gonçalves cordeiro

EDUARDO GOMES: Jayme Campos governou Mato Grosso no quadriênio 1991/94; depois foi duas vezes prefeito de Várzea Grande e senador democrata. Seu período no governo foi marcado por muita bajulação, a exemplo do que aconteceu antes e continuou após o término de seu mandato. Mas, certa vez, Jayme Campos teve que confrontar o humor de Liu Arruda

Jayme Campos, ex-governador de Mato Grosso

Jayme Campos, ex-governador de Mato Grosso

 

A liga do artista Liu Arruda

Por Eduardo Gomes

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Jayme Campos governou Mato Grosso no quadriênio 1991/94; depois foi duas vezes prefeito de Várzea Grande e senador democrata. Seu período no governo foi marcado por muita bajulação, a exemplo do aconteceu antes e continuou após o término de seu mandato.

Liu Arruda

FOTO: MISC

A bajulação é arraigada ao poder e, mesmo que o governante seja avesso ao puxa-saquismo, não consegue desvencilhar-se dele. Prova disso aconteceu quando Blairo Maggi governou (2003 ao começo de 2010).

Blairo é devoto de Nossa Senhora Aparecida e carrega na lapela sua protetora. O lumpesinato palaciano viu na fé do chefe uma oportunidade para agradá-lo. O palácio inteiro, salvo uma ou outra exceção, botou a imagem da santinha na gola do paletó, nas blusas femininas e dos vestidos. É fé demais!

Com Jayme o oba-obra foi além do chefe e o universo feminino tratou de criar uma ferramenta para bajular a primeira-dama Lucimar Sacre de Campos. Assim surgiu a “Liga das Amigas e Admiradoras da Lucimar – (LAAL)”. Mesmo em se tratando de entidade insossa, a LAAL tinha representação em todos os municípios e a eleição de suas líderes era disputa acirrada, que botava adoradoras do poder em campos opostos, mas claro, todos em Campos.

À época Mato Grosso tinha o privilégio de contar com seu maior – e talvez único – humorista crítico: Liu Arruda, que era artista completo no palco, nas novelas de TV, na criação de personagens, fazendo comerciais e na defesa intransigente do linguajar de Cuiabá, que nem todos entendem, principalmente quando expressado com rapidez. Rompendo uma idiota barreira que escondia o cuiabanês, bem ao estilo da síndrome do Cachorro Vira-lata, Liu Arruda oficializou o sotaque cuiabano, que é cantado, puxado ao xis, que dá pronuncia de “d” ao “j” e popularizou a expressão digoreste – abrangente, mas sempre significando algo bacana.

Liu Arruda era cuiabano de berço e recebeu o nome civil de Elonil Arruda. Jornalista por formação acadêmica (Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro) e ator por opção e convicção, passou a fazer do humor uma arma contra políticos e, por isso, não era bem digerido nas esferas do poder mato-grossense.

O humor de Liu Arruda despertou a autoestima do cuiabano para o seu linguajar. Até então, o sotaque e as expressões verbais da região eram mantidos longe do rádio, da televisão, dos comerciais e das peças teatrais, como se fossem depreciativos.

Com a ousadia de Liu Arruda, o falar cuiabano virou motivo de orgulho. “Sou de ‘tchapa’ e ‘crux’ – dizem com orgulho os que nasceram e que pretendem morrer na quase tricentenária cidade fundada pelo bandeirante natural de Piracicaba Paschoal Moreira Cabral Leme.

Cultura não é praia preferida de Jayme, mas em razão do sucesso de Liu Arruda no Teatro da Universidade Federal de Mato Grosso, o governador cedeu à pressão e foi assisti-lo num de seus shows humorísticos bem apimentados. O ator sabia da presença do governador e o viu na área nobre rodeado pelos adoradores do poder.

O teatro ia abaixo a cada tirada de Liu Arruda. Até Jayme, que costuma permanecer de cara amarrada, não resistia e se soltava em risadas e aplausos. A descontração do governador cedeu lugar ao desapontamento quando o ator anunciou que acabara de fundar a LIAAL e explicou o significado de sua sigla: Liga das Inimigas das Amigas e Admiradoras da Lucimar.

O governador e os adoradores do poder saíram do teatro. Liu Arruda continuou no palco amparado pela força de sua arte e seu espírito de liberdade; na plateia bastante esvaziada, o grupo dos que não se deixam contaminar pela bajulação.

Liu Arruda não está mais entre nós. O último ato daquele ator e humorista não foi uma tirada apimentada para levar o público ao delírio. Precocemente, em 24 de outubro de 1999, aos 42 anos, seu riso se apagou para sempre, deixando um vazio enorme e o palco sem graça nesta terra que tanto precisa de críticos e de humor.

Desde o adeus de Liu Arruda, o humor em Cuiabá nunca mais foi o mesmo.

 

 

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eduardo gomes jornalista

EDUARDO GOMES, o Brigadeiro, quase 70 anos de idade, é jornalista e escritor, em Mato Grosso, editor do saite e da revista MT Aqui.  A crônica acima compõe o seu novo livro, ainda inédito. A obra estará nas bancas no final de setembro. Seu conteúdo é uma coletânea de fatos curiosos envolvendo políticos, sindicalistas, religiosos, jornalistas e artistas.  A leitura do livro, segundo o Brigadeiro, será boa maneira de se encontrar com episódios marcantes na recente história mato-grossense, que nem sempre foram levados ao conhecimento do público – Daí o nome “Dois dedos de prosa em silêncio”.

 

5 Comentários

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  1. - IP 189.74.178.89 - Responder

    Meu caro Enock,
    Obrigado pela divulgação deste material, que é uma das crônicas do livro – Dois dedos de prosa em silêncio – que falará sobre políticos, política e politicagem, em textos curtos e escritos num linguajar bem simples. A obra é crítica, mas também tem conteúdos que reconhecem virtudes. Dois dedos chegará às bancas no final de setembro – com preço popular de capa – e não conta com apoio das leis de incentivos culturais.

  2. - IP 177.4.189.130 - Responder

    Brilhante crônica. Apenas a ressalva de que o autor confundiu Sorocaba por Piracicaba.

  3. - IP 201.71.158.130 - Responder

    Roberto,
    Obrigado pelo elogio ao texto e também pela observação quanto a naturalidade do bandeirante Moreira Cabral.
    Vale destacar que no site onde o meu amigo e colega Enock buscou a crônica tem uma observação, onde explico que o material ainda não foi revisado pelo professor Marinaldo Custódio, que certamente verá o erro na citação de Piracicaba no lugar de Sorocaba.
    Gostaria que houvesse maior interatividade entre os sites e os internautas, pra que o texto seja esmiuçado de um e do outro lado de sua autoria.
    Grato.

  4. - IP 177.64.231.131 - Responder

    André D Lucca pegou o cajado deixado por Liu .Não podemos esquecer de Almerinda x Roseli Barbosa ( e o Lar das Crianças ) KKKKKKKKKKK
    Votei na Ryca ,ela não precisa roubar ninguém

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