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FELLIPE CORRÊA: Quem te viu, quem te vê, Zé Pedro Taques

Fellipe Corrêa e o governador Zé Pedro Taques

 

‘Quem te viu, quem te vê Pedro Taques’ 

por Fellipe Correa

 

No último sábado (5) o senhor fez um ‘duro discurso’ contra os ‘valentões que deixaram roubar MT no passado’. Esta foi a manchete na imprensa sobre seu pronunciamento em Barra do Garças, ao lado de autoridades locais e com os deputados federais Nilson Leitão e Fábio Garcia à sua esquerda e direita, respectivamente, no melhor estilo papagaios de pirata.

 

Eu o apoiei, voluntaria e gratuitamente, nas suas campanhas ao senado em 2010 e ao governo em 2014. Sua eloquência sempre me agradou, confesso! Mas o tal ‘duro discurso’, com a voz firme, em tom desafiador e repetindo algumas palavras para dar ênfase, bem, não passam de um discurso típico do senhor. E após 2,5 anos como governador, só atestam sua incoerência.

 

Pra começar, bastava o senhor virar de lado na referida ocasião e perguntar, baixinho mesmo e ao pé do ouvido, ao Fábio Garcia, herdeiro da Engeglobal, a construtora ‘responsável’ pelas obras do Aeroporto Marechal Rondon e do córrego 8 de abril, que dispensam adjetivações. O seu governo pagou a essa e outras empreiteiras pelas obras empenhadas na gestão passada?

 

Este jovem deputado que o senhor apoiou, que votou a favor da impunidade de Temer tanto no plenário da Câmara quanto, antes, na CCJ, não é um caso isolado: De Wilson Santos a Guilherme Maluf, seus aliados são as mesmas peças do tabuleiro político de outrora. Aliás, diga-se de passagem: Quantos da sua base na Assembleia são os mesmos da base de Silval?

 

Há alguns meses o ex-todo poderoso gerente da farra no Legislativo estadual José Riva meteu o loco em audiência e expôs como funcionava a compra de apoio dos deputados. Segundo ele, a partir do governo Blairo o bereré vinha do Executivo na forma de duodécimo e, desviado na própria Assembleia, era repartido pelos parlamentares. O senhor não aumentou o duodécimo?

 

Apoiei e votei no senhor esperando que fosse enfrentar o modus operandi destes que hoje são seus aliados, governador. Sua equipe inicial, cuja reputação e qualificação técnica foi explorada publicitariamente à exaustão, partiram – alguns para o ostracismo, como o excepcional Patrick Ayala e a intrépida Adriana Vandoni, e outros para serem injustiçados, como o Mauro Zaque.

 

Já aqueles que ao seu lado estavam pelas habilidades obscuras, entre uma prisão e outra vão desfalcando o time e virando pedras no sapato – de Alan Malouf, o mago financeiro da campanha, a Permínio Pinto, o nome então em ascensão no tucanato matogrossense. E qual foi seu posicionamento, governador? ‘Mentira’, ‘eu não sabia’, etc. É o Lula fazendo escola.

 

Agora, com a prisão do seu braço direito Paulo Taques por conta das escutas ilegais, a porra ficou séria, não é mesmo? E dizem nos bastidores que é só a ponta do iceberg das maracutaias do seu primo. Porém, se isso te assusta, o que me assusta é o seu posicionamento: “Onde estavam as autoridades que deixaram este Estado ser roubado na administração passada?”

 

‘Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala’, Pedro Taques. Foi alçado ao poder apenas e tão somente por cumprir com as suas obrigações como Procurador da República. E, logo você, questionando a credibilidade do Judiciário, do Ministério Público e dos órgãos de controle por estarem exercendo suas competências ao fiscalizarem sua gestão e a dos seus subordinados?

 

‘Duro discurso’ é uma ova. Discurso de conveniência, isso sim. Comum, é verdade, em especial em um contexto no qual a Lava-Jato está espirrando cocô pra todo lado: Os políticos que até ontem se infiltravam nas passeatas anti-corrupção hoje querem Moro e o MPF amordaçados, desmoralizados. Mas esse posicionamento, governador, é um atentado contra a República.

 

O senhor sabe disso. Sabe que a confiança popular nas instituições essenciais à justiça e no Judiciário são imprescindíveis à estabilidade do Estado de Direito e, consequentemente, à democracia. Além de ex-membro do Ministério Público Federal, você é professor de direito constitucional. E, de coração, não esperava mesmo tamanha irresponsabilidade da sua parte.

 

Não por ser constitucionalista: Michel Temer também é – doutrinador, diga-se de passagem – conhecimento que lhe serviu para cuidar do próprio rabo e dos interesses dos seus nas últimas décadas, em especial nos últimos meses, ainda que seja ao custo da opinião pública crer que justiça e bosta sejam a mesma coisa neste país. Do senhor, governador, eu não esperava por conta dos seus discursos recheados de ética e altruísmo. Seu foco não era o interesse público?

 

Submeta-se, Pedro Taques: A função dos órgãos de controle, do Judiciário e do MP é fiscalizá-lo, e você como gestor público deve inclusive auxiliá-los no exercício dessa competência constitucional. Intimidar agentes públicos no cumprimento de suas obrigações, taxando-os de ‘valentões’ e argumentando que não o fizeram nas gestões anteriores é, desculpe, ri-dí-cu-lo.

 

Não é à tôa todo este movimento da dita classe política para desacreditar o Judiciário, o MP e a Polícia Federal: As massas são inflamáveis justamente pela falta de conhecimento, e podem ser colocadas contra a Justiça assim como foram induzidas a acreditar que o problema do Brasil era o PT, exclusivamente. E o PT, o PSDB, o PMDB e cia estão todos na mesma lama.

 

Então insisto no pedido, Pedro Taques: Submeta-se à fiscalização, nos termos da lei. Você já se submeteu aos interesses do agronegócio, às exigências do governo Temer e até ensaiou meter o dedo no Parque da Serra de Ricardo Franco pra fazer um carinho nos bagos de Elizeu Padilha – tudo isso em prol dos seus planos políticos. Não rola fazer o mesmo por um bem maior?

 

Se perseguição descarada a adversários políticos, inclusive via grampos ilegais, já era demais, desmoralizar as instituições e a Justiça para barrar investigações é um desserviço inconcebível. Onde está aquele pequeno-grande homem em quem eu acreditei? Como cantou Chico, ‘quem não a conhece não pode mais ver pra crer; quem jamais a esquece não pode reconhecer.’

 

P.S.: A crítica é construtiva, mas se o senhor ficar putinho comigo saiba que lhe apoiei sem nunca receber ou pedir nada, nem tenho cargo ou benefícios na sua gestão – meu único patrimônio é o que lhe falta hoje, governador: Coerência.

 

Fellipe Correa é coordenador estadual de juventude da Rede Sustentabilidade e foi candidato a vereador em 2016.

Categorias:Cidadania

2 Comentários

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  1. - Responder

    Política no Brasil, nem de longe, pode ser associada ao embate positivo de idéias e posicionamentos em prol de um bem maior (do bem coletivo). É um negócio sujo, um mero instrumento para viabilizar a satisfação de projetos pessoais de poder (e de dinheiro), projetados sob um discurso de “construção da sociedade”. É algo pesado, bruto… feito para profissionais, com muito estômago e poucos escrúpulos. Uma pena. A imagem idealizada e romantizada da política em músicas e livros de filósofos é uma miragem… Verdadeiramente, uma pena que numa nação tão bela, com um povo tão diferenciado, não consigamos ter uma classe política que, verdadeiramente, honrem a crença popular…

  2. - Responder

    A cabrocha mais bonita…

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