gonçalves cordeiro

FILÓSOFO VLADIMIR SAFATLE: A única ideia sensata depois de semanas de ações paliativas para aplacar as manifestações populares foi a proposta de uma constituinte capaz de colocar em questão todo o sistema atualmente em funcionamento. A ideia era tão sensata que foi abandonada em menos de 24 horas.

 O filósofo Safatle lamenta que, no lugar da Constituinte, tenha ficado um plebiscito canhestro, em que a população será chamada a responder perguntas que ela não colocou. "Ou alguém imagina que o povo brasileiro foi às ruas para decidir se as eleições teriam lista fechada ou aberta, voto distrital ou estadual? Há algo de piada de mau gosto nesse tipo de manobra", escreve


O filósofo Safatle lamenta que, no lugar da Constituinte, tenha ficado um plebiscito canhestro, em que a população será chamada a responder perguntas que ela não colocou. “Ou alguém imagina que o povo brasileiro foi às ruas para decidir se as eleições teriam lista fechada ou aberta, voto distrital ou estadual? Há algo de piada de mau gosto nesse tipo de manobra”, escreve

Medo das massas
por Vladimir Safatle

Assim como o povo brasileiro, o povo da pequena Islândia um dia descobriu que estava em crise de representação. A crise econômica lhes havia mostrado a relação profundamente incestuosa entre classe política, imprensa e interesses econômicos do sistema financeiro.

Essa situação não seria superada por meio da troca dos partidos no comando, pois crises de representação exigem um movimento de outra natureza. Elas só podem ser realmente superadas quando saímos da própria esfera da representação, ou seja, quando fazemos apelo a uma força política bruta e instituinte fora do universo da representação.

Com essa consciência em mente, o povo islandês decidiu que era hora de ter outra Constituição. Mas, em vez de chamar juristas e políticos para preparar um esboço inicial do texto constitucional, eles fizeram algo mais ousado: mandaram, ao acaso, 950 cartas convocando 950 cidadãos a se reunirem em um estádio a fim de preparar as bases do que seria discutido na Assembleia Constituinte.

Essa incrível confiança no acaso, essa crença de que o acaso é o nome que desperta a potência da invenção democrática não foi a porta aberta para todos os delírios possíveis. Sua Constituição é uma das mais fantásticas peças da democracia contemporânea.

Há um tipo de pessoa incapaz de ter o único sentimento que realmente funda a democracia: confiança no povo. Para tais pessoas, toda vez que o povo é chamado à cena da instauração política, isso só pode significar convite ao caos e à desordem. O povo só pode aparecer dentro de um filme cujo cenário já está desenhado de antemão, seja para sorrir no dia da “festa eleitoral”, seja para plebiscitar perguntas que a classe política previamente decidiu.

Nesse sentido, a única ideia sensata depois de semanas de ações paliativas para aplacar as manifestações populares foi a proposta de uma constituinte da reforma política capaz de colocar em questão todo o sistema atualmente em funcionamento. A ideia era tão sensata que foi abandonada em menos de 24 horas.

No seu lugar, ficou um plebiscito canhestro, em que a população será chamada a responder perguntas que ela não colocou. Ou alguém imagina que o povo brasileiro foi às ruas para decidir se as eleições teriam lista fechada ou aberta, voto distrital ou estadual? Há algo de piada de mau gosto nesse tipo de manobra.

Se alguém realmente ouvisse a população em nossos governos, a solução islandesa seria aplicada e as propostas de reforma política sairiam de fóruns de participação direta pela sábia mão do acaso. Isso, entretanto, seria pedir demais para quem, no fundo, tem medo das massas.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na Folha de S. Paulo

5 Comentários

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  1. - Responder

    Ainda hoje permanece a essencia primordial comandando a experiência, o apriori determinando o acaso, e a certeza buscadas cada vez mais procrastinada. Até quando essa postergação que inventa uma liberdade que sufoca a criatividade do instante. Sem nortes livres sem centros produzidos. Como diz Antonin Artaud: quando não cuidamos das palavras elas voltam contra nós com virulências inauditas. obs. Fui companheiro de luta do tempo do Fernando Safatle em Goiás, pai dele. Abraços e parabéns.

  2. - Responder

    Não sei se eu entendi bem o Safatle: ele chama a insurreição iniciada por um movimento ligado a partido emergente que quer ser poder, depois apropriada pela direita raivosa, de chamamento do povo à cena da instauração política? Protestos que tentam, de modo canhestro, negar os resultados das urnas de 2010 (ou adiantar os de 2014)? Não sei se concordo com ele, aqui. Ele, um insuspeito colunista da insuspeita Folha, reprisando um e-mail que a direita nos mandou meses atrás sobre a Islândia? Bacana!!! Que sintonia de discurso! Além de marcharem ‘juntos’ (movimento do PSOL), falarem a mesma língua? (‘corrupção, dívida, copa não’) caraca! Direita e esquerda com o mesmo discurso?

  3. - Responder

    Ops … acabo de ler em outro blog que esse dado que ele cita é furado: a Islândia segue com a antiga constitução.

  4. - Responder

    OLHA NADA HAVER COM A MATÉRIA SÓ VOU COMENTAR UM DETALHE DESSA PÁGINA DO E… NUNCA MAIS FALOU DA DILIMINHA… E DO LULINHA.. POR QUE SERÁ.. AGORA SÓ COM ESSAS NOTÍCIAS VAZIAS.. TÁ COM MEDO ESSES BANDOS DE PETITAS

  5. - Responder

    Há que se levar em conta primeiro a cultura e a educação. Primeiro isso, depois chama o povo nos estádios para decidir o futuro da nação. Se não é capaz do povo decidir que o Tiririca deve ser o Presidente, o Romário vice, o Silvio Santos chefe da casa civil e o Ratinho presidente do congresso. Que deve ter futebol todo dia, que deve tirar todos os impostos dos carros mil e que a carga horária semanal de trabalho será de apenas 16 horas.

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