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EDMUNDO ARRUDA: Natal, uma oportunidade de sonhar

Natal, uma oportunidade de sonhar
Edmundo Arruda
Não podemos negar o clima de Natal. Pouco importa se somos ou não cristãos. Sejamos cidadãos da alma e nos deixemos encantar por todas as situações que nos emocionam, sejam elas parte de uma cultura ocidental ou oriental, do sul ou do norte, de Floripa ou de Cuiabá, enfim, somente há uma raça, a humana.
Todos temos lá nossas preocupações com o Mistério da vida, com todas as explicações do Fiat Lux,  dos mitos e alegorias presentes nos livros sagrados à Darwin às fisicas astronômicas.
No Natal nós temos uma oportunidade  ímpar de parar e pensar no outro, claro. Parente é serpente, segundo M. Antonioni, mas a família é tambem conforto, refúgio em tempos de insegurança no quais a única lei chama-se efemeridade. No natal alimentamos o comércio e ajudamos a girar a moeda, tudo em nome de Jesus,  escolhido como o filho de Deus, e Deus ele mesmo. Não interessa se essa redução ocidentalizadora de Deus enriquece ou não o Mistério, importa que ela nos ajuda a sonhar, com um menino que, terraqueo, projeta-se fora da terra para nela mergulhar na humanidade. Isso me intriga e me atrai: o poder do 24 de dezembro. Menos pelos improváveis olhos azuis do cristo play boy super star, mais pela capacidade desse simbólico todo em postular no sofrimento, e por vezes em atitudes que qualquer psiquiatra tipificaria como  psicopatia, a Salvação presente na narrativa do padecer para erguer o outro. O que dizer do se autodenominar de Pai, o último Messias, definitivo, de filho sanguíneo de Deus, a produzir lágrimas e esperanças?
 Meu filho certa vez, ao brincar brincar comigo me provocou perguntando se acreditava em papai Noel. Naquele dia me entregou  um bilhete e me pediu para colocar para postar ao papai Noel, em busca de dois presentes. Ele tinha seis anos. Mas a massa de cristãos no mundo inteiro é composta de gente grande, e compram, e se endividam, e se autopresenteiam, num ritual de purgação de culpas. Uma celebração de um ser divinamente humano que,  por ser tão especial e não humano, nos chama ainda a atenção para a nossa fragilidade, para o nosso ridīculo, pois de carne somos. Medrosos em face da finitude, da exiguidade da vida, nos igualamos aos bebes, 100%  dependentes,  aguardando os outros para caminhar, até o cemitério…
No Natal não importa se somos cínicos, se partilharemos  nossa ceia com o andarilho despossuído que se aproxima de nossas casas. Não creio que isso seja uma prática corriqueira entre nossos cristãos bonzinhos. Importa a revolução da consciência, não consciencia social mais ampla, que leninistas moralistas pequeno bugueses exaltam como padrão de moralidade. Falo de uma consciencia de fraternidade, talvez demasiadamente contaminada pelo mercado, mas real, aquele tapa na cara do que são os nervos expostos de nossa sociedade,  os cidadãos de segunda e terceira categoria…
No natal abrem-se para alguns janelas para o sensível, quanto aos que sofrem, aos humilhados, adoecidos, que ao menos merecem uma piedade, não piegas, do nosso sentimento, por mais perfunctório ele seja, por mais hipocritas nossas lágrimas, afinal, elas significam uma emoção ainda viva e possível num tempo de esquecimentos, inclusive da solidariedade , do homem pelo homem, do homem pelos homens que, expropriados de muitas formas, sobrevivem.
Viva o Natal.

EDMUNDO ARRUDA, cuiabano e sociólogo, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina. Escreveu Direito, Marxismo e Liberalismo, entre outros

Categorias:Cidadania

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