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SOCIÓLOGO EDMUNDO ARRUDA: O certo é que Aécio ou Dilma vencedores, a cultura ornitorrintica continuará sendo um entrave para que deixemos a condição de uma modernidade periférica. Não haverá salvadores da pátria. A ladroagem vai continuar ainda por muito tempo, Não temos constituído um campo do lícito/ilícito no país, as instituições democráticas ainda não foram internalizadas nos atores do jogo, partidos com ideologias claras ainda nos faltam, políticos vocacionados com a ética da coisa pública são raros.

 Para o professor Edmundo Arruda, "Aécio e Dilma têm muito mais em comum do que possa parecer. Prezam o mercado e cultivam a má tradição das modernizações conservadoras, por cima e via patrimonialismo. Advém de dois partidos com programas muito parecidos".

Para o professor Edmundo Arruda, “Aécio e Dilma têm muito mais em comum do que possa parecer. Prezam o mercado e cultivam a má tradição das modernizações conservadoras, por cima e via patrimonialismo. Advém de dois partidos com programas muito parecidos”.

Dilma e Aécio: antípodas?

Por Edmundo Arruda
UFSC

 
Nada melhor do que eleições para simplificar questões e soluções.

Também no calor das urnas podemos perceber as nuanças e armadilhas do novo tempo.

Nesse contexto há acertos e erros nos diagnósticos. Nos prognósticos tudo se agrava. Intelectuais, classe média, povão, todos são envolvidos em confusões.

Começo com o povão. Ele está majoritariamente com Dilma. Os programas sociais atingiram sua meta. Não se sabe o que acontecerá com esses setores na medida em que ascendam socialmente.

A classe média em geral esta cansada do PT. A hora d’ água foi o escândalo da Petrobras.

Os intelectuais se dividem entre os que consideram Dilma a via possível para o socialismo, dai o namoro com Cuba, Venezuela e os que seguem a linha da critica ao projeto híbrido e errante do PT: social-democrata com paixão por Lenin.

Intelectuais deveriam se limitar a diagnosticar e menos em prescrever saídas. Marilena resolve uma questão muito complicada, a da estrutura de classes no Brasil, julgando a classe média como burra. Michel Lowy, trotskysta, afirma Ser Aécio um reacionário. Mino carta mantém a postura de cão de guarda do governo acusando Aécio de futuro do passado.

O maniqueísmo da política como a arte da desclassificação do que se considera inimigo é um falseamento do campo da boa política e uma granada na luta institucional por democracia. Quando se considera o outro como ruim e a si próprio como o bom temos um mecanismo patológico. O de expurgo de bodes expiatórios na tradição judaico cristã. O outro é a projeção de todo o seu mal desconhecido.

Ora, bolas. Houve privataria do PSDB. Desde o tesoureiro Serjão de FHC a corrupção está presente. Isso no horizonte dos que lutaram contra a ditadura. Há roubalheira dentro do governo e o PT sabe bem disso. O dá lá toma cá é parte de nossa genética cultural. Os detalhes da prostituição moral da má política é uma herança maldita. Atinge a todos os partidos e estruturas sociais. Públicas e privadas.

Agora, a luta por alternância pode ser colocada no simplismo dos bons versus os maus. Adultos infantilizados pelo esprit de corp agem dessa maneira e diminuem a democracia. A desonestidade do outro é sempre menor que a minha porque a minha ideologia justificam os meios.

Aécio e Dilma têm muito mais em comum do que possa parecer. Prezam o mercado e cultivam a má tradição das modernizações conservadoras, por cima e via patrimonialismo. Advém de dois partidos com programas muito parecidos. O PSDB criou a política para o desenvolvimento institucional, o real, mantido pelos governos Lula e Dilma.

Os dois modelos vem de muito tempo na teoria. Muda-se com a classe média ou com os setores populares. W.Mills apostava nas classes médias. FHC também. Lenin e seus intelectuais tentaram usar Lula. Este os usou e abusou. A nomenclatura petista já não espera as massas na rua. Nem deseja isso. Vejam a repressão e o desdém com o junho de 2013. PT poder é poder soberano com sua lógica máxima de governo e mínima como política de estado e de direito modernos.

Ha diferenças também. De personalidades à posturas mais ideológicas, pragmaticas, utópicas ou religiosas. O certo é que Aécio ou Dilma vencedores, a cultura ornitorrintica continuará sendo um entrave para que deixemos a condição de uma modernidade periférica. Não haverá salvadores da pátria. A ladroagem vai continuar ainda por muito tempo, Não temos constituído um campo do lícito/ilícito no país, as instituições democráticas ainda não foram internalizadas nos atores do jogo, partidos com ideologias claras ainda nos faltam, políticos vocacionados com a ética da coisa pública são raros.

Dizer que Aécio é de direita é um absurdo tão grande quanto sustentar ser Dilma de esquerda. Na verdade os dois caminham pelo centro, e a democracia se faz pela centralidade, uma razão a mais de aproximação entre os dois candidatos em termos políticos e da política que ensaia a democracia.

A ideologização que o debate no calor eleitoral provoca é compreensível, mas na verdade é um fator de corrupção institucional da democracia. A desqualificação recíproca dos partidos, como de direita, o PSDB e o outro de esquerda, PT, constituem um bom exemplo de como o óbvio pode ser o exemplo de lgo próximo do seu contrário, uma alienação, por pouco uma má fé.

Pra finalizar, considerar Dilma e Aécio como antípodas, como contrários excludentes, além de obliterar a discussão de teses e a formação de canais de formação de opinião pública, também tem efeitos futuros, na medida em que corrompe também a constituição de pautas não corporativas para o tão esperado desenvolvimento social. Afinal, se batemos no peito por sermos a sexta economia do mundo, precisamos ter a capacidade de nos envergonhar por ainda mantermos a posição de octagésima posição do ranking dos mais marcados pela não distribuição de renda, pela pobreza, pela negação dos direitos fundamentais.

 

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EDMUNDO ARRUDA, cuiabano, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina e um dos fundadores do CESUSC – Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina (CESUSC),  membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros. Possui graduação em Direito pela Universidade de Brasília (1978), Mestrado em Direito pela UFSC (1981) e Doutorado em Sociologia – Université Catholique de Louvain (1991), Pós-Doutorado em Sociologia Política na Universitè Paris 8 Saint Denis (1996), Pós-Doutorado em Sociologia na Universitè Paris X Nanterre (2009). É autor, entre outros títulos, dos livros  “Direito Ordem e Desordem”, “Fundamentação ética e Hermenêutica: Alternativas para o Direito” e “Direito Alternativo e Contingência – História e Ciência”

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