EDUARDO GOMES: André D’Lucca nomeado para cargo no governo estadual. Virou peça da engrenagem do poder

André D`Lucca travestido como Almerinda

A força do poder e era uma vez Almerinda

POR EDUARDO GOMES

 

 

Premiar a inteligência é sufocar a incompetência. Por isso, até recentemente, o ator e humorista André D’Lucca por tanto tempo caminhou sozinho nos palcos, sem apoio institucional do governo em todas as suas esferas. Essa solidão era  agravada ainda mais pela indiferença do mercado publicitário cuiabano. Só, somente só – como diria o poeta – sua genialidade foi fortalecida por Almerinda George Lowsbi. uma socialite desbocada;  compartilhada com seus segredos de alcova e sua gravidez; e reconfortada pela força que a gestação e a maternidade de Alice lhe deram  É prematuro dizer que Almerinda saiu de cena, que perdeu seu quê de irreverência, sua crítica política cortante. O que se pode dizer – muito triste essa afirmação – é que em Cuiabá o humor ficou sem graça, a magia do riso sumiu, a arte caiu em desencanto. Isso, por conta da violência sofrida por Almerinda aquela sapeca que sabe os podres da classe política.

André D’Lucca é um facho de luz sobre as trevas da ignorância e da incompetência. Um iluminado! Isso mesmo. Iluminado, ácido sem agredir, corajoso sem perder a fragilidade humana.  Uma figura diferenciada.

Esse mesmo André D’Lucca do parágrafo anterior tem despesas tanto quanto os demais que bebem água. Nada cai dos céus para ele. Na saúde e na enfermidade esse grande ator é cidadão que recebe o tratamento dispensado a todos. Se não tem plano de saúde depende da generosidade coletiva. Se os bolsos estão vazios para comprar medicamentos, a saída é uma vaquinha, um show coletivo dos colegas. É a vida!

Não é possível viver de sonhos – muito embora eles embalam a vontade de viver. André D’Lucca acaba de ser nomeado para um cargo  na Secretaria de Trabalho, Assistência Social e Cidadania (Setasc) do governo estadual. Virou peça da engrenagem do poder. Creio que todas as vezes em que ele se alimentar, agradecerá a Deus pelo emprego. Também acredito que ao deitar, com a cabeça no travesseiro, sua embaralhada mente o cobrará em silêncio: o que aconteceu com a gente?

O empresariado cuiabano tirou o quê de encanto de Almerinda no palco. O sindicalismo voraz, com seu Fórum Sindical também ajudou a puxar a socialite pela perna: onde estava a sensibilidade dos sindicalistas que não enxergavam em André D’Lucca a melhor voz para cobrar seus direitos ora tão desrespeitados pelo governador Mauro Mendes? Onde estavam as mídias sociais tão falantes sobre assuntos externos? E os formadores de opinião, sempre de plantão na discussão do sexo dos anjos? – Tomaram Doril no tocante ao mestre da crítica e do humor.

A abrangente secretaria estadual que abriga a Cultura nunca enxergou André D’Lucca. Seus generosos programas, sempre de cofres abertos ao humor chapa branca, mantiveram a marca de sua botina no traseiro do grande ator.

André D’Lucca sai dos palcos e entra na burocracia. Que Deus o ampare e que entendamos que ele precisa se manter.

A classe política mato-grossense tem aversão aos inteligentes. Opta pelo assessoramento bajulativo, pelo humor com casca de banana, pelo texto dourado, pelos que sabem manter silêncio diante de situações que exigem gritos de protesto. Isso nos faz lembrar um interessante episódio na vida do estadista Winston Churchill. Muito jovem, Churchill chegou à Câmara dos Comuns e após seu discurso de estreia, diante de velhas raposas, procurou um parlamentar amigo de seu pai, para saber como foi seu desempenho.  “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo uns trinta inimigos. O talento assusta.” O brilhantismo e a independência de André D’Lucca assustam tanto quanto assustou o discurso de Churchill.

Em Mato Grosso mais uma vez a incompetência vence a inteligência. Novamente a comunidade mato-grossense continuará em silêncio como se o caso André De Lucca fosse algo tão natural quanto as águas do rio Cuiabá correrem para o Pantanal. Pobres formadores de opinião. Pobre mídia social e tradicional. Pobre empresariado atrelado ao poder. Pobre poder.

Eduardo Gomes, jornalista, 67 anos, é editor do site www.boamidia.com.br

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