidade do receptor ser ao mesmo tempo um produtor de informações, construindo, corroborando ou interferindo nas narrativas da realidade. Teria de englobar as responsabilidades que isso subentende.

Sempre foi assim no mundo real anterior à internet – em que calúnia, injúria e difamação são considerados crimes – e continua sendo assim no mundo real com a internet. A diferença básica é que um comentário mal intencionado ou uma história não-verificada dita para meia dúzia de colegas ou parentes pode ser facilmente debelada e\ou minimizada, o que não se aplica ao nível de repercussão e estrago quando veiculado nas redes virtuais sociais.

Começamos, espero, ainda que a duras penas, a compreender que a tão decantada internet, com suas múltiplas mídias e plataformas, por incrível que pareça, não é terra de ninguém. Trata-se de um terreno que pertence à realidade, regido por leis palpáveis, conhecidas do nosso dia a dia. E é bom que seja assim, porque democracia não significa simplesmente fazer e falar o que se quer, mas, bem mais do que isto, saber conviver com um conjunto de normas, interesses e utopias conflitantes que, a partir de debates, articulações e consensos, move um estado de coisas para frente.

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