TCE - DEZEMBRO

Estudantes da Escola Livre Porto revivem teatro crítico de Dias Gomes, no auditório da OAB que, neste final de semana, se transforma em novo teatro cuiabano. Marido de Janete Clair foi um dos comunistas da Rede Globo, produzindo para a televisão sucessos como “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”

Dias Gomes, escritor brasileiro

Dias Gomes, escritor brasileiro

CRÍTICA SOCIAL

Estudantes revivem teatro crítico de Dias Gomes

 

Estudantes da Escola Livre Porto encenam ‘A Revolução dos beatos’,  narrativa bem-humorada sobre misticismo e corrupção

 

Especial para o DC Ilustrado

 

Os estudantes do 3º ano do Ensino Médio da Escola Livre Porto Cuiabá estão apresentando até domingo (12.6), no auditório da OAB, agradavelmente transformado em Teatro, sempre às 20h, a peça ‘A Revolução dos beatos’, uma adaptação do texto do autor Dias Gomes que traz uma crítica política e social à corrupção e ao fanatismo religioso no Brasil.

 

Por se tratar de uma comédia, a proposta é convidar o público para refletir sobre temas complexos, mas de forma leve e irreverente. Para o estudante Régis, que vive dois personagens, um deles o Fanático, foi interessante experimentar o exagero na crença religiosa, principalmente, porque sua família não tem religião. “Em alguns momentos pareço estar louco, foi incrível vivenciar isso, um aprendizado.”

 

As estudantes Luana Correia e Michaela Borges se revezam nos dias das apresentações para dar vida a um personagem cego, algo que elas avaliam como único em suas vidas. Num primeiro momento, antes de entrar em cena, elas comentam que preferem fechar os olhos para internalizar que já não enxergam mais. “É muito estranho, diferente, como conseguir fazer isso? Vivenciar esse outro lado é desafiador, nós todos deveríamos tentar nos colocar no lugar dos outros”, afirmam as jovens.

 

Pedro Durigon apresenta o Político, um homem egoísta, manipulador, mas que ao mesmo tempo vai tentar arrancar risos da plateia. Na pele de Padre Cícero, Thomás Alonso, conta que ele e a turma se esforçaram para recriar o mesmo ambiente do interior do Ceará, com seu sotaque cantado e crendices populares. “É uma comédia escrita há mais de 50 anos, mas extremamente atual, nós nos dedicamos muito para amadurecer cada detalhe”, diz Thomás.

 

O diretor e coreógrafo teatral, Luciano Oliveira, explica que a peça integra o currículo da escola e é oportuna para promover o autoconhecimento dos estudantes que estão a um passo de seguir carreira profissional e atuar no mundo, período que exige coragem, determinação, autoconhecimento e visão crítica. “Nós observamos que ao longo do processo há um desabrochar de cada um deles para o protagonismo e a liderança. Esta é sem dúvida uma oportunidade para que eles mostrem à sociedade que jovem pensa e sabe o que quer.”

 

Realizado desde 1995, o teatro da Escola Livre Porto Cuiabá já trouxe obras importantes da literatura universal e nacional, entre elas, O Homem de La Mancha e Sakuntala (2012), O santo milagroso e Cyrano de Bergerac (2013), A invasão e A comédia dos erros (2014). Além de atuar, os estudantes também cuidam de tudo que envolve o teatro de forma integrada: leitura, adaptação do texto, escolha de personagens, divulgação, composição de figurino, busca de patrocínio, cenário e também venda de ingressos. O objetivo é despertá-los para as responsabilidades que envolvem a vida cotidiana e a importância do trabalho em equipe.

 

 

Serviço – As vagas são limitadas, ligue e reserve seu ingresso na Escola Livre Porto Cuiabá: (65) 3028-6625. A peça ‘A Revolução dos beatos’ estará em cartaz entre os dias 9 e 12 de junho, às 20h, no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Mato Grosso, em Cuiabá, no Centro Político Administrativo. O ingresso tem preço promocional de R$ 15. Curta a nossa página e acompanhe as divulgações da escola: www.facebook.com/EscolaLivrePortoCuiaba.

 

Cena da remontagem de "A Revolução dos Beatos", feita pelos alunos da Livre Porto

Cena da remontagem de “A Revolução dos Beatos”, feita pelos alunos da Livre Porto

 

 

ANÁLISE

 

Um dos comunistas da Rede Globo

 

ENOCK CAVALCANTI

Da Editoria

 

Um escritor brasileiro apaixonado pela cena teatral. Dias Gomes viveu em períodos muito agitados e turbulentos da política brasileira, retratando em suas obras acontecimentos e fenômenos como o Estado Novo de Getúlio Vargas, a tentativa de derrubada de Juscelino, o histrionismo fascistóide de Carlos Lacerda, o truculência inaudita do golpe militar de 1964 e a redemocratização com a morte precoce de Tancredo, sem jamais deixar de escrever. Foi um marxista, filiado ao Partido Comunista Brasileiro, que soube se transformar, também, em queridinho das massas, se transferindo do teatro para a televisão sempre com muito sucesso.

 

Quando a sangrenta ditadura dos generais fechou-lhe as portas do teatro, Dias Gomes ( e a mulher, Janete Clair) celebrou seu pacto com a Rede Globo (braço midiático da ditadura), se transformando em um dos comunistas que o empresário-jornalista Roberto Marinho gostava de dizer que mantinha sob as suas asas e produziu para a televisão fenômenos de crítica e de público como “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”.

Nestes espetáculos, retratou toda a cafagestice de que os homens públicos brasileiros, no passado e também no presente, são capazes. Ninguém pode dizer que não foi avisado para as patetices e golpismos que hoje são encenados em nosso País por personagens tragicômicos como Michel Temer, Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro.

 

Dias Gomes falou de sua própria vida na autobiografia “Apenas um Subversívo”, leitura obrigatória para jovens e velhos que se interessem por pensar o Brasil  e melhor entender seus personagens.

Ora, que autor, senão Dias Gomes, para mostrar, em trabalhos como “O Pagador de Promessas”, “O Berço do Herói” e “O Santo Inquérito” que o Brasil rural, arcaico, interiorano, patriarcal, machista, homofóbico, continua a sobreviver e a nos impingir suas regras excludentes, apesar de tanta urbanização e tanta metropolização que o capitalismo tardio tem nos imposto? Esses cidadãos, tidos como reis do gado, reis do agronegócio e mesmo capitães da indústria, metidos a moderninhos, continuam quase todos com os pés fincados nas senzalas.

 

Sim, vale a pena sempre ler, reler e rever a obra desse comunista inquieto que tanto soube ironizar os delírios da própria esquerda. Só dói quando a gente ri.

 

A peça fica em cartaz até domingo

A peça fica em cartaz até domingo

 

2 Comentários

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  1. - Responder

    Esse teatro esta sendo um Show! Os jovens estão dando o recado de uma forma bem humorada e praticamente não se vê o tempo passar. Hoje é o último dia da peça! Vale a pena assistir…

  2. - Responder

    Excelente apresentação dos alunos , pareciam que eram atores profissionais! O aluno Thomás que interpretou padre Cícero e o Beato estava sensacional! Parabéns a todos os alunos!

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