FABIO CAPILÉ – Os pacientes, para alguns médicos, passaram a ser números, os atendimentos pelo INSS passaram a representar prejuízo, os planos particulares se tornaram aviltação do trabalho, e o atendimento particular lucro, só lucro.

Fabio Capilé é advogado em Mato Grosso

ERRO MÉDICO – DO SACERDÓCIO AO NECROTÉRIO
por FÁBIO CAPILÉ

Na atualidade temos a nossa disposição uma ampla literatura que nos ensina, nos aconselha e nos faz refletir. A Bíblia, por exemplo, nos traz a história de Abraão, que foi colocado à prova, por Deus, quando este determinou que levasse seu filho Isaac à terra de Moriá e, de um altar, o entregasse em holocausto. Sem titubear, ofereceu o filho para a imolação. Em resposta a tanta fé e confiança, Javé simplesmente livrou Isaac da morte, consagrando a herança do Patriarca das três grandes vertentes originadas no Oriente Médio, a dos cristãos, a dos judeus e a dos maometanos. Essa foi verdadeiramente uma prova de

A Medicina é uma profissão sagrada, onde as pessoas entregam suas vidas em confiança aos médicos, cuja missão é a de salvar vidas. Assim, todos que optam pelo sacerdócio de carreira tão prodigiosa, devem encarar suas ações como iluminadas e abençoadas. Infelizmente, muitos, nos dias hodiernos, escolhem a referida profissão, não por sua nobreza, ou visando desenvolver o dom de auxiliar pessoas na busca de vencer a ameaça de óbito, mas sim fazer da profissão uma atividade rentável, tendo como alicerce as cifras e a fama proporcionadas pelo uniforme branco e o status de doutor.

Contudo, a minha preocupação não está na intenção do profissional, ao exercer o seu ofício visando a retributividade financeira, o que o projetará, por certo, a um estado de tranquilidade ainda maior no exercício de suas atividades. O que me atormenta é o fato de profissionais não possuírem condições técnicas ou psicológicas para atuar e mesmo assim, por dinheiro, acabam se enveredando por caminhos sem volta, verdadeiros abismos onde a vida do paciente é que está à prova. É certo que o erro médico se constitui na falha do profissional ao exercer a profissão, sendo que, o mau resultado, é normalmente a consequência decorrente da ação ou omissão do agente, por inobservância de conduta técnica adequada e recomendável.

Ultimamente, na condição de Advogado da Associação de Vítimas de Erro Médico de Mato Grosso, tenho me deparado com uma série de ações de profissionais que não respeitam minimamente os procedimentos necessários visando salvar vidas. É lógico que em alguns casos excluem-se as limitações impostas pela própria natureza da doença, bem como as lesões produzidas deliberadamente pelo médico para tratar um mal ainda maior, como é o caso de uma cicatriz, em virtude da necessidade de uma intervenção cirúrgica de urgência, onde o bem da imagem/estética se queda diante do maior bem jurídico, “a vida”. Mas o que assusta é que casos simples de resolver acabam tendo contornos de gravidade, e às vezes, até de óbito, ante a negligência de médicos e profissionais da saúde, que muitas vezes passaram a tratar situações de enfermidade como problemas comezinhos do dia-dia, em que nada fazem, e largam o paciente à míngua, com dores crônicas insuportáveis, passando a ser tratados como mais um item estatístico na fila de espera.

Os pacientes passaram a ser números, os atendimentos pelo INSS passaram a representar prejuízo, os planos particulares se tornaram aviltação do trabalho, e o atendimento particular lucro, só lucro. Se, por um lado a ânsia de ganhar e ganhar impõe a uns a realização de atividades não permitidas ante a falta de especialização e capacitação, a outros impõe uma longa e desgastante jornada de trabalho. Em ambas temos risco sério ao enfermo, sendo a primeira pela imperícia e a segunda, pela negligência do profissional por deixar de realizar procedimentos que, em situação normal, certamente realizaria.

O que me conforta, é saber que ainda existem Médicos éticos e responsáveis, tais quais aqueles de novela de época que, de posse da sua maletinha mágica, preocupavam-se, acima de tudo, em salvar o paciente, e não somente a sua conta bancária.

 

Fabio Capilé é Advogado da Associação das Vítimas de Erro Médico de Mato Grosso, Presidente do Instituto dos Advogados Mato-grossenses, Professor Universitário e Conselheiro Titular da OAB/MT

www.capileeoliveira.com.br

Categorias:Direito e Torto

4 Comentários

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  1. - IP 177.17.207.6 - Responder

    Caro Fabio Capilé, lendo o Título de seu artigo logo se percebe que o senhor não foi fazer uma pesquisa sobre a real situação do médico em nosso país. Você diz que o médico encara o SUS como prejuízo, mas fique o senhor sabendo que aproximadamente 3/4 dos médicos do país tem algum tipo de vínculo empregatício com o SUS (http://faxsindical.wordpress.com/estudo-demonstra-que-medicos-se-vinculam-principalmente-ao-servico-publico/). Isso mesmo Sr. Capilé, 72,2% dos médicos atuam no SUS, sendo este é o maior empregador da categoria médica. Observando este número impressionante, o número de maus resultados que vem a se tornar processo éticos profissionais ou criminais com certeza são considerados ínfimos! Noutro trecho do seu título, você diz que trabalhar para planos de saúde é aviltante, posso até concordar parcialmente, mas também neste caso uma grande parcela dos médicos brasileiros tem algum tipo de vínculo com este tipo de serviço. E no final, o paciente que paga consulta particular atualmente mudou o seu perfil enormemente. Antigamente, há alguns anos atrás o paciente particular era o que detinha uma condição financeira boa e podia se dar ao luxo de escolher e pagar seu profissional médico. Mas com o passar dos anos, este cidadão passou a comprar um plano de saúde e deixar de fazer a sua consulta por modalidade particular. Atualmente, a maioria das consultas particulares que os médicos atendem, são de pacientes que não tem condições de ter um plano de saúde e quando fica doente juntam suas economias e com ajuda da família vão e pagam a consulta. Portanto, caro senhor Capilé, as consultas particulares em consultórios médicos ou em prontos atendimentos são escassíssimas e não podem de modo algum serem consideradas somente lucro, como o seu título tenta impor. Seu artigo apenas tenta colocar e propagandear os médicos como o maiores responsáveis pelos problemas apresentados pelo sistema de saúde em nosso país. O que é uma visão deturpada da profissão. Lamentável!!!

  2. - IP 201.71.183.6 - Responder

    Parabéns ao jovem colega….muito boa e oportuna sua matéria..é preciso acrescentar apenas e com indignação, a atuação do Judiciário, que em algumas vezes dá seu aval e contribui para a impunidade dos profissionais da medicinaque deveriam sofrer a reprimenda…infelizmente temos casos concretos de magistrados que assumiram a advocacia do médico e fizeram de réu a vida que se foi….

  3. - IP 189.98.252.227 - Responder

    Professor Capilé, não podemos olvidar que hodiernamente, grande parte dos médicos do Estado de Mato Grosso que atendem pelo SUS, estão há praticamente 4 meses sem receber seus salários.
    E mais, não esqueçamos o DESCASO do ESTADO DE MATO GROSSO com a saúde pública, a exemplo da cidade de Sorriso, onde os profissionais da saúde ficaram sem receber por muito tempo.
    Logo, forçoso concluir que, não raras vezes, o erro não é apenas do médico, mas sim do ambiente de trabalho (falta de ESTRUTURA) e, pior: NÃO RECONHECIMENTO por parte de quem deveria dar prioridade à saúde: NOSSOS GOVERNANTES!!!

  4. - IP 177.41.93.187 - Responder

    Dr. Fábio Capilé parabéns pelo seu artigo.
    E, diante do artigo citado acima, venho informar a vossa senhoria que no dia 11 deste mês, veio a falecer uma garotinha de 12 anos de idade portadora de síndrome de down, causa da morte pneumonia, óbito que aconteceu por negligencia médica, vamos aos fatos.
    Há mais ou menos 90 dias a pequena Beatriz começou a passar mal, a mãe a levou na policlínica, a médica que a consultou disse que era uma virose passou remedinho pra virose e a liberou.
    Dias depois a menina piora novamente a mãe corre com ela para a policlínica, a medica que a consulta novamente diagnostica como virose, não pede nenhum exame nem ao menos um raio x, da pequena Beatriz, novamente remédio pra virose e mãe retorna pra casa com a filha.
    Logo em seguida menina piora em casa, mãe leva na policlínica, médica diz que é virose, e isso acontece por várias vezes até me parece que no dia 08 deste mês no período noturno a mãe leva a pequena na Policlínica uma médica a atendeu e disse que trataria dela se ela ficasse uns dias internada, mas a médica sairia no dia seguinte de férias, pediu que a mãe retornasse no dia seguinte e consultasse com a outra médica que estava de plantão. No dia seguinte a mãe volta a policlínica com sua filha já bem debilitada a médica que a atendeu só prescreveu um soro pra menina tomar ali mesmo na policlínica, enquanto a menina tomava o soro chegou uma outra médica e viu o estado da saúde da menina, falou essa menina não pode ficar aqui sem oxigênio ela tem que ser transferida agora para o pronto socorro, não pode ir nem de ambulância tem que chamar uma viatura da samu para removê-la para o pronto socorro, e assim foi feito acionaram o samu, pois a viatura do samu tem oxigênio, chegando na emergência do pronto socorro a médica que a examinou viu que a situação era gravíssima chamou a mãe pra conversar perguntou o que tinha acontecido, a mãe fez todo o relato, essa médica disse que a mãe tem que entrar com um processo judicial contra as médicas que atenderam sua filha, pois foram negligente, omissas e relapsas. Aí a médica já informou pra mãe que o estado de saúde de sua filha era gravíssimo já a entubaram e levaram para a UTI, horas depois veio a noticia já esperada a pequena Beatriz acabara de falecer.
    Diante dos fatos acima citado a mãe da pequena Beatriz está de posse de todos dos documentos, receituários, prontuários médicos desde a primeira consulta até o seu óbito.
    Dr. Fábio se o senhor se interessar por este caso, meu telefone é: 65 9229 5020 meu email é: josedias112@hotmail.com, que eu levo a mãe da pequena Beatriz até o seu escritório.

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