EDUARDO MAHON: Essa semana, fui visitado por uma centena de estudantes salesianos que me questionaram insistentemente sobre os dilemas éticos do profissional ligado à área criminal. Tive a oportunidade de expor as minhas expectativas quanto à justiça, fazendo votos que cada vez mais as falcatruas públicas sejam descobertas, assim como negociatas no setor privado encontrem a repressão. É preciso ter paciência para esclarecer que os advogados criminalistas não querem a impunidade. Pretendem a observância do devido processo legal, seja qual for o resultado do julgamento.

Eduardo Mahon, que antes pontificava como advogado criminalista, agora  é também citado e lembrado como escritor e membro da Academia Mato-grossense de Letras, de cuja presidência se afastou recentemente

Eduardo Mahon, que antes pontificava como advogado criminalista, agora é também citado e lembrado como escritor e membro da Academia Mato-grossense de Letras, de cuja presidência se afastou recentemente

OPINIÃO

Aos barões derrotados
Eduardo Mahon

Há alguns anos a minha vida é dedicada ao Direito. Milito na área criminal e de improbidade administrativa e já vi culpados serem julgados inocentes e o inverso cruel – inocentes serem condenados. A função do advogado é a defesa do cliente e não do delito. Justamente por isso, os advogados estão livres para exigir das autoridades públicas dois valores fundamentais, um para os clientes e outro para a sociedade: legalidade e probidade. Os advogados querem respeito que é, em resumo, o tratamento como protagonistas essenciais à justiça, equilibrando o jogo entre as partes por meio do contraditório. Mas também almejam probidade para um país mais honesto, mais digno, mais justo. Há contradição?

De forma alguma. Torço pela moralização da máquina pública. Na maioria das vezes, a defesa técnica em nada se relaciona com o conjunto geral de valores em jogo numa democracia. Essa semana, fui visitado por uma centena de estudantes salesianos que me questionaram insistentemente sobre os dilemas éticos do profissional ligado à área criminal. Tive a oportunidade de expor as minhas expectativas quanto à justiça, fazendo votos que cada vez mais as falcatruas públicas sejam descobertas, assim como negociatas no setor privado encontrem a repressão. É preciso ter paciência para esclarecer que os advogados criminalistas não querem a impunidade. Pretendem a observância do devido processo legal, seja qual for o resultado do julgamento.

Não é nada estranho esse questionamento social nos tempos atuais. Nosso Estado passa por uma expiação ética já esperada. As instituições de controle estão se fortalecendo, as investigações tornam-se mais sofisticadas com a tecnologia que ampara a máquina processual. Pela primeira vez em nossa longa trajetória de desmandos, percebemos a efetivação da justiça, independentemente do nome na capa do processo, ainda que sejam personalidades outrora festejadas nos meios sociais. Não perceberam que o fausto de uma vida de ostentações indiscriminadas não substitui a paz familiar. Na maioria dos casos, os envolvidos nos desbaratados esquemas brasileiros não são ricos. Sujaram-se por pouco, muito pouco. Negociaram o bom nome da família por prebendas, desamparando o orgulho dos conterrâneos decepcionados.

De Machado de Assis, no memorável conto Suje-se Gordo!, extraio esse pequeno trecho: “ao pé da palavra bíblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: ‘Suje-se gordo!’ Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança. Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, até àquelas palavras: ‘Suje-se gordo!’ Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação. ‘Suje-se gordo!’ Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!”. O conceito de “sujar-se gordo” é comum num campo moral acinzentado – se é para roubar que seja muito, ensina a imoralidade tupiniquim, imersa na conserva da impunidade.

As coisas estão mudando, porém. Lembro de Santo Agostinho que dizia amar o pecador, mas não o pecado. Penso da mesma forma. Merecem compaixão as famílias abandonadas pelo encarceramento dos entes queridos, pais e mães de família, mas não solidariedade quem deva ser responsabilizado criminalmente. Os delitos ligados às organizações criminosas não pertencem ao fatalismo social ligado à miséria; são o resultado de uma opção livre do autor. Não há contradição na advocacia, portanto: demonstrar humanidade, defender a dignidade e o devido processo penal em favor do réu, mas exercer o dever de cidadão fazendo votos de que vivamos num país menos corrupto. Que fique essa dura lição aos incautos barões derrotados.

2 Comentários

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  1. - IP 201.86.177.196 - Responder

    É difícil ler uma abordagem tão exata da advocacia e seus dilemas éticos. Parabéns, Mahon! Tudo o que você faz, brilha, desde quando era pequeno. Continue assim, escrevendo e brilhando.

  2. - IP 179.102.237.218 - Responder

    Perfeito!!!

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