GABRIEL NOVIS NEVES: “Com a transformação progressiva da festa natalina num grande acontecimento industrial e comercial, tudo foi adquirindo ares de megaevento. Pena que essas megafestas não consigam estreitar os laços familiares, muito pelo contrário, se transformam em espetáculos de estranhamento mútuo entre seus circunstantes”

O cronista Gabriel Novis Neves lembra, saudoso, que o Natal "povoou a nossa infância, e a festa era tão simples e ingênua quanto éramos nós".

O cronista Gabriel Novis Neves lembra, saudoso, que o Natal “povoou a nossa infância, e a festa era tão simples e ingênua quanto éramos nós”.

Natais

por Gabriel Novis Neves

 

O Natal começou como uma festa religiosa em comemoração ao nascimento de Jesus Cristo.

Esta data povoou a nossa infância, e a festa era tão simples e ingênua quanto éramos nós.

Familiares se reuniam em volta de uma ceia mais caprichada, sempre com iguarias típicas dos países frios, ao final da qual, os adultos iam para a famosa Missa do Galo.

As crianças, as mais ansiosas, ficavam esperando durante a noite a chegada do Papai Noel, que lhes encheria de montes de brinquedos e bugigangas, sempre recebidos como dádiva.

Nada era negado, e a cumplicidade e a ingenuidade eram o charme dessa data.

Sabíamos o que pedir ao Papai Noel, sempre em função do poder aquisitivo de nossos progenitores.

Os pedidos não eram acompanhados de frustrações, já que não éramos massacrados por propagandas, cada dia mais poderosas em termos de tecnologia.

Com a transformação progressiva da festa natalina num grande acontecimento industrial e comercial, tudo foi adquirindo ares de megaevento, onde a criatividade não tem limite.

Assim, realçaram-se também as diferenças sociais com relação ao que pode e o que deve ser almejado.

Desde muito cedo os baixinhos se dão conta de que toda a encenação é para uns pouco privilegiados.

De ano para ano crescem essas diferenças, já que a riqueza tecnológica não tem limites para os bolsos mais recheados.

Este ano temos uma árvore de Natal no shopping Iguatemi (São Paulo) de vinte metros de altura e que abriga mais de vinte e cinco mil lâmpadas.

Isso sem falar nas vitrines das lojas, verdadeiros paraísos de consumo para muito poucos. Sob esse panorama, descaracterizaram-se todas as comemorações basicamente centradas no cunho religioso e passamos a viver a época do festival do consumo desmedido.

A troca de presentes, antes pouco valorizada e restrita, principalmente, às crianças, se transformou numa cobrança cruel, capaz de descapitalizar famílias pelo resto do novo ano. Tudo em função de uma competitividade enlouquecida, característica dos nossos tempos.

Encontros familiares, até então descompromissados, se transformaram em reuniões de um clã que, na maioria das vezes, além de nada dizerem aos seus membros, passou a exibir um verdadeiro palco de disputa de poderio econômico.

A economia de mercado, com toda a sua pujança, cresce em todos os setores e se hipertrofia imensamente quando se vincula aos setores ligados à vaidade humana.

Pena que essas megafestas não consigam estreitar os laços familiares, muito pelo contrário, se transformam em espetáculos de estranhamento mútuo entre seus circunstantes.

A obrigação do encontro familiar prazeroso entre pessoas que pouco ou nada se curtiram durante o ano transforma essas ocasiões em verdadeiros antros de hipocrisia e tédio.

Os presentes trocados, como mera formalidade, são frequentemente acompanhados de sorrisos falsos, tédio e, o que é pior, sente-se o desamor no ar.

Não por acaso, aumentam tanto os estados depressivos no transcorrer dessas belíssimas Noites de Natal.

 
Gabriel Novis Neves, reitor-fundador da UFMT, é médico em Cuiabá

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