ENOCK CAVALCANTI: Eu, João Gilberto, nós todos, girando na vitrola sem cessar…

João Gilberto com a filha Bebel, já na velhice

Foi amorosa a despedida dos brasileiros e brasileiras que se reuniram nessa triste tarde desta segunda-feira, 8 de julho de 2019, no Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, para o adeus ao cantor tão amoroso que foi o baiano João Gilberto. Baiano de Juazeiro. Baiano tão universal, mesmo tão discreto.

Sem a presença do João e seus sumiços e o fascínio dessa sua jornada cumprida mais nas sombras que nos palcos ou na mídia, nunca será a mesma coisa…mesmo para nós que ouvíamos de longe o seu sussurrar.

Tanta arte, tanta dedicação, tanto sucesso mas também tanto sacrifício para nos deixar essa voz e esse toque de violão delicados que continuarão nos repassando a sua inquietude…

João Gilberto preservou a sua delicadeza talvez para aplacar um pouco das nossas dores e de nosso desassossego… Alguns livros e talvez alguns filmes, mais adiante, venham nos revelar detalhes dessa caminhada que ele sempre preferiu que fosse solitária, quase que fechada em si.

Ouví-lo cantar é sempre uma experiência enternecedora. Sim, João será sempre um momento de delicadeza em nossas vidas. Um Brasil civilizado, num compasso bem brasileiro, que só se ouviu. Nunca se viu igual. João em simbiose com seu violão. Mudo é quem só se comunica com palavras.

Eu, João Gilberto, nós todos, girando na vitrola sem parar…E justamente neste momento em que algumas notas dissonantes se revelam integralistas ao som dos novos imbecis…

Caetano disse que aprendemos com o João Gilberto a sermos para sempre desafinados. Prefiro pensar que a lição dele, e eu fico comovido de pensar, é que precisamos mesmo é cada vez mais insistir em nos mantermos teimosamente delicados. Teimosamente delicados. Teimosamente delicados.

 

Enock Cavalcanti, jornalista e advogado, é o editor deste blogue PAGINA DO E

 

a despedida amorosa a joão gilberto no Teatro Municipal, no Rio from Enock Cavalcanti on Vimeo.

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