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FELLIPE CORRÊA: Tenho buscado ser mais construtivo do que crítico, mas preciso me posicionar sobre a matéria da TV Centro América que supostamente pretendia ‘demonstrar’ a incapacidade do Gefron para patrulhar a fronteira Brasil-Bolívia. Inegável a má-fé da emissora afiliada à Rede Globo em MT

Alex Barbosa, repórter de rede da Rede Globo, em Mato Grosso, e a cocaína: mico na fronteira da Bolívia

Alex Barbosa, repórter de rede da Rede Globo, em Mato Grosso, e a cocaína: mico na fronteira da Bolívia

“Vergonha alheia” do jornalismo da TV Centro América

FELLIPE CORRÊA

 

Tenho buscado ser mais construtivo do que crítico, mas preciso me posicionar sobre a matéria da TV Centro América que supostamente pretendia ‘demonstrar’ a incapacidade do Gefron para patrulhar a fronteira Brasil-Bolívia, e que foi frustrada pela abordagem policial que apreendeu os mais de 200kg de ‘pó de gesso’ transportados pela equipe de reportagem.

Inegável que o efetivo e a estrutura estão aquém do necessário para coibir o tráfico nos 780km patrulhados pelo Grupo Especial de Fronteira, como prontamente admitiu o secretário de Segurança do Governo de Mato Grosso – realidade que, na verdade, engrandece o trabalho desempenhado por eles.

Mais inegável ainda é a má-fé da emissora afiliada à Rede Globo em MT: Não bastasse a ‘fabricação’ da matéria, com nítido objetivo de depreciar a atuação das forças policiais estaduais, mais triste ainda foi observar a forma como foi editada a reportagem, insistindo em ressaltar quantas horas e KM’s se passaram até que fossem detidos com o ‘simulacro’ de cocaína.

E não digo isso pelas repetidas vezes em que isso foi citado na matéria, ou dito pelo âncora do telejornal regional com um inacreditável olhar de ‘Cadeia Neles’, mas pela óbvia realidade: A droga não sai de MT em direção à Bolívia, apenas entra – e, geralmente, no horário em que a equipe de reportagem foi parada na ‘blitz’ já a caminho de Cuiabá.

Não preciso argumentar mais do que isso pra demonstrar a manipulação pretendida. Justificativas da emissora de que o Ministério Publico Federal foi previamente informado e de que a abordagem policial decorreu de ‘denúncia anônima’ me fazem ter ainda mais ‘vergonha alheia’ do jornalismo praticado pelo maior veículo de comunicação do Estado.

Deviam, em verdade, era reconhecer o mérito dos seres humanos ali alocados, longe de suas famílias e lares, em menor número e menos armados do que os traficantes-de-verdade que combatem diariamente. Deviam, também, desculpar-se por ocupar 15 agentes e 4 viaturas com a ‘pegadinha’, sobrecarregando ainda mais os demais agentes do Gefron.

A liberdade de imprensa é fundamental ao Estado Democrático de Direito, mas isso não é fundamento para disparates como este – antes, é mera desculpa para forçar a barra em retaliação à gestão de Pedro Taques, que decidiu reduzir drasticamente os absurdamente polpudos repasses à emissora, como fez com diversos outros veículos de comunicação.

Na falta de ‘denúncias de corrupção’ para extorquir, só restou tentar apontar ‘incapacidade gerencial’ – vale recordar a afirmação do então ex-senador e candidato ao governo durante a convenção do PDT que antecedeu a campanha: “Nunca administrei nada, mas também não roubei nada”. Fato.

Considerada tiro-no-pé à época, prefiro me lembrar da frase como ‘célebre’, tal qual a tão repetida citação de Victor Hugo: “Nada é tão poderoso quanto uma ideia cujo tempo chegou”. O maior sinal desse ‘novo tempo’ é a percepção generalizada dos reais objetivos do ‘jornalismo’ atualmente praticado pela TVCA – hora explorando o sofrimento dos que perecem nas filas da saúde pública, hora ‘traficando’ pó-de-gesso pela fronteira da Bolívia.

Mais: É leviano bradar por ‘liberdade de imprensa’ com pautas impostas ‘de cima’ e definidas por interesses espúrios. Essa liberdade deveria ser garantida, antes, aos jornalistas da emissora, para fazerem reportagens sobre os montantes pagos a ela pelo Governo e pela Assembleia Legislativa nos tempos de Silval Barbosa e José Geraldo Riva.

Até vovó sacava a malandragem da dupla, mas foram longos anos até que a perda de foro privilegiado jogasse-os nas mãos de uma juíza com colhões para que fossem presos. A imprensa – de forma geral, mas em especial a Globo local – só passou a denunciar os rombos bilionários de Silval e Riva quando a ‘morte política’ de ambos já era irreversível.

Em outras palavras, ‘se desse mato não sai cachorro, taca-lhe pau até que saia’. O ‘cachorro’, no caso, é dinheiro; o ‘mato’, o Estado; e o ‘taca-lhe pau’ não tem qualquer ética envolvida – pilhando os cofres públicos ou tentando recolocar MT nos trilhos, o que importa é se do ‘mato sai cachorro’. E, convenhamos, é bem mais fácil achacar corruptos.

Durante a Ditadura que viabilizou a ‘mutação’ do O Globo impresso para o monstrengo TV Globo, a emissora era sinônimo de poder. Não só para o Regime, mas especialmente para os donos das afiliadas – essa é, inclusive, a origem da ‘natureza divina’ de Antônio Carlos Magalhães na Bahia, e de José Sarney no Maranhão; o atraso desses estados é consequência lógica.

Hoje, contudo, ficou pior: Não é pelo poder – ou a Globo estaria reagindo à vertiginosa perda de credibilidade – mas pelo lucro. Contudo, a história há de fazer justiça ao desserviço prestado ao interesse público por aqueles que obscurecem o nobre papel do jornalismo ao blindar ou perseguir sem qualquer criticidade fora o ‘quem dá mais’. E quero estar vivo pra ver.

 

FELLIPE CORRÊA é filiado à Rede Sustentabilidade em Mato Grosso.

Categorias:Imprensa em debate

2 Comentários

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  1. - Responder

    Parabéns pelo artigo, Fellipe.

  2. - Responder

    Vi a reportagem e acho que houve realmente muito exagero. Me diga lá: precisava eles amontoarem tanta “cocaína” no porta-malas daquele carro. Parece que o repórter Barbosa sonha em ser sucessor do Pablo Escobar. Ele exagerou na quantidade de “cocaína”!

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