Pedro em campanha pela reeleição

Pedro em campanha pela reeleição

Mato Grosso está no fundo do poço. O Estado, na esfera do governo estadual é um lodaçal que mistura corrupção e quebra das garantias individuais, ainda que em ambos os caso seja preciso conjugar o verbo no passado – recente, recorrente e indecente passado. Só resta uma saída ao governador Pedro Taques: renunciar ao mandato nesse cenário ultrajante, tamanho o descompasso da administração, que a cada dia se revela mais tenebrosa ainda.

Renunciar no sentido mais amplo da palavra no campo político. Abrir mão do mandato, da candidatura à reeleição e da filiação ao PSDB. Deixar a pompa do Palácio Paiaguás, ir para casa e aguardar o curso das investigações, depoimentos, delações, provas periciais, cruzamento de dados e a tramitação dos inquéritos que se transformarão em ações judiciais – que sugerem um mar de lama em seu governo atingindo em cheio quase toda a elite palaciana e aqueles aos quais ela sucedeu pela rotatividade do secretariado.

O Brasil acompanhou o sangramento político do ex-presidente Lula da Silva, que a cada denúncia, a cada evidência, a cada materialização de fato dizia com aparente naturalidade que não sabia de nada. E assim ficou até ser condenado em segunda instância na Justiça Federal a uma pena superior a 12 anos. Pedro repete Lula.

Em 2014 o governo de Mato Grosso caiu no colo de Pedro pela fragilidade em que a população se encontrava. Havia descompasso administrativo e a balbúrdia moral revirava o Paiaguás ao avesso. Corrupção era ordem do dia. Tanto assim, que o ex-governador Silval Barbosa e alguns de seus secretários foram condenados. Tanto assim, que deputados estaduais e o agora deputado federal Ezequiel Fonseca (PP), íntimos do poder palaciano estão no centro de um fogaréu judicial. Tanto assim, que cinco conselheiros do Tribunal de Contas do Estado foram – continuam – afastados daquele apêndice da Assembleia, por decisão judicial. São eles: José Carlos Novelli, Antônio Joaquim, Valter Albano, Waldir Teis e Sérgio Ricardo. Antes deles, o conselheiro Humberto Bosaipo também sofreu afastamento, mas conseguiu a proeza da aposentadoria. O único conselheiro titular, Campos Neto – que preside aquele órgão – foi denunciado pelo ex-presidente da Assembleia, José Riva, numa lista com 33 nomes de deputados estaduais e ex-deputados estaduais que teriam recebido mensalinho de suas mãos – Campos Neto foi deputado estadual.

Mato Grosso via o descalabro no governo e sonhava com alguém que pudesse restabelecer a moralidade, que no passado teve seu ponto alto com José Fragelli e Frederico Campos. Em razão disso, elegeu Pedro Taques, estreante em política, para o Paiaguás. Em 2014 a grande massa que votou em Pedro não o fez por acreditar em sua capacidade administrativa, o que se confirmaria ao longo do mandato. Os votos foram procurações para a moralização, a exemplo do que aconteceu em 2010 na eleição ao Senado, quando o mato-grossense apostou numa figura dita apolítica, mas que aparentava qualidade moral na função de procurador da República, para assumir a luta que se exigia – também em Brasília – para que o Estado voltasse a entrar no eixo.

Senador apático e governador frustrante. Pedro não correspondeu no primeiro cargo, porque na dita Câmara Alta, os quatro primeiros anos quase sempre são de aprendizado para se levar experiência ao plenário na segunda metade do mandato – e essa situação é ainda mais cristalina quando o senador não tem bagagem parlamentar representada por mandatos na Câmara ou na Assembleia.

Permínio e Pedro na Seduc

Permínio e Pedro na Seduc

Pedro está à frente do governo que chafurdou no episódio do desvio de recursos da Secretaria de Educação (Seduc), como atesta seu ex-titular e réu confesso Permínio Pinto. Mais. Em delação homologada pelo ministro Marco Aurélio Melo, do Supremo Tribunal Federal, Permínio sustenta que a curriola na Seduc tinha por objetivo levantar fundos para quitar dívidas da campanha de 2014 em caixa 2 de Pedro e do deputado federal Nilson Leitão, que disputa o Senado pelo tucanato. Some à delação de Permínio, outra, feita pelo coordenador financeiro da campanha de Pedro ao governo em 2014, o empresário Alan Malouf.

O governo fede na Seduc. Fede nos R$ 30 milhões que o Ministério Público informa que foram desviados do Detran por uma organização criminosa que entre seus chefes tinha os irmãos Paulo e Pedro Taques – primos do governador, sendo que Paulo foi chefe da Casa Civil. A essa organização, segundo o MP, também pertenceriam entre outros o deputado estadual e ex-secretário de Cidades no governo Pedro, Wilson Santos (PSDB). Há muita névoa sobre a passagem de Paulo Brustolin pela Secretaria de Fazenda do governo. Há muita nuvem sobre o recente escândalo na Ager. Há algo estranho na relação do governo com a Consignum. E o que dizer sobre a suspeita de tentativa de superfaturamento no projeto para construção de pontes de concreto?

Foge aos parâmetros humanos o tratamento do governo Pedro aos hospitais públicos e filantrópicos, que permanecem sob efeito sanfona: abrem e fecham; fecham e abrem por falta de recursos, como acontece com a Santa Casa de Cuiabá.

Carlos Bezerra, líder do PMDB, definiu o governo de Pedro como fascista, pelo escândalo dos grampos telefônicos que a sabedoria popular chama de Grampolândia Pantaneira. Segundo o desembargador do Tribunal de Justiça, Orlando Perri, 70 mil cidadãos foram gravados criminosamente. Políticos, advogados, médicos, servidores públicos, jornalistas, ninguém conseguiu escapar das escutas telefônicas criminosas. A cúpula da Segurança Pública de Pedro e seu chefe da Casa Civil foram presos por conta desse crime recorrente que se arrastou por cerca de um ano. Pedro diz que não sabe de nada. Agora, o confesso principal operador do esquema, o cabo PM Gerson Corrêa, depõe em juízo sustentado que o chefe era Pedro.

Para maior entendimento da gravidade do caso, por conta de Grampolândia Pantaneira foram presos: o secretário de Segurança Pública, delegado Roger Jarbas; o chefe da Casa Civil, Paulo Taques; o comandante geral da PM, coronel Zaqueu Barbosa; o chefe da Casa Militar coronel PM Evandro Lesco; o subchefe da Casa Militar, coronel PM Ronelson Barros; e o secretário de Justiça e Direitos Humanos, coronel PM Airton Benedito Siqueira Júnior.

O vice Fávaro renunciou

O vice Fávaro renunciou

Pelo caos na saúde, que ceifa vidas, interrompe tratamentos e adia cirurgias e exames. Pela inadimplência média de seis meses para pagamentos de compras a vista. Pela violência que fere direitos do cidadão com os grampos sistemáticos. Pela corrupção cristalizada na Seduc e no Detran. E pela soma de outros fatores, o mandato de Pedro não tem mais legitimidade. Creio na Justiça e sei que ela prevalecerá, mas até que uma sentença bote fim a ciclo de destempero administrativo Mato Grosso continuará pagando um alto preço. Que Pedro num gesto de mea culpa devolva a Mato Grosso a chave do Palácio Paiaguás, que nunca deveria ter recebido. Que o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Rui Ramos assuma o governo, pois nem vice-governador resta no governo, uma vez que o titular do cargo, Carlos Fávaro, renunciou.

PS – Sem vice o primeiro na linha sucessória é o presidente da Assembleia, Eduardo Botelho (DEM), que por ser candidato à reeleição não assumiria o cargo. Botelho é um dos investigados no esquema de desvio e R$ 30 milhões no Detran.

Eduardo Gomes é editor de boamidia

eduardogomes.ega@gmail.com

 

FOTOS:

! – Assessoria de Campanha 

2 – Arquivo Seduc

3 – Arquivo Governo de Mato Grosso