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FILÓSOFO GEOFFREY DE LAGASNERIE: “É preciso inventar um regime pós-democracia liberal. Esse modelo não promove a liberdade, a racionalidade ou a justiça, mas produz Trump, Boris Johnson, Bolsonaro…”

Legasnerie

Queda do Muro de Berlim: ‘Venceu a burocracia liberal capitalista’, diz filósofo Geoffrey de Lagasnerie

Nacionalismos mostram que queda do muro foi oportunidade perdida e que é preciso inventar uma nova democracia, afirma pensador francês

PARIS – Para o filósofo francês Geoffrey de Lagasnerie, a queda do Muro de Berlim, que completa 30 anos neste sábado, 9 de novembro, frustrou as expectativas de uma abordagem mais global dos problemas do mundo, favorecendo, na contramão, um pensamento de âmbito nacional, sob a tutela do liberalismo dominante. O pensador defende a superação do modelo da democracia liberal, que já teria comprovado sua incapacidade de vencer as injustiças e desigualdades, por um novo regime a ser inventado.

Com o olhar de hoje, como o senhor vê o momento histórico da queda do muro há 30 anos?

A queda do muro poderia ter sido ser o ponto de partida para a renovação de um pensamento em caráter mais mundial. Mas, paradoxalmente, foi o ponto de partida para uma certa forma de renovação do pensamento nacional e de nacionalismos. Não foi cumprida a promessa de refundar uma forma de pensamento do mundo em sua globalidade, para questões como o clima, a geopolítica da energia, a imigração. A queda do muro foi uma oportunidade perdida. Em vez de resultar em uma forma de renovação da capacidade de questionar mundialmente os problemas, foi o momento em que o internacional rimou com o liberalismo autoritário.

Como analisa as mudanças ocorridas desde então?

Uma das críticas ao modelo soviético se referia à burocracia e ao poder forte do Estado, que se opunha a uma utopia liberal, descentralizada e pluralista de mercado. Paradoxalmente, o modelo que substituiu é também amplamente burocrático: a burocracia liberal capitalista. Além disso, há hoje uma luta entre quem porta as ideias internacionais e nacionais. A Europa deveria ser capaz de superar os particularismos e colocar os problemas de forma continental. Dois movimentos tentaram repensar uma forma global: o WikiLeaks, na questão de transparência internacional e na aliança de cidadãos de diferentes países; e, pelo lado negativo, o terrorismo, com o Estado Islâmico. Mas, ao mesmo tempo em que os grandes problemas se tornam internacionais, o espaço de pensamento se torna nacional. Esta é a maior tensão contemporânea, e que predispõe a uma lógica de direita.

A bipolaridade da Guerra Fria acabou. Hoje EUA e China disputam, mas em outro contexto. Como vê isso?

Não diria que há um conteúdo de oposição tão intenso entre os EUA e a China. São dois parceiros, que comercializam entre si, mesmo com conflitos. Não se pode pensar na China como um contramodelo dos EUA. São dois Estados autoritários liberais que se confrontam por parcelas de mercados. Não dois modelos de sociedade que se contrapõem.

Há 30 anos, Francis Fukuyama apontou o “fim da História” com a supremacia da democracia liberal. O senhor concorda?

Acabo de publicar um livro, “A consciência política”, no qual defendo que é preciso inventar um regime pós-democracia liberal. É verdade que chegamos ao fim da História em termos de modelo. Compreendo que seja difícil imaginar algo além dos modelos da democracia, do Parlamento, do voto, da independência da Justiça. Mas vemos que esse modelo não promove a liberdade, a racionalidade ou a justiça, mas produz Donald Trump, Boris Johnson, Bolsonaro, Viktor Orbán, Matteo Salvini ou os fascistas na Áustria. Paradoxalmente, democracias liberais resultaram em governos eleitos, com uma legitimidade do voto, que são contrários aos valores do liberalismo, de justiça, de igualdade, da proteção de minorias e mesmo de decência mínima no tratamento das pessoas. Esses elementos devem nos estimular a pensar em regimes políticos além da democracia liberal. Não é possível mais suportar que alguém, pelo fato de ter sido majoritário em uma eleição, possa impor um poder fascista, desmontar a proteção ao meio ambiente, dar todo poder à polícia, suprimir direitos sociais ou jogar os imigrantes ao mar. Devemos encontrar um meio de sair disso, é preciso privilegiar o direito e a justiça sobre a democracia. Para mim, 1989 não é o fim, mas o começo da História.

Como superar a democracia de hoje?

É preciso pensar que a história humana foi feita de invenções. Quando se vivia sob a monarquia absoluta, a ideia de que se pudesse criar um sistema no qual as pessoas votassem devia ser considerada como uma loucura. No entanto, aconteceu.

 

O pensador defende a superação do modelo da democracia liberal, que já teria comprovado sua incapacidade de vencer as injustiças e desigualdades, por um novo regime a ser inventado.

O fracasso da democracia liberal apontado pelo senhor não poderia abrir espaço para a criação de regimes autoritários ?

O problema é que os desvios autoritários já estão presentes. Observa-se, hoje, que a forma como funciona a democracia inclui os desvios autoritários. Não se pode opor a um outro modelo, porque já está incluído.

Como o senhor analisa este momento do mundo com protestos das populações no Chile, Equador, Bolívia, Hong Kong, Iraque, Líbano, Argélia, Egito ou Guiné?

Vejo um ponto comum na reação dos Estados. Viu-se na França com o coletes amarelos e no Chile ou no Líbano que, quando as pessoas vão às ruas, o primeiro reflexo do Estado é atirar contra elas para que voltem para casa. Nunca é o de resolver o problema, saber se as pessoas estão realmente podendo comer, se exprimir, se têm onde dormir. Não se pensa nas pessoas que protestam, em seus problemas, mas no Estado como instrumento de dominação.

Como vê o governo Bolsonaro neste contexto mundial?

Comparado a Trump ou a Boris Johnson, penso que Bolsonaro tem algo a mais, em sua relação com o Exército, com a imprensa, sua violência verbal. E enquanto as esquerdas se encontram, hoje, isoladas e têm dificuldade em se organizar, as extremas direitas se apoiam muito internacionalmente. Mas Bolsonaro se inscreve na história do que chamamos de democracia, foi uma eleição. Não se deve pensá-lo como uma aberração, mas como algo que é possível em nosso sistema. No caso de se querer combatê-lo, deve-se também combater o que o tornou possível. Trump chegou ao poder com um Estado de poderes executivos que haviam sido reforçados por Barack Obama, principalmente nas questões da polícia e da imigração. Deve-se tornar o Estado o mais fraco possível, para que quando os extremismos estejam no poder não possam causar muitos danos. É preciso constitucionalizar mais direitos.

O Estado mínimo é um dos preceitos neoliberais…

É um erro quando se diz que vivemos em um mundo neoliberal. Reformas bancárias ou do serviço público são lógicas neoliberais. Mas quando se lê os teóricos neoliberais, a maioria é favorável à abolição da prisão, pois pensa que não cabe ao Estado prender as pessoas e defendem que os crimes devem punidos com indenizações individuais. São pela legalização das drogas, os direitos das minorias e contra a discriminação. Há todo um universo do neoliberalismo que não é a favor de um Estado punitivo, carcerário e de guerra às drogas. Os neoliberais são favoráveis à imigração incondicional, dizem que o Estado não deve controlar os movimentos das pessoas, e mesmo que sair de um país deveria ser um direito do homem. Friedrich Hayek disse isso, Robert Nozick e Gary Becker idem. Não se pode dizer que vivemos em uma sociedade muito laxista em termos de imigração. Vivemos em um mundo bem mais heterogêneo do que parece. Não penso que vivemos em uma sociedade neoliberal. Neoliberalismo não é uma palavra adequada, pois dá a impressão de unidade ao mundo caótico em que vivemos.  

Qual seu balanço do mundo de hoje ?

É um bom sinal quando as coisas são dramáticas, significa que não se têm a moldura para pensá-las. A invenção pode ser aterrorizadora, mas também positiva. Há ocasiões históricas a não serem perdidas. Em resumo, pode-se dizer que a extrema direita foi mais inventiva do que a esquerda nestes últimos tempos. Fez, por exemplo, um melhor uso do poder de Estado e das redes sociais. Soube captar as transformações para solidificar seu poder. A esquerda não fez este trabalho, não produziu novos instrumentos de pensamento, não se reinventou. É preciso se apropriar deste momento para sair da depressão. Todos os meus amigos estão deprimidos. Não falam de amor, de amizade, de rir, só de Trump. Meus amigos alemães estão petrificados com a AfD (Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita). A extrema direita conquistou uma forma de paralisia de nossas faculdades mentais e nos coloca em um tipo de angústia permanente. É preciso ser mais inventivo do que ela, sair do pessimismo e passar a uma fase mais experimental. Portugal, por exemplo, hoje é um país que experimenta um governo de esquerda em vários temas, na questão do Orçamento, dos direitos de imigrantes, dos transgêneros. Há coisas acontecendo.

FONTE O GLOBO 9nov19

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