gonçalves cordeiro

EDMUNDO ARRUDA JR: Petistas de boa fé, vocês têm o meu respeito. A besta Bolsonaro e a última chance de Lula dependem de quem?

Edmundo

A besta Bolsonaro e a última chance de Lula dependem de quem?

Edmundo Lima de Arruda Jr

Não acredito na ideia do féretro da política, de Lula, nem do lulismo, nem do PT, nem das esquerdas. Ideias de morte atraem os mórbidos cujo prazer é ver o circo pegar fogo. Ideias não são extintas por decreto ou por simples desejo emocional. O fascismo (extemporâneo) tardio coloca no nosso caminho uma besta chamada Bolsonaro. Lula encontra-se inelegível e preso. Não será candidato. Os que pensam contrariamente estão perdendo um tempo precioso. Sem querer dão seu contributo para o avanço da Serpente. A peste somente se alastra nos terrenos do ódio casado com posturas estáticas. Há que se avaliar e se reavaliar condutas. É o que tento, hoje. É tempo de trégua pra superar o maniqueísmo da má política de ressentimentos.

Admito e respeito o ponto de vista de amigos e colegas do PT. Ao longo dos 20 anos nesse partido vivi a melhor fase de minha vida. Ganhei amigos que me emocionaram e me emocionam. Sonhei com um Brasil melhor, com novos movimentos sociais. Vibrei com a CUT nos anos oitenta, em face do sindicalismo pelegos da CGT. Lá estava nas manifestações pelas Diretas -Já. Muita emoção ter testemunhado de perto a ascensão de trabalhador como protagonista da história pós-ditadura militar.

Muitos amigos e colegas próximos nas lutas da esquerda tomam conhecimento do que escrevo. Outros fingem que este velho professor já morreu. Outros dão-me um carimbo de conservador, tudo resolvendo… Fiz centenas ou milhares de companheiros no movimento do Direito Alternativo (MDA). Tal organicidade proporcionou-me riquíssima convivência plural e grandes discussões sobre Direito e Política.

Daí chegamos ao poder em 2002 sob o preço de um erro com consequências gravíssimas. O acordo por cima com o PMDB. O hoje é o resultado de um longo ontem carregado de equívocos históricos, repetidos ou revigorados.

Mas tenho convicção (estou de boa fé) de que temos que fazer um grande mea culpa. Senão não teremos chance. Temos que renovar. E quando busco esses espaços ou eles (os das burocracias) não têm tempo ou não lêem. Ou os dois juntos.

Sei que a ação histórica exige pragmatismo, tomada de partido e intervenção. Estamos diante de uma possível vitória de Bolsonaro… temos que agir.

Uma tarefa impossível? Sim e não. Começo por mim mesmo. Ainda tenho dificuldades em abstrair certas coisas, vendo o embuste e a arrogância se repetirem. Vejam o “paradigma surto-continuado” de Gleisi..que horror! O certeiro texto do Marcus Fabiano sobre “lulismo cenobita” passa batido pelos paulistas e esquerdas não lulistas? Um sintoma do estado de nossa crítica social.

Gostaria de ver uma implacável desconstrução de meus textos e de intelectuais de maior envergadura. O que dizer das palavras do Mestre Chico de Oliveira?. Ai! de quem menospreza seus sábios… Mas a turma acha que “Chico não conta”, entre outros que, ou fundaram o partido, ou escreveram muito sobre o transformismo e a opção de 2002…por que não enfrentam a questão pelos chifres? Coloquem bons argumentos em defesa daquele casamento espúrio entre o sonho e o fisiologismo?

Gostaria de dar razão aos que me mostrarem que o que nos destruiu foi só o Capital e seu movimento global desde a aceleração da crise da bolha (2007). Mas os erros vêm de muito tempo. Sabemos disso ou não?

Tenho colecionado farto material sobre posturas de anuência e legitimação da esquerda cínica similares à dos lulistas, na história. De complacência diante do mal. Mal é mal, não importa a cor.

No caso da “vitoria” dos socialismos reais” , na ex-URSS, China de Mao, mesmo em Cuba ainda hj, pessoas boas e ingênuas como muitos amigos, ex-amigos, colegas ou ex-colegas, desculpe -me, colaboraram. O silêncio interno permitiu a barbárie se travestir de esquerda, claro, com ganhos (questionáveis pois efêmeros) sociais. Beria era um algoz dos críticos. Matou com as próprias mãos boa parte da inteligência não stalinista. Tudo era sabido mas justificado em face do inimigo imperialista…

O modelo continua o mesmo no senso comum de uma esquerda religiosa, inclusive no Brasil. Se houver autocrítica e disposição do PT em fazer revisão volto a ser um militante naquele partido. Lula é brilhante. Está acima do mesmo e da sua vanguarda oportunista. Sabe o que está acontecendo. Ele tem a chance de rever, PUBLICAMENTE, e se repaginar e ao partido. Seria um segundo LULA, livre do cancro do Zé Dirceu, Rui Falcão e nomenclatura de SP no Diretório. Se fizer isso será o único com poder de consertar o Brasil. Acredito nisso dando razão ao caro amigo Vignatti, homem de visão.

Parto do Brasil que temos. Um país dilacerado, com rápida dissolução de já incipientes instituições. Num contexto de radicalização os discursos extremistas reforçam os velhos ingredientes da velha política. Populismo, caudilhismo, autoritarismo, golpismos. Afasto-me do subjetivismo moralista evangélico para o feijão com arroz da realidade como ela é.

A biruta das candidaturas de centro não se forma por decorrência do imbróglio a que chegamos. Temos os impasses de um neoliberalismo a nos roubar o futuro e as forças bélicas de China e EUA a nos vigiar. Temos um candidato absolutamente senil na direção da vitória no primeiro turno. Temos uma esquerda que não entendeu que Lula não é nem será candidato. Temos o retorno à um velho recurso da via bonapartista de compor, no improvável segundo turno, com Ciro Gomes, que é tudo menos um candidato confiável.

Ciro o trairá mais mil vezes. HADADD não leva. Tarso, onde anda? Sempre foi marginalizado como Suplicy. Mas estar à margem do rio não implica necessariamente em perceber que as águas que por ali nunca são ou serão as mesmas?

O que dizer de amigos quando fogem da discussão e rompem a amizade. Expressam credo e isso me deixa mais incrédulo. Tristão de Atayde (Alceu Amigo do Lima) e Gustavo Corção não se falavam mas se respeitavam.

Mais facil cortar, “democraticamente”, todos os vínculos com os que pensam diferente. Estranha alteridade somente factível entre iguais..Isso me diz tudo e me faz lembrar do pressuposto de Carl Schmitt…A política atende à uma lógica “amigo versus inimigo”…Será? A história é plena de exemplos de fraternidade acima de ideologias, ainda mais quando estas se fixam em substratos doutrinais esgarçados, rotos ou desbotados…

Enfim,caros petistas de boa fé. Vocês têm o meu respeito. Ferverem de raiva comigo mas não me mandarem a pqp já é um sinal positivo de mudanças nos devotos da Igreja. Vocês sabem, posso ter meus inúmeros erros de perspectiva mas também tenho meus acertos analíticos na crítica.

Edmundo Lima de Arruda Jr, cuiabano, é jurista e professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina, presidente honorífico do CESUSC. Autor de Lições de Direito Alternativo e Direito Moderno e Mudança Sociao

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