TCE - NOVEMBRO 2

FERIDA ABERTA: Escritor e jornalista, Marcelo Rubens Paiva questiona quem ordenou o assassinato do seu pai – o deputado Rubens Paiva, sequestrado por oficiais do Exército brasileiro, torturado e morto durante a violenta ditadura dos militares no Brasil, em 1971 – cujo corpo permanece desaparecido, 42 anos depois

Marcelo Rubens Paiva e as perguntas que não querem calar: em qual dia meu pai foi morto? Para onde foi o corpo? Quem deu as ordens? Ele foi esquartejado? Quem levou o corpo? Quem matou vai ser chamado a depor? Só eles vão responder? Será que, como sempre acontece no Brasil, a corda vai estourar no lado da ralé?Só quem bateu é responsável? Quem mandou? Quem era o comandante? Por que havia tortura? Por que existia o DOI-Codi? Por que meu pai foi preso? Por que o golpe de 1964? O que o empresariado americano queria com o golpe? E o empresariado brasileiro?

“A Nação é Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram”, proclamou Ulisses Guimarães, ao promulgar a Constituição Cidadã, em 1988. O Estado brasileiro continua devendo à Nação brasileira, a identificação dos assassinos de Rubens Paiva e a devida localização do corpo, para que a familia e demais interessados possam prestar as homenagens fúnebres a este corajoso e saudoso brasileiro. Confira o noticiário. (EC)

O drama de um filho: “Quem comandou?”

Marcelo Rubens Paiva questiona quem ordenou o assassinato do pai, o deputado Rubens Paiva, preso, torturado e morto durante a ditadura, em 1971; em entrevista, o jornalista diz que as novidades divulgadas recentemente pela Comissão da Verdade não o surpreenderam; “O que vai mudar é o que vem agora, o que não foi revelado”

Brasil 247

Os documentos oficiais divulgados nas últimas semanas pela Comissão da Verdade, e as declarações feitas pelo coordenador da Comissão, Cláudio Fonteles, provaram o que a família do deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971, já sabia: que ele foi pego em sua casa por oficiais do Exército e levado ao DOI-Codi do Rio, onde foi torturado e morto. Na avaliação do filho do combatente da ditadura militar, o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva, a novidade é a apresentação de documentos oficiais, com carimbos do Exército, comprovando o que já se tinha conhecimento.

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, do qual é colunista, Marcelo conta que o que muda é o que está por vir e as respostas de muitas questões ainda não respondidas. “O que vai mudar é o que vem agora, o que não foi revelado: em qual dia foi morto? Para onde foi o corpo? Quem deu as ordens? Ele foi esquartejado? Quem levou o corpo? Quem matou vai ser chamado a depor? Já sabemos que um deles morreu e dois estão vivos. Só eles vão responder? Será que, como sempre acontece no Brasil, a corda vai estourar no lado da ralé?”

Marcelo também acha importante conhecer a cadeia de comando envolvida na morte do pai. “Quem sobreviveu são oficiaizinhos do Exército. Eles é que vão responder? Só quem bateu é responsável? Quem mandou? Quem era o comandante?”, questiona. Quanto à Lei da Anistia de 1979, que permite aos responsáveis que não sejam punidos, o escritor a considera “antidemocrática”. Ele lembra que ela foi “promulgada com o Congresso engessado pelo Pacote de Abril, com senadores biônicos”, numa época em que “não existia debate democrático”.

O filho de Rubens Paiva, que tinha onze anos quando o pai foi levado de casa por oficiais, diz ainda que “parte da sociedade não quer rever o seu passado, não quer julgar os abusos de poder”. Para ele, ainda falta o documento que prove o essencial: “Aonde foi o corpo do meu pai? Quem mandou esquartejar? Foi jogado no mar? Enterrado na Barra da Tijuca? Que dia saiu a viatura com o corpo de dentro do DOI-Codi?”. Numa mensagem em vídeo gravada para a TV Estadão, ele diz “torcer para que novos documentos apareçam, para que essa história seja contada”.

CONFIRA, ABAIXO, INTEIRO TEOR DA REPORTAGEM DO ESTADÃO

‘E quem era o comandante?’, questiona Marcelo Rubens Paiva
Filho de Rubens Paiva quer saber nome de responsável por ordenar assassinato do pai em 1971

Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – O escritor Marcelo Rubens Paiva tinha 11 anos quando, no dia 20 de janeiro de 1971, seu pai, o deputado cassado Rubens Beirodt Paiva, foi arrancado de casa por militares ligados aos serviços de repressão política e levado ao DOI-Codi do Rio. Foi a última vez que ele, a mãe e suas quatro irmãs o viram. Nos anos seguintes, Marcelo, baseando-se em livros e depoimentos sobre desaparecidos políticos, reconstituiu passo a passo a história da morte do pai. O primeiro longo relato que fez sobre o episódio foi em 1982, no livro Feliz Ano Velho. Para ele, as revelações feitas nesta semana pela Comissão Nacional da Verdade, desmontando a versão oficial de que o deputado teria fugido depois de preso, não constituem nenhuma novidade: ele nunca duvidou de que o pai foi morto no DOI-Codi. A principal conquista do trabalho da Comissão, na avaliação dele, é a apresentação de documentos oficiais, com timbre do Exército, que comprovam o que já se sabia. Para Marcelo, que é colunista do Estado, falta agora descobrir onde está o corpo do pai e punir os responsáveis.

Como você recebeu as informações da Comissão da Verdade?

A novidade real apresentada pela comissão é a seguinte: finalmente documentos internos do Exército estão vindo a público, estão surgindo papéis timbrados provando o que já se sabia. Nós já sabíamos quando e como o meu pai foi preso – a família toda estava presente e testemunhou -, como foi torturado, como morreu. Sabemos há mais de quarenta anos que ele não saiu vivo do DOI-Codi do Rio. O médico Amilcar Lobo, que trabalhou para o DOI-Codi e viu meu pai sendo torturado e morto, já descreveu essa morte no livro A Hora do Lobo. A diferença é que até agora tudo era baseado em depoimentos de pessoas.

O que muda para você?

O que vai mudar é o que vem agora, o que não foi revelado: em qual dia foi morto? Para onde foi o corpo? Quem deu as ordens? Ele foi esquartejado? Quem levou o corpo? Quem matou vai ser chamado a depor? Já sabemos que um deles morreu e dois estão vivos. Só eles vão responder? Será que, como sempre acontece no Brasil, a corda vai estourar no lado da ralé?

Você acha que é preciso conhecer a cadeia de comando?

Sim. Quem sobreviveu são oficiaizinhos do Exército. Eles é que vão responder? Só quem bateu é responsável? Quem mandou? Quem era o comandante? Por que havia tortura? Por que existia o DOI-Codi? Por que meu pai foi preso? Por que o golpe de 1964? O que o empresariado americano queria com o golpe? E o empresariado brasileiro?

Pela Lei da Anistia de 1979, os responsáveis não podem ser punidos.

Eu discordo. Essa é uma lei antidemocrática, promulgada com o Congresso engessado pelo Pacote de Abril, com senadores biônicos. Na época não existia debate democrático, a imprensa estava sob censura, as passeatas e manifestações pela anistia eram reprimidas brutalmente pela polícia. A oposição brasileira estava metade morta e metade no exílio, os partidos de esquerda não podiam existir, os sindicatos não tinham liberdade. Como é que alguém pode dizer que a lei, promulgada nesse clima, é democrática? Outro paradoxo dessa história é que o Brasil é signatário da carta internacional que afirma que a tortura é crime contra a humanidade e, portanto, imprescritível. Como é que o País, sendo signatário da carta, considera a tortura prescritível?

A interpretação original da lei, garantindo anistia para os agentes públicos, foi referendada pelo STF.

O debate no Supremo é político, não jurídico. Parte da sociedade não quer rever o seu passado, não quer julgar os abusos de poder. A decisão do Supremo foi vergonhosa, um vexame perante a Organização dos Estados Americanos, a Anistia Internacional e outros organismos.

Para o STF a lei resultou de um acordo político, que permitiu a volta dos exilados e a pacificação do País.

Não é verdade. Tanto que, passados mais de quarenta anos após a morte do meu pai, você está falando comigo sobre isso. A ferida está muito aberta, muito exposta. Minha família não aguenta mais ficar falando, a cada ano tenho que dar pelo menos dez entrevistas sobre esse caso, que é um entre muitos, talvez o mais notório. E o resto?

O que deve ser feito agora?

Vamos ouvir os depoimentos das testemunhas. Já houve um inquérito policial militar sobre o caso, que está descrito no livro Segredo de Estado, de Jason Tércio, lançado em 2011. Ele diz que os torturadores do meu pai foram chamados e que eles negaram. Pode ser que neguem de novo. Para mim ainda falta o documento essencial: aonde foi o corpo do meu pai? Quem mandou esquartejar? Foi jogado no mar? Enterrado na Barra da Tijuca? Que dia saiu a viatura com o corpo de dentro do DOI-Codi? Outra coisa: minha mãe ficou presa nesse mesmo DOI-Codi e nesse mesmo período durante treze dias. Cadê o documento sobre a prisão dela? Por que ficou presa?

FONTE BRASIL 247 E O ESTADO DE S PAULO

4 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - Responder

    estas feridas continuam abertas e continuam sangrando, senhor enock. parabens por nos ajudar a não esquecer o que esses militares fizeram com o brasil e com os brasileiros

    • - Responder

      Nos tempos atuais é necessário que o povo enxergue o que esses petralhas mensaleiros estão fazendo com o Brasil e os brasileiros.

      E o Genoíno que virou “deputadu federá”???

  2. - Responder

    O principal responsável pela tortura, morte, desaparecimento do corpo e sofrimento dos familiares e amigos de Rubens Paiva se chama Emilio Garrastazu Médici. Era ele quem estava no comando. Era o tirano de plantão.
    Presidente sem voto popular, sem legitimidade. Se os subordinados praticavam todo tipo de atrocidade contra os opositores do regime é porque tinham o aval dos líderes da Ditadura. CHEGA DE IMPUNIDADE. REVOGAÇÃO DA
    LEI DA ANISTIA OU INTERPRETAÇÃO CONFORME O DIREITO INTERNACIONAL. PUNIÇÃO PARA OS TORTURADORES E SEUS COMANDANTES. NÃO EXISTE PACIFICAÇÃO SOCIAL COM FUNDAMENTO EM
    CRIMES IMPUNES.

  3. - Responder

    Marcelo Rubens Paiva, quero que saiba que me solidarizo com sua dor. Enquanto esse odioso crime
    permanecer impune e sem total esclarecimento, o Brasil será uma nação menor, não terá aprendido
    com países como Chile e Argentina, onde figurões da ditadura militar foram processados, condenados
    e cumprem pena pelos crimes praticados. Pinochet foi preso na Inglaterra. Jorge Videla morreu na prisão.
    No país do carnaval nem os executores foram punidos. Ainda temos muito que aprender e fazer.

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

quatro × um =