EDUARDO MAHON VIU A MANGUEIRA ENTRANDO: Algumas referências culturais vieram truncadas pelo descuidado carnaval verde e rosa. O carnaval mangueirense cedeu para o óbvio, para o fácil, para a preguiça de narrativa

Eduardo Mahon (na foto com Izabel Coutinho) não reclama do preço mas da imprecisão histórica no desfile em que a Estação Primeira de Mangueira homenageou a cidade de Cuiabá

Frustração cuiabana

Por EDUARDO MAHON

Um cidadão minimamente inteligente sabe que é ínfimo o investimento que Cuiabá fez na exposição nacional e internacional de um desfile da escola de samba mais querida do Brasil. Em termos de publicidade, três milhões e meio é barato, considerando os quase quarenta milhões que o Estado prevê gastar em propaganda neste ano com obscuros critérios de distribuição na mídia. No entanto, mesmo com o estandarte cuiabano empunhado nacional e internacionalmente, o que restou foi uma franca frustração. Por que?

A primeira objeção que se opôs ao patrocínio oficial à festa mangueirense foi o pauperismo municipal que sofre de sangrias infindáveis. Diante da carência em muitos setores da vida pública, vicejou a oposição que bradou o desperdício do erário. O gasto em imagem torna-se agressivo frente ao abandono no urbanismo, por exemplo. É uma visão bastante primária, já que a verba de comunicação social é própria da administração pública, importando aferir se sobre o investimento haverá retorno em informação, em turismo e em outros negócios que hão de surgir de uma imagem positiva. Ainda assim, é inevitável o confronto entre o fausto carnavalesco e a carestia municipal.

Vencida a tacanha argumentação, uma parcela significativa da cuiabania armou muxoxo e viu com má vontade o desfile verde e rosa. Seria de esperar um desfile que identificasse o povo cuiabano em cores, locais, histórias, músicas, personagens. A icnografia que apela para o sentimento cuiabano deveria ser vista nas alegorias e o enredo socorrer-se dos marcos identificadores de nossa paixão por Cuiabá. Foi exatamente aí que extravasou a ira dos expectadores, restando compreensível frustração. É que, malgrado tenha havido pesquisa, o carnaval mangueirense cedeu para o óbvio, para o fácil, para a preguiça de narrativa.

O fio condutor do desfile enfocou justamente uma frustração cuiabana: a ferrovia que não chegou. Comparável à miragem aurífera da nunca descoberta Serra dos Martírios, procurada pela epopeia da bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva, esse sonho ferroviário desperta dissensões e mágoas no sentimento cuiabano e deveria ser o último na lista de temas para expor a cidade. Como é lógico, um fracasso não é a melhor maneira de conquistar o apreço de uma comunidade espezinhada pela política pública que insiste em divorciar Cuiabá dos trilhos que nunca chegam. Não haveria de ser um sorriso carnavalesco que iria amainar a frustração.

Embora a pesquisa realizada na extraordinária obra do querido professor doutor Fernando Tadeu Borges Miranda, acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, o malogro do empreendimento ferroviário feriu o coração cuiabano. Algumas referências culturais vieram truncadas pelo descuidado carnaval verde e rosa, por cuidar de um período não só distante como monotemático: o setecentos do ouro. Marcantes omissões: nenhuma nota sobre o riquíssimo século dezenove e o turbulento século vinte, silêncio sobre objetos icônicos, locais de visita obrigatória e figuras ilustres da cuiabania, seja pelas folclóricas personalidades, seja pela importância histórica nacional.

É claro que um cidadão medianamente inteligente também compreende que um desfile de escola de samba não é uma palestra sobre história, sociologia e antropologia, o que iria tornar a folia tão aborrecida como a exibida erudição de alguns notáveis chatos da cidade. Da mesma forma, sabemos que três milhões e meio para o horário nobre e a audiência nacional é desprezível comparados aos cinquenta milhões que o governo gastou em propaganda na época eleitoral, sublinhe-se. O que frustrou os cuiabanos e a cuiabania foi a pobreza de referências, a identidade estranha aos nossos usos e costumes, uma descontextualização penosa para os enamorados deste calor que, aliás, não foi sequer anotado.

Nada ganha o cidadão pessimista. A crítica vazia, pobre e populista sobre o custo dos festejos é desfundamentada e míope, pela recusa em ver o benefício e comparar com os investimentos em propaganda de outras administrações. No entanto, o otimismo tem limites. Os limites da moralidade, por exemplo, que exige explicações sobre a distribuição dos convites às ‘instituições’ citadas por secretários municipais: quantos e para quem. Limites da sensibilidade que demandam um trato mais cuidadoso com as referências de um povo que pretendia comemorar a si mesmo numa imagem que não se refletiu. Esperamos que o enredo cuiabano tenha sido semente próspera num campo de frustração aparente.

Eduardo Mahon é advogado.

8 Comentários

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  1. - IP 177.132.247.141 - Responder

    O artigo revela o que nós, cuiabanos, sentimos. Não vi a Maria Taquara, o Zé Bolo Flor, o Antonio Peteté, nem o Jejé. Me senti orfão com o desfile e ofendido com a falta de zelo.

  2. - IP 189.59.53.59 - Responder

    ENOCK vc gosta de polêmica mesmo né?? Não via me dizer que vc não prestou atenção no título da sua matéria…que coisa mais pejorativa…mais repugnante e mais sem qualidade nenhuma demonstrando que vc realmente não é um jornalista…sendo mero blogueiro sem a seriedade que deveria ter., PRESTA ATENÇÃO NA MANCHETE: ” ….VIU A MANGUEIRA ENTRAR”…fala sério

  3. - IP 201.40.42.68 - Responder

    realmente, faltou o mínimo de conversa. seria bom ter visto lá na avenida os festeiros tradicionais de cuiabá como o jejé, o lucialdo, a vera e zuleira, levar o guapo, sei lá, gente que nos ajudasse a nos situar nesta cidade tão alegre e que, na avenida, pareceu como uma assombração

  4. - IP 187.113.45.160 - Responder

    mas esse moço adora mesmo ver a mangueira entrar…

  5. - IP 189.59.57.143 - Responder

    agora,Mahon entende ate de samba? tem branco atravessando o ritmo!

  6. - IP 177.65.149.135 - Responder

    HÁ MUITO TEMPO QUE EDUARDO MAHON Vê A MANGUEIRA ENTRAR.ESSA DO LADO NA FOTO É AQUELA DO OLHAR DIRETO?

  7. - IP 177.96.204.19 - Responder

    Fala sério. Esse Mahon é mesmo conhecedor de tudo, mas mestre de nada. Quer dar pitaco em tudo quanto é assunto. Talvez 3,6 milhões seja pouca grana pra ele, mas pra um povo tão sofrido como o cuiabano é uma fortuna que poderia ter sido muito melhor utilizada. Ridícula e infeliz a argumentação!

  8. - IP 177.96.204.19 - Responder

    Agora esse povo falando da ausência do JEJÉ e ZÉ BOLO FLOR não dá pra entender, quem é essa gente na ordem do dia? Dá licença!

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