PREFEITURA SANEAMENTO

Estados Unidos estariam usando aviões teleguiados, os “drones”, para vigiar e punir (isto mesmo, matar) cidadãos norte-americanos suspeitos de envolvimento com o terrorismo. Veja como foi o debate no Senado sobre este esquema assassino, montado pela CIA, conforme reportagem do “The New Yorker”

A jornalista Amy Davidson, do "The New Yorker" e os drones assassinos, disparados pela CIA, sem qualquer conhecimento do parlamento dos Estados Unidos, contra cidadãos norte-americanos suspeitos de envolvimento com o terrorismo.

A reportagem abaixo está publicada em um dos blogs da insuspeita e centenária revista “The New Yorker” – e trata de uma realidade mais que assustadora. Enquanto a grande mídia brasileira, americanizada, mantém correspondentes nos States para fazerem matéria sobre a neve que faz escorregar em Times Squade e  se espanta com testes nucleares lá na Coreia do Norte, o Senado dos Estados Unidos discute a implementação de um programa secreto de repressão, montado, imaginem só, contra cidadãos do próprio Estados Unidos, pela CIA, sem conhecimento dos senadores mas com respaldo do governo de Barack Obama. E os comandados de William Bonner parece que não vêem a pauta que pulsa, grita, diante deles, como aquele personagem do Nelson Rodrigues que se recusa a enxergar o óbvio ululante. O Esquema montado pela CIA ao arrepio da Câmara e do Senado norteamericanos usa aviões teleguiados, os “drones”, para espionar e matar cidadãos norte-americanos suspeitos de envolvimento com terroristas. Basta a suspeita, mal documentada, a julgar pelo que informa o “New Yorker”, para um cidadão de lá virar candidato a cadáver. Deve valer por lá, também, o domínio do fato que tanto motivou o ministro Joaquim Barbosa, ao atropelar, segundo a opinião de Bandeira de Mello, Carlos Veloso, Dalmo Dallari e outros mestres do Direito brasileiro, o devido processo legal no caso do julgamento do Mensalão. A reportagem é assinada por uma das editoras da respeitada publicação, a jornalista Amy Davidson. E a grande mídia brasileira, diante de uma pauta dessa, ainda dá prioridade aos pequenos testes nucleares promovidos pela Coréia do Norte, como se fossem a provocação mais impactante! E a gente fica vendo “O Legado Bourne” e fica pensando que tudo aquilo lá é ficção! Confira o que publicou o “The New Yorker”. (EC)

 

John Brennan, a CIA e uns tais “cidadãos norte-americanos”

9/2/2013, Amy Davidson*, The New YorkerClose Read blog 
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
John Brennan mentindo no Senado dos EUA
“Um dos problemas é que, se o programa dos drones se generalizar, e um norte-americano for apanhado, ninguém jamais saberá o suficiente sobre esse tal “cidadão norte-americano’” – disse a senadora Dianne Feinstein, ao arguir John Brennan, indicado pelo presidente Obama para dirigir a CIA (John Cassidy has more on the hearing).
 
Anwar al-Awlaki
A senadora referia-se a Anwar al-Awlaki, assassinado num ataque de drone no Iêmen em 2011, e que era “suposto cidadão norte-americano” porque nasceu nos EUA, no Novo México. “Ninguém sabe o que ele fazia” – Feinstein continuou. “Ninguém sabe do seu trabalho de aliciamento. Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre o Sr. Awlaki e o que fazia”.
Brennan tentou esquivar-se, porque a pergunta envolvia comentário sobre uma “operação”…
Feinstein aproveitou a deixa: É aí que está o problema! Quando as pessoas ouvem falar de “um norte-americano”, todos supõem que seja pessoa de bem. E esse homem absolutamente não era pessoa de bem.
Brennan: É.
Feinstein: Entendo que o senhor não possa comentar o caso, porque ouvi dizer que o homem seria problema sério.
 
Dianne Feinstein
Brennan concordou. Disse que al-Awlaki “estava intimamente envolvido em atividades que visavam a matar homens, mulheres e crianças inocentes, a maioria dos quais norte-americanos. Não era só agente de propaganda”. (Omitiu, no comentário, que o filho norte-americano de al-Awlaki, adolescente, também foi assassinado, num segundo ataque de drone.) Feinstein fez referência a vários outros incidentes; em alguns casos, Brennan concordou que al-Awlaki seria “um organizador”; em outros fez comentários oblíquos sobre “inspirar” e “incitar pessoas”.
Feinstein resumiu a troca de palavras numa linha, que talvez seja a mais perturbadora das três horas de sabatina, pior, até, que a “piadinha” que o senador Burr contou, minutos depois, sobre simulação de afogamento:
“Portanto, o senhor está dizendo que o Sr. Awlaki não era cidadão norte-americano dos quais os EUA possam orgulhar-se”.
 
Richard Burr
“Orgulhar-se de alguém”, “cidadão de bem”, “suposto cidadão dos EUA”… são esses os critérios pelos quais o Senado dos EUA avalia questões fundamentais dos direitos dos cidadãos e sobre o que seja o devido processo legal?
Antes da sabatina, surpreendi-me pensando sobre o que passaria pela cabeça dos norte-americanos quando ouvem dizer que o Presidente dos EUA deu-se a ele mesmo o direito de assassiná-los. Feinstein não poderia ter dado resposta mais angustiante, menos tranquilizadora.
Quando, por quais critérios, qualquer de nós vira “suposto cidadão” e alvo legal de assassinato premeditado? Exatamente porque, talvez, houvesse grande quantidade de provas contra al-Awlaki é que o caso deveria ter sido objeto de inquérito e processo. Haver provas não é motivo para evitar-se o inquérito e o processo e decidir pelo assassinato sumário. Que fim levou a ideia segundo a qual quando nos vemos tomados pela ira, quando estamos por baixo na cadeia da popularidade, é quando, precisamente, mais cuidados temos de tomar?
 
Angus King
O governo Obama, na medida em que se possa avaliar por um documento do Departamento de Estado que vazou, está construindo argumento viciado de muitas contradições: por um lado, diz que é atento e cuidadoso, que só assassina para salvar vidas. Mas, quando é contraditado, desce para o mais baixo plano das emoções e esquece completamente o que a lei lhe impõe. Angus King, o novo senador independente, do Maine – sujeito simpático, de bigodes brancos, que gosta de citar sentenças da juíza Sandra Day O’Connor – perguntou por que não se poderia criar algo semelhante a uma corte de Supervisão da Aplicação da Lei da Inteligência Externa [orig. something like a Foreign Intelligence Surveillance Act court] para examinar provas antes de o executivo ordenar um assassinato. (Em outras palavras: que tal criar mecanismos para impedir o presidente de agir baseado em acusações sem provas ou baseado em inteligência falhada?).
Brennan respondeu que estaria interessado em discutir a questão. Mas, em seguida, fez um comentário que mostrou claramente o que há de mais perturbador nas políticas do governo Obama que lhe permitem assassinar – e nem importa quem seja o assassinado:
Nenhuma dessas ações visam a determinar culpas passadas por ações passadas. As decisões [de assassinar com premeditação, usando os drones] são tomadas para impedir ações futuras – para proteger vidas norte-americanas. E essa é função inerente do Executivo.
Quer dizer então que o presidente mata por palpite? Que decide por palpites, que ordena o assassinato, talvez, porque alguém não lhe parece ser “pessoa de bem”?
 
Ron Wyden
E a coisa ficou ainda mais confusa, quando Ron Wyden, do Oregon, perguntou a Brennan se cidadãos norte-americanos cujos nomes apareçam em alguma “lista para matar” [orig. “kill list”] têm chance de render-se, antes de serem assassinados. Brennan respondeu que quem quer que se alinhe com a Al Qaeda “tem de saber perfeitamente bem que, de fato, é parte da força inimiga que luta contra nós”. Sugeriu que bastaria, para ser alvo de assassinato por drones, qualquer associação passada, por remota e não provada que tenha sido.
O documento vazado do Departamento de Justiça apoia essa interpretação, com o “conceito” de “gente que vive conspirando” e – como vários analistas observaram – introduz “definições” de “ação iminente”, de prevenção de “ações futuras”, definições tão elásticas a ponto de nada significarem, porque nada excluem. O documento do Departamento de Justiça sequer limita a resposta-retaliação só ao poder de destruição da própria Al Qaeda: inclui também, sem nada definir, umas tais “forças associadas”.
Se algo se aproveita daquela sabatina, é que já se vê claramente que não há nível satisfatório de transparência ou de supervisão. Brennan demonstrou-o, ele mesmo, na arguição sobre as consequências da tortura e o dano que têm causado aos EUA. Disse, de um relatório secreto da Comissão de Inteligência do Senado, que teria sido “perturbador” e que o teria levado a questionar-se sobre boa parte do que pensava que sabia. (Falou, literalmente, de “informação pouco acurada que foi passada adiante”).
 
Jay Rockefeller
Se um homem na posição em que está Brennan diz tal coisa, da próxima vez a opinião pública terá de ter pleno acesso ao tal relatório secreto, antes de admitir novos assassinatos “legais”. Chama a atenção também que a Casa Branca tenha liberado o acesso aos senadores, que leram as decisões secretas do Departamento de Justiça, mas não tenha autorizado que fossem distribuídas para os gabinetes dos senadores.
Brennan está indignado por não ter informação confiável sobre tortura? Ao longo da sabatina, nada fez além de oferecer, como justificativa, suas paixões pessoais: “Vou dormir à noite, sem ter certeza de ter feito o bastante” – disse ele. (As paixões, em seguida, foram ilustradas com piadinhas sobre ele ser “de New Jersey”.) Os norte-americanos não compreendem, disse ele, “a agonia que padecemos”, cuidando para que não haja mortes colaterais nos ataques dos drones.
 
Carl Levin
É possível, sim, que padeçam terrível agonia, mas é agonia muito menos importante, ou relevante, ou considerável, ou preocupante, que o trabalho de ir criando precedentes que aí ficam, à disposição de futuros presidentes – mais vingativos, ou assassinos mais frios, ou que sejam colhidos em crises que os desestabilizem e assustem mais. Como disse o senador Jay Rockefeller, “os drones só aumentarão”.
Mas, sim, houve um ponto em relação ao qual Brennan deixou de lado qualquer sentimento pessoal. Perguntado por Carl Levin se a simulação de afogamento [orig. waterboarding] seria tortura, Brennan respondeu que, embora no plano pessoal considere a prática “repreensível”, não podia responder: “Não sou advogado”.



Amy Davidson* é editora sênior da revista The New Yorker. Ingressou na publicação em 1995, escreve o blog Close Read no site da revista, além das contribuições na edição impressa. Nasceu e cresceu em Nova York e se formou em Harvard. Antes de ingressar na The New Yorker viveu e trabalhou na Alemanha.

 

Tradução REDECASTORPHOTO

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/


CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA SABER MAIS SOBRE THE NEW YORKER

http://pt.wikipedia.org/wiki/The_New_Yorker

1 Comentário

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  1. - IP 177.17.206.251 - Responder

    O nosso país deveria comprar algumas unidades deste veiculo para serem utilizados nos poucos políticos vagabundos, será que os EUA daria conta da quantidade do pedido, fica a sugestão.

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