A MEMÓRIA É QUE FAZ A HISTÓRIA – FLÁVIO TAVARES, que foi para o exílio com ele, durante a ditadura militar, relembra sua convivência com ZÉ DIRCEU e o vê como bode expiatório de uma degradação maior

José Dirceu (2º em pé, da esquerda para direita) foi um dos 15 presos políticos soltos em troca da libertação do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Flávio Tavares está agachado, primeiro à direita

Meu amigo Zé
Entre cenas do exílio e capítulos decisivos no País, ex-companheiro de Dirceu o vê como bode expiatório de uma dregradação maior

FLÁVIO TAVARES – O Estado de S.Paulo

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,meu-amigo-ze,945225,0.htm

Tempos atrás, na prisão da ditadura, o carcereiro o chamava de “Cabeleira” e, hoje, outra vez ele está de cabelos longos, como se voltasse ao passado. Conheço José Dirceu há 43 anos e, nele, admiro e valorizo a coragem pessoal. A amizade começou naquele 6 de setembro de 1969 em que, sob a mira de metralhadoras, nos algemaram na Base Aérea do Galeão. Saíamos da prisão (ele em São Paulo, eu no Rio) e nos levaram à pista para uma foto que percorreu o mundo: os presos políticos trocados pelo embaixador dos Estados Unidos junto ao avião, rumo ao exílio no México. Era proibido falar, mas nos segundos em que mandaram que eu me agachasse, sussurrei: “Vamos mostrar as algemas!”

E ali está ele na foto, altivo, mãos ao peito, com as algemas que a maioria escondia, mostrando que preso político não é um criminoso envergonhado do que fez, mas um dissidente que desafia quem oprime. Foi a primeira e única vez na vida que Zé Dirceu me obedeceu…

A intimidade do exílio nos aproximou. Um canal de TV convidou-me a dublar telenovelas mexicanas em português e levei junto Zé Dirceu. Eu dublava e coordenava o grupo e o designei “primeiro ator”. Dias depois, porém, ele e os demais viajaram para Cuba. Só eu permaneci no México e, assim, nem sequer nossas vozes retornaram ao Brasil, para onde não podíamos voltar.

Ele, porém, desafiou a proibição. A morte era a pena imposta ao retorno dos desterrados, mas Zé voltou, clandestino, em 1972, na euforia e terror do general Medici. Treinado em guerrilha, queria aliar-se aos que combatiam a ditadura, mas na chegada a São Paulo viu que a repressão dizimava seu grupo e ele seria a próxima vítima. Homiziou-se no oeste do Paraná e mudou de nome. Passou a ser Carlos Henrique, pacato comerciante de secos e molhados num recôndito município. Lá, casou-se e foi pai sem revelar quem era nem sequer à mulher e ao filho. A verdade significaria a morte e ele passou a ser outro.

Já não era quem era. Sacrificava a identidade para não ser sacrificado. No exílio, dizia-se que morrera como outros do “grupo Primavera”, nome do lugar de treinamento em Cuba. Com a anistia do final de 1979, voltou a ser o Zé. Laborioso e hábil, presidiu o PT e o tirou do atoleiro de seita fechada ou partido sindical. Mas, ao se abrir à sociedade, o PT assimilou os velhos vícios políticos, como vírus pelas veias.

Quando Lula presidente, eram de Zé Dirceu os planos e atos de governo. Lula presidia, Zé governava. Irmãos siameses, um era a extensão do outro. A simpatia ficava com Lula, as antipatias com Zé. Pródigo em metáforas esportivas, o presidente o chamava de “capitão do time”. Mas Zé era dos poucos que não jogava bola com Lula em fins de semana na Granja do Torto. Trabalhava noutras jogadas com outras bolas. Assim, o governo obteve maioria no Congresso e, hoje, se sabe a que preço e como – subornando o PMDB, o PTB, o PP de Maluf e o PL, que hoje é PR.

Em 2005, no topo do escândalo, sabe-se que Lula pensou em renunciar para “não ser um novo Collor”. Outra vez a coragem de Zé Dirceu brotou como água no deserto e ele é que renunciou. Com o gesto, assumiu as responsabilidades e blindou Lula em pleno tiroteio. “Eu não sabia de nada, fui traído”, dizia Lula, admitindo o suborno quando ainda se desconheciam os detalhes. Preferia passar por tolo do que por chefe do governo.

Agora, as 40 mil folhas do processo no Supremo Tribunal mostram o “mensalão” como um elaborado esquema de corrupção e suborno montado a partir “da alta cúpula do governo”. Mas, o mais alto da “alta cúpula” não é réu. A não ser que o presidente fosse alienado absoluto ou pateta total, como explicar que um simples diretor de marketing do Banco do Brasil desviasse R$ 28 milhões do fundo Visanet sem autorização superior? A diretoria do banco nada percebeu? E a inspeção do Banco Central?

Não há suborno sem subornáveis e a degradação dos partidos gerou tudo. A “partidocracia” se sobrepôs à democracia. Roberto Jefferson fez a denúncia por sentir-se “lesado” ao receber só uma das cinco parcelas de R$ 4 milhões prometidas ao PTB… Com partidos transformados em balcões de negócios, o astucioso “mensalão” quebrou a oposição criando uma “base alugada” como base aliada.

A degradação chegou ao próprio PT. Numa das vezes em que estive com Zé Dirceu, após a cassação, ele me mostrou como a Polícia Federal invadira seu escritório em busca de documentos. Tarso Genro era ministro da Justiça e na disputa interna todos queriam comprometer Dirceu para tornar-se “o favorito do rei”.

E as provas da fraude? Na engrenagem clandestina, oculta-se tudo. Ou alguém pensa que os corrompidos assinam recibo? Ou que João Paulo Cunha e os demais de São Paulo emitiram “nota paulista” pelo que abocanharam?

Nos delitos de alto nível, os indícios constroem a prova. Os Bancos do Brasil, Rural e BMG geraram as milionárias movimentações do esquema e daí surge tudo. Não foi sequer como no tempo de Fernando Henrique, quando a tão comentada compra de votos que permitiu a reeleição de presidente, governador e prefeito, surgiu numa manobra rápida, até hoje sem autor plenamente identificado.

Na tragédia, o terrível é que a determinação de Zé Dirceu o tenha levado ao topo de tudo, como bode expiatório da degradação maior. Mas nem seu passado de coragem pode livrá-lo da parcela de culpa. O passado não está em julgamento nem serve de escudo ao presente.

FLÁVIO TAVARES É JORNALISTA, ESCRITOR E FOI UM DOS 15 PRESOS POLÍTICOS TROCADOS PELO EMBAIXADOR DOS EUA EM 1969 – O Estado de S.Paulo

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Dirceu se sacrificou por Lula, diz ex-companheiro de exílio

Um homem corajoso, que mostrou essa mesma qualidade em diferentes momentos da história do País. Assim se refere a José Dirceu o jornalista Flávio Tavares, companheiro de exílio do ex-ministro durante a ditadura militar no Brasil. A valentia do amigo, segundo o jornalista, é visível do período de repressão até o escândalo do mensalão, quando sua “maior demonstração de coragem foi ter se sacrificado para salvar o Lula”. Nesta terça-feira, a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal condenou Dirceu por corrupção ativa.

O primeiro contato entre Tavares e Dirceu foi na Base Militar do aeroporto Tom Jobim, o Galeão, no Rio de Janeiro, quando os dois se juntaram a outros 13 presos políticos que seriam exilados no México em troca da libertação embaixador americano Charles Burke Elbrick, sequestrado por movimentos de resistência. “Foi a primeira e única vez em que o José Dirceu obedeceu às ordens que eu dei a ele”, lembra o jornalista, que diz ter orientado os companheiros a mostrar as algemas para a foto que, décadas depois se tornaria uma das mais emblemáticas do período. “Nós viajamos ao México algemados. Então, bateram uma fotografia. E quando, em um determinado momento, mandaram eu me abaixar, eu disse, ‘vamos mostrar as algemas, tem que ser rápido’. Estava todo mundo escondendo, e aí o José Dirceu foi o primeiro a mostrar as algemas para sair na fotografia.”

Durante entrevista ao Terra, Tavares falou diversas vezes na coragem de Dirceu, que diz ter sido um “menino irrequieto”, que arriscou sua vida ao retornar ao Brasil clandestinamente após fazer um treinamento de guerrilha em Cuba. “Nós estávamos banidos (do País). A volta significava a morte. E ele voltou ao Brasil para integrar a resistência.” O jornalista diz que é essa mesma característica que repercute agora. “O Dirceu deve aparecer como o cabeça do mensalão, e era um subordinado ao presidente da República. Ele corajosamente resolveu o problema do Lula, porque o Lula pensava até em renunciar.”

Mensalão mostra degradação do sistema político
O jornalista acredita que o episódio do mensalão não seja um fato isolado, e que não mostra só uma degradação do PT, e sim de todo o sistema político. “O PP, que é o partido do (Paulo) Maluf, entrou no jogo e recebeu milhões. O PTB, o PMDB entraram no jogo. Todos eles foram corrompidos. Então é a degradação do sistema político.” Tavares contesta também os relatos de testemunhas do processo do mensalão, que nunca relacionaram o ex-presidente Lula ao esquema. “O chefe político de tudo isso, se houve, é o presidente da República. Porque o sargento vai comandar a tropa? Ele comanda quando as ordens vêm do capitão. O capitão dá as ordens que recebe do general. Assim por diante, uma cadeia de comando.”

Tavares afirma que as legendas deixaram de serem de fato partidos e se tornaram “aglomerados de pessoas em busca de interesses pessoais” e “um balcão de negócios”, mas ressalva: “o José Dirceu não pode ser isolado nesse contexto de corrupção”. Para o jornalista, o ex-ministro, além de ter perdido sua chance de substituir Lula na Presidência por causa do mensalão, teve sua biografia marcada pelo escândalo. “Se eu dou um tapa em um filho meu, se eu dou um tapa na minha mulher ou vice-versa, a minha biografia se mancha, eu posso ser o homem mais magnânimo do mundo”, exemplificou.

FONTE PORTAL TERRA

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Quatro sobreviventes: Flávio Tavares, José Ibrahim, José Dirceu e Mário Zanconato

A cachaça como sinal de liberdade e segurança

O ótimo documentário “Hércules 56”, produzido em 2006 pelo diretor carioca Silvio Dá-Rin, narra a dramática libertação de 15 presos políticos no Brasil, em setembro de 1969, a partir do sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick pela luta armada. A viagem dos presos até o México e depois à Cuba é narrada pelos nove sobreviventes do grupo na época de produção do trabalho: Agonalto Pacheco, Flávio Tavares, Ricardo Zarattini, José Ibrahim, Maria Augusta Carneiro, Ricardo Villas, Mário Zanconato, Vladimir Palmeira e José Dirceu (ficaram faltando os falecidos Gregório Bezerra, Luís Travassos, Onofre Pinto, Rolando Frati, João Leonardo Rocha e Ivens Marchetti). Agonalto morreria em 2007, em Aracaju, e Maria Augusta, em 2009, no Rio de Janeiro.

Outros entrevistados pelo documentário são participantes do sequestro, como Franklin Martins, Paulo de Tarso Venceslau, Claudio Torres e Daniel Aarão Reis (os comandantes da operação, Joaquim Câmara Ferreira, o “Toledo”, e Virgílio Gomes da Silva, o “Jonas”, morreram torturados pelos militares). “Hércules 56” mostra que o processo de libertação dos presos foi muito complicado. Quando 13 deles já estavam dentro do avião, no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro (Bezerra seria resgatado em escala em Recife e Zanconato, em Belém), nada garantia que conseguiriam levantar vôo. Militares radicais pára-quedistas chegaram a tomar a torre de controle do aeroporto segundos após a decolagem da aeronave.

Ao chegar ao México, circulava o boato que seriam deportados de volta ao Brasil. Foi então que o secretário de Governo daquele país, Luis Echeverría, pediu para que tirassem as algemas dos presos e garantiu que estariam a salvo. No documentário, questionado sobre qual o momento em que havia se sentido realmente livre, o ex-metalúrgico José Ibrahim responde:

– Foi quando eu e o João Leonardo derrubamos uma garrafa de tequila. No dia que nós botamos o pé lá. Ele falava assim: ‘Ibra’ – ele me chamava de Ibra – ‘Ibra, tá amarrado aquele negócio nosso, né?’. Eu digo: ‘Claro que tá, Jota’. Só eu e ele que sabia (sic). A gente ia chegar, botar o pé no hotel, pedir uma garrafa de tequila e derrubar. Pô, nós estávamos a seco há meses na cadeia. Só de vez em quando vinha a ‘laranjinha’, né (risos). E aí nós derrubamos essa garrafa de tequila, os dois. E fomos dormir.

DO BLOG FUTEPOCA

1 Comentário

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  1. - IP 177.43.18.204 - Responder

    Vídeo produzido pela revista Retrato do Brasil, do respeitado jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, desmonta acusações feitas pelo relator Joaquim Barbosa a determinados dos réus da Ação Penal 470; segundo ele, algumas condenações, como a de João Paulo Cunha, teriam sido armadas pelo atual presidente do Supremo Tribunal Federal com “mentiras escandalosas”; vídeo é apresentado pelo escritor e jornalista Fernando Morais; assista
    23 DE SETEMBRO DE 2013 ÀS 20:36

    247 – Um vídeo didático, de 27 minutos e 26 segundos, acaba de ser postado no YouTube e traz revelações surpreendentes sobre a Ação Penal 470, que tratou do chamado “mensalão”. Produzido pelos jornalistas Raimundo Rodrigues Pereira e Lia Imanishi, editores da revista Retrato do Brasil, e apresentado pelo escritor Fernando Morais, o vídeo acusa o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, de ter armado as condenações de alguns réus com “mentiras escandalosas”.

    Uma delas, por exemplo, seria a que ancorou a condenação do deputado João Paulo Cunha (PT-SP). Numa das sessões do julgamento, Barbosa afirmou que a contratação da agência de publicidade DNA pela Câmara dos Deputados, à época presidida por João Paulo Cunha, teria sido reprovada por várias instâncias de controle. Raimundo Pereira e Lia Imanishi demonstram o contrário.

    Em outro capítulo do vídeo, os jornalistas desmontam a tese do “desvio de recursos públicos” por meio da Visanet. Raimundo demonstra que os gastos autorizados pelo Banco do Brasil foram efetivamente pagos e que um dos maiores beneficiários da campanha foi justamente a Globo, que moveu dura campanha contra os réus no que chamou de “julgamento do século”.

    O vídeo foi publicado no YouTube com o título “Mensalão, AP 470, julgamento medieval”. Curiosamente no mesmo dia em que o jurista Claudio Lembo, um dos mais notórios conservadores do País, também definiu o processo como um “juízo medieval”.

    http://www.youtube.com/watch?v=tq15GeVliVI

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