ÉZIO OJEDA: Desde a má remuneração, falta de condições de trabalho até a preservação da boa imagem a que faz jus, nós, médicos, temos muito que trabalhar em nossa sociedade. Enquanto nossos gestores encararem os investimentos na Saúde Pública como gastos, permaneceremos neste breu.

  Assim como tantos, o médico também está doente e tem o direito ao tratamento. Quem o atenderá? - indaga Ézio Ojeda, médico e advogadoEm defesa do médico
POR ÉZIO OJEDA

O nosso país é famoso mundialmente pelas riquezas naturais e pela grande gama de oportunidades que gera a quem o procura. Em alguns casos, isso se configura como a mais límpida realidade. Em outros, porém, vemos que certa volúpia incoerente existe nos tais sofismas.

Percebemos que a cada dia o cidadão brasileiro assiste a uma deterioração de valores sociais e éticos jamais implantada. Nem adentrarei no tema de depauperação cultural, pois isso me custaria muitas divagações e certamente diversas incompreensões. O nosso povo lê, quando muito, o insuficiente. Nisto, pagamos o alto preço da ignorância: a alienação. Conveniente aos governantes que se perpetuam na famigerada política do fisiologismo e da oferta cesariana do “pão e circo”, atualizada em bolsas assistencialistas, futebol e carnaval, somos internacionalmente rotulados como a terra das mulheres seminuas e da corrupção!

Sinceramente, eu quero mais para o meu futuro e de meus filhos…

Em sites e jornais sérios, acompanhamos rotineiramente os descaso com o bem público: Saúde, Educação, Segurança. A estrela da vez e de todas as atenções agora é a Copa do Mundo. Nada mais interessa. Como médico, catedraticamente posso discutir a situação pertinente. A nossa categoria já faz praxe em compor movimentos paredistas perseguindo salários ínfimos, mesmo com a recomendação da Federação Nacional em estabelecer um piso digno. O médico de hoje é outro. A população, principalmente a mais carente, começa a sentir na pele os resultados desta “inovação” de parâmetros. Estamos tratando de quem estuda a vida inteira para salvar a vida do outro. Outro que talvez nem o cumprimente na rua após sua alta hospitalar! Ao invés, nem mais nos admiramos quando se noticiam agressões físicas contra plantonistas desafortunados e com subsídios frequentemente em atraso.

Como se não bastasse isso, vem crescendo outra problemática atinente aos tais profissionais. A já popular “Indústria das Indenizações” abarrotam as prateleiras dos Tribunais em busca de ressarcimento, na maioria das vezes indevido dos alegados “erros médicos”. Depois de precondenados pela opinião pública, o que é reservado ao acusado, mesmo se absolvido? Alguém urge refutar estas absurdas incursões degradantes de uma coletividade idônea.

A exemplo do neurocirurgião carioca que teria previamente comunicado a direção do hospital da sua ausência no plantão de fim de ano, agora respondendo pela morte de uma vítima de bala perdida. O atirador estaria isento de qualquer culpa ou dolo? Não foi ele quem a matou, mas o assassino seria o médico? Este não pode adoecer e faltar o serviço como qualquer ser humano? A massa desinformada logo deu o seu veredicto, coitado do colega… Nestes tempos de difamação generalizada, do anonimato das maledicências, as pessoas de bem têm o dever de se posicionarem em favor dos bons costumes. Sim: dever! Que isso seja estendido a todas as classes. Os Magistrados, advogados, a própria Igreja, os professores, os policiais e jornalistas, enfim, todas as instituições são imprescindíveis à existência do Estado Democrático de Direito e podem fazer a diferença, senão pelo mundo, pelo menos pelo nosso Brasil. Quão grande seria nossa satisfação em ser espelho nesta seara cívica?!

Carnelutti, um grande jurista italiano, de Udine, dizia: “aos inocentes, a mera acusação serve-lhe como condenação irreparável.” Aqui não me faço defensor daqueles que porventura desonrem a investidura santa da Medicina, mas pondero a inquestionável maioria dos bons “filhos de Esculápio”. Em todas as áreas encontraremos joio e trigo. Preciso é, porém, não ser injusto em incinerar tudo junto. “Um inocente preso custa mais que uma multidão de malfeitores soltos”, parafraseio um amigo e mestre das aulas noturnas de Direito.

Desde a má remuneração, falta de condições de trabalho até a preservação da boa imagem a que faz jus, temos muito que trabalhar em nossa sociedade. Enquanto nossos gestores encararem os investimentos na Saúde Pública como gastos, permaneceremos neste breu. Enquanto não nos unirmos, estaremos fadados ao descaso das megaempresas exploradoras de nosso trabalho, assim como de uma equivocada política de terceiro mundo!

Passamos por dias difíceis.

Assim como tantos, o médico também está doente e tem o direito ao tratamento. Quem o atenderá?

* ÉZIO ROBERTO SANTOS OJEDA, médico (CRM 3309) e advogado (OAB 15940) em Cuiabá/MT

ersojeda@gmail.com

1 Comentário

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  1. - IP 201.88.47.187 - Responder

    Excelente, Doutor!

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