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EDUARDO MAHON: Em Cuiabá, o tempo não valoriza o patrimônio que cai e morre. As coisas simplesmente envelhecem e acabam. A cidade não estava, não está e não estará preparada para o futuro

A cidade de Cuiabá, de acordo com a avaliação de Eduardo Mahon, é uma cidade pobre - "pobre de espírito público, sobretudo", escreve o advogado.

A heresia cuiabana

por EDUARDO MAHON

 

A apostasia é o afastamento do fiel dos dogmas religiosos o que, geralmente, ocasiona a heresia. E é sortido o rol de pecados. Parece que um deles é dizer que Cuiabá não estava preparada para sediar jogos internacionais.

A inaptidão cuiabana não só exalava heresia suficiente para a excomunhão, como também era um delito de lesa-majestade, contra a organização social e política de Mato Grosso. Os ‘cultores do mau agouro’ não podiam levantar qualquer objeção por que o sentimento patriótico se insurgia e, contra todas as evidências, prosseguiu o governo sob timão sem rumo e sem juízo.

As obras de infraestrutura que Cuiabá precisava para a Copa do Mundo mostraram-se imprescindíveis para a cidade e não para a realização dos jogos. É que a sociedade sentiu o déficit de desenvolvimento que remonta décadas de descaso.

Em momentos críticos, onde há demanda por saltos de desenvolvimento, fica evidente a carência de preparo urbano, de planejamento e de políticas públicas. À míngua de um projeto de longo prazo, a cidade caminhou trôpega – nem conservou sua identidade tricentenária, nem partiu para o arrojo modernista. Daí que nossa urbe cuiabana tinha muito mais orgulho do que condições concretas de oferecer condições mínimas para eventos internacionais.

Nossa cidade é pobre. Pobre de espírito público, sobretudo. O lazer resume-se a botecos, porque os parques não são conservados e ampliados, os teatros não se multiplicam, ao contrário, recrudescem; os shows ocorrem em estacionamentos e descampados; os restaurantes não passam por um processo de qualificação; o transporte é truncado e continuará assim, ainda que as obras trombeteiem o contrário.

Os governantes desprezam o patrimônio histórico e artístico, quando o mundo inteiro agarra-se aos valores que mais atraem turistas e investimentos. Nossa energia é cara, falha e inconstante. A rede hoteleira engatinha no profissionalismo necessário para ofertar conforto e alternativas interessantes aos turistas.

O que gostamos de fazer quando visitamos uma cidade? Os amantes da cultura visitam museus e mostras importantes, além de exposições de arte e música contemporânea, além de pagar caro para ver bons espetáculos e produções teatrais.

Ao sair da nossa cidade, o que pensamos em comer? Fazemos programações diárias em restaurantes onde a gastronomia de alto padrão varia em especialidades para todos os gostos e bolsos.

Quando nos encontramos com a natureza ao fazermos turismo, o que pretendemos? Encontrar acesso facilitado dentro e fora da cidade, transporte eficiente e guias treinados, além de um roteiro interessante para investirmos num confortável programa. Agora, respondam: alguém sairia de outro Estado para fazer turismo em Cuiabá? Tudo indica que não.

Adoro viver em Cuiabá. Sou cuiabano por decreto legislativo e por opção de vida. Fui agraciado comendador desta cidade. Estudo a nossa história, coleciono nossa arte, valorizo nossa memória. Findamos vidas aqui e aqui começaremos outras tantas vidas.

Gosto de Cuiabá porque sou um teimoso em garimpar lembranças, romances e crônicas urbanas. Penso, entretanto, que não é obrigação do cidadão mendigar informação, cultura e fascinação de viver numa cidade; ao contrário – é a administração da urbe responsável por conquistar o gosto, a preferência, o amor dos próprios habitantes e a admiração de quem vem a passeio.

Serei um apóstata? Um herege? Pecador, talvez, mas não um falso, não um pessimista, não um crônico crítico.

Em sete anos, Cuiabá completará seu tricentenário, mas não há nenhum governante que seja capaz de apresentar um plano que contemple a cidade com qualquer tipo de projeto urbanístico ou cultural.

Em Cuiabá, o tempo não valoriza o patrimônio que cai e morre. As coisas simplesmente envelhecem e acabam. Felizmente, acabaram-se os autos de fé e os pelourinhos para que possamos dizer o óbvio: a cidade não estava, não está e não estará preparada para o futuro com a única coisa que ficou bem conservada: a mentalidade centenária e provinciana.

 

EDUARDO MAHON é advogado em Cuiabá

2 Comentários

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  1. - Responder

    Todas as colocações e análises devem conter conteúdo histórico econômico. Esta análise feita pelo advogado, peca por sua falta de informação. O problema que ele detecta em Cuiabá, paira em 98% das capitais no Brasil. O Brasil é um país provinciano. Somos um país constituído via colônia de exploração e isto infiltra nossa história e cotidiano. Vivemos após 500 anos voltados para os grandes centros (vide o número de viagens internacionais com objetivo de turismo e lazer). O Brasil não conhece o Brasil e nem quer conhecer. Não se promove o turismo interno. E as pessoas em busca de lazer e visões estereotipadas querem ver o quintal do outro. Esta visão de sermos de tempos em tempos visitados por “exploradores” em todos os sentidos permanece em nossa cultura. Porém, em versão modificada, ha muito tempo também somos explorados por locais (cidadãos brasileiros), que em nome do seu poder retira daqueles que já não tem. Além disto, defende interesses dos que tem poder. Então a pergunta que não se quer calar? Qual o interesse de dizer que algo não funciona, se de alguma forma “alguns” contribui com seu trabalho para manter o status daqueles que dilapidam a nação e o seu povo. Construir cidadãos conscientes é a melhor forma de se fazer revisão urbanística de uma cidade, de um estado ou de um país. Educação de qualidade com um sentido profundo de cidadania. Pois ter apenas uma formação de 3º grau, não significa que o indivíduo de fato vai contribuir para um mundo melhor e justo. Cuiabá é tão provinciana quanto qualquer cidade brasileira onde os interesses pessoais sobrepõem ao coletivo. Refletir sobre isto ajudaria muito na crítica estabelecida aqui pelo advogado cuiabano por decreto e por escolha. Bem vindo a Cuiabá.

  2. - Responder

    Quando ele diz: “O que gostamos de fazer quando visitamos uma cidade? Os amantes da cultura visitam museus e mostras importantes, além de exposições de arte e música contemporânea, além de pagar caro para ver bons espetáculos e produções teatrais” creio que está, em parte, equivocado. Se o cidadão quer viajar para buscar música contemporânea, por exemplo, tem de ir a um lugar em que esse quesito é evidenciado. Creio que um lugar deve se estruturar e se qualificar para mostras suas pecualiarides com qualidade e em lugares adequados. São os turistas quem tem que se adequar à cidade, não a cidade, suprimindo suas peculiaridades, se adequar ao turista. Oras bolas! Não que em Cuiabá não tenha que haver este tipo de espetáculo, mas creio que não é o veio principal que o poder público tem que se preocupar. O veio principal, esse sim, é com a cultura mato-grossensse, a cultura feita pelo povo desta terra há quase trezentos anos. Ninguém vai sair do de outros lugares do Brasil ou da Europa, por exemplo, e querer vir aqui escutar música contemporânea! Querem ver coisa diferente. Querem ver novidades. Outros sabores, sons, tons, forma de ler o mundo diferentes. Aí sim, nobre advogado, concordo com o senhor que a capital sofre e muito com a falta de estrutura. Mas, transformar Cuiabá num pólo de música contemporânea mostras importantes por exemplo(é subjetivo o que se entende por importantes), seria desviar um pouco da missão principal do poder público (não que, como já dito, não deva haver aqui manifestação culturais – em todos os sentidos – de outros tipos). Cuiabá tem um potencial turístico vastíssimo. Infelizmente os administradores públicos ainda não perceberam ou fingiram não perceber. Mas, dado o isolamento da capital no princípio, aqui se desenvolveu uma cultura totalmente típica em todas os âmbitos (culinária, artesanato, folclore, música, sotaques etc, etc). È isso que deve ser explorado. Este deve ser o ponto de partida. Não outro. Mas tudo o que eu disse depende do ponto de vista do turista-visitante. As minhas afirmações acima reveladas, em quase cem por cento, encaixam-se no perfil até o limite de uma classe média, porque a elite, além de não produzir cultura alguma, apenas quando ela quer, somente se beneficia da cultura popular produzida pela “massa”. Elite e cultura popular não se misturam. Basta ver, para exemplificar, o desconserto dos secretários de cultura municipal e estadual quando têm que participar de algum evento popular. Estão ali por obrigação, são pessoas distantes, que vivem em realidades completamente diferentes. Vivem num mundo irreal, usufruídos pelo mínimo número de pessoas.É assim!

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