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FELLIPE CORRÊA: Charlottesville, nos Estados Unidos, é só um sintoma

CHARLOTTESVILLE É SÓ UM SINTOMA

por Fellipe Correa

Seja em tribos, clãs, cidades-estados ou impérios, a história do homem resumiu-se ao apogeu e declínio das diversas sociedades no decurso dos séculos. Essas sociedades, que guerreavam ciclicamente entre si, gradativamente tornam-se, enfim, um só grande ‘organismo’, que chamamos ‘humanidade’. Diante da legalidade das atrocidades nazistas, cometidas conforme a lei alemã, após Nuremberg os ‘direitos humanos’ impõem limites até à soberania nacional.

Do primeiro carro a vapor até o 14-bis de Santos Dummont foram mais de 130 anos; lançado em 2005, o A380, maior avião comercial do mundo, comporta mais de 800 passageiros. Em 2012 o trem-bala chinês percorria sua linha inaugural de 2.300km em 8h; em 2016, os já 22 mil km de linhas ferroviárias do país são percorridos em até 400km/h, uma velocidade 25% maior. A humanidade, esse grande ‘organismo’, tem um ‘sistema circulatório’ cada vez mais eficiente.

Mas o salto evolutivo mais perceptível deste grande ‘organismo’ é em seu ‘sistema nervoso’: Se do telégrafo à TV percorremos 120 anos, em duas décadas a internet já permite a conexão entre todas as ‘células’ – nós, indivíduos. Se até então as grandes corporações da comunicação dominavam o teor das mensagens e sozinhas elegiam (e derrubavam) governos, tudo mudou. Porém, tanta liberdade nessa ‘terra de ninguém’ chamada internet exige de nós bom senso.

A irracionalidade em Charlottesville, no estado americano da Virgínia, primeiro com a marcha dos tais supremacistas e, na sequência, com o violento confronto que tomou conta das ruas, é só um presságio. O problema não se resume àqueles americanos de tochas na mão entoando brados de intolerância, garanto-lhes: Eles são apenas o sintoma, como um grupo de células cancerígenas identificadas na tomografia – mas o organismo, como um todo, está doente.

A ‘inteligência artificial’ do Facebook e de mecanismos de busca como o Google colecionam as nossas preferências continuamente, para oferecer-nos informações que nos ‘agradam’. Cada like, cada link acessado, tudo é arquivado e cruzado para que em nossas timelines e pesquisas apareçam o que, em tese, procuramos. O resultado prático, contudo, é catastrófico – só vemos opiniões e posicionamentos similares aos nossos, e outra certeza é impossível: Estamos certos.

Reflita: Quem iria marchar de tochas na mão se achasse, verdadeiramente, que está errado? Aliás, assimile: Aquela galera da Ku Klux Klan tinha certeza que estava certa, não porque suas timelines – então inexistentes – estavam recheadas de #KKK, mas por estarem inseridos em comunidades que, à época, defendiam esse pensamento. O mesmo podemos dizer dos black blocks, dos hooligans, dos jihadistas, etc. A violência é manifestação física de suas convicções.

A mesma rede que catalisou a Primavera Árabe e as manifestações no Brasil em 2013 serve à divulgação ideológica, arregimentação e organização de ações supremacistas, neonazistas, xenofóbicas e xiitas, entre outros incontáveis grupos extremistas. A solução não é dar marcha ré na liberdade de expressão, como querem alguns governos – risco que corremos, saiba, pois as ‘redes sociais’ são privadas e qualquer censura exige apenas uma canetada do Zuckerberg.

A verdadeira solução, pasmem, não tem nada a ver com tecnologia, ou com a modernidade. É milenar, foi abordada de forma irretocável por um certo galileu chamado Jesus Cristo e teve sua eficácia atestada na prática por Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr: A não violência. Não vou encher este artigo de versículos e frases célebres, pois tenho a certeza de que vocês as conhecem. Mas, neste momento crucial da história, precisamos passar da retórica à ação.

Se o ‘Mein Kampf’ de Hitler e a publicidade de Goebbels incitaram toda uma nação contra os judeus (e outras minorias), e o ‘ame-o ou deixe-o’ do Regime Militar impôs um nacionalismo artificialmente homogêneo fundado na comunismo-fobia e na violência contra os dissonantes, em Charllotesville foi diferente. Claro que os discursos irresponsáveis de Trump tiveram o seu papel na equação, mas os indivíduos – contra e a favor – é que engrossaram o caldo do ódio.

As opiniões deste e outros personagens que confundem intolerância com firmeza ganham força a cada compartilhamento, não só de suas mensagens, mas também daquelas contrárias a eles e seus apoiadores, e tão violentas quanto. Em meio às agressões, qualquer argumento válido fica em segundo plano. Um cuspe, uma ovada ou um “você não merece ser estuprada” tornam-se, ao mesmo tempo, absurdo e louvável, dependendo do ‘lado’ de quem avalia.

Estamos todos mergulhados até o pescoço nessa vala comum. Se sequer percebemos isso é porque temos plena convicção de que estamos certos – e ressalto, qualquer homem bomba do ISIS também tem, ou não se explodiria. Ter opinião não é erro, é necessário. Mas, para ontem, precisamos aprender (e ensinar) que quem pensa diferente não é inimigo – antes, é um igual que tem o mesmo direito de ter sua própria opinião. Esse é o primeiro passo para o diálogo.

Há quem odeie democracia, sem notar que seu inverso é a política do fuzil. O mesmo se aplica à rejeição do diálogo: O que resta, senão a violência? Se a evolução deste grande ‘organismo’ chamado humanidade nos empurra para a integração, o problema está no sistema nervoso central, no cérebro. No caso, nos nossos cérebros, na nossa mentalidade. A humanidade é como uma criança que, já tendo desenvolvido suas funções motoras, agora precisa amadurecer.

Há um famoso sermão que diz “se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra”. Por mais utópico que pareça, é genial: Se alguém, movido por convicções, te agride, quais são as opções? A primeira, óbvia, é devolver a taca e selar a inimizade. A segunda é tomar o tapa. E só. Claro, haverá dor, mágoa e até raiva – mas caberá só a você perdoar. E dará ao seu agressor a oportunidade de se questionar e até se arrepender. Nesse caso, ele pode vir até a te ouvir.

Não foram confrontos sangrentos que despertaram a opinião pública para a injustiça racial nos Estados Unidos, mas as marchas não violentas capitaneadas por Luther King. Da mesma forma, em um mundo muito menos conectado do que podemos imaginar, foi guiando os indianos em fila para serem esbofeteados que Gandhi derrotou a Coroa Britânica. Ambos tiveram, assim, apoio não só dos seus, mas também de brancos americanos e de britânicos, respectivamente.

Ao contrário da violência, tipicamente irracional – em especial a coletiva – a não violência é ação consciente. A lógica é difícil, mas empiricamente comprovada: “Após meio século de experiência, sei que a humanidade não pode ser libertada senão pela não-violência; se bem entendi, é esta a lição central do cristianismo”, escreveu Gandhi.  Para ele, que era hindu, “não existe outro modo de purificar o mundo” senão pela união da “mais firme resistência ao mal com a maior benevolência para com o malfeitor”.

Exatamentchy, Mahatma.

 

Fellipe Correa é cristão, coordenador estadual de juventude da Rede Sustentabilidade MT e apresenta o programa Foca na Sexta da Metrópole FM.

 

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