EDMUNDO ARRUDA JR: Defendendo a Amazônia na época da pós-mentira

Edmundo

Defendendo a Amazônia na época da pós-mentira

Por Edmundo Arruda Jr

Atribuem ao padre Zezinho o texto: “Estão botando fogo no Brasil” . Deve haver mais de um José, padre. Mas o que importa, esse Zé ajudou a pensar. Forçou a sairmos de uma “lógica epistemológica” louca, a da guinada geral para a desmemorização. Padre Zé denuncia, ele e Joãos, Pedros, Marcos e milhares de apóstolos do bem, a necessária defesa da Amazônia.
Afinal, vivemos na época da pós-mentira, ôpa, engano, época de pós-narrativas…Momento de sínteses…

Filtragem e afinação geral. Enfim a unidade de todos os progressistas contra os fascistas, esses 58 milhões de seres abjetos que elegeram a reencarnação de Hitler, parece uma possibilidade. Preparem seus whatsapps. Afinal o Brasil com os pés no abismo salvo na marca do penalti com uma viva consciência, em rede, dos bons, mas também dos impuros convertidos, contra o mal ou demônio. Melhor essa conversão tardia que o inferno, o inferno dos outros. Sempre.

Ongs ambientais são milhares. Há excelentes mas há o mercado…no qual circulam interesses de todos os tipos. Um mercado abandonado pelos sádicos imperialistas? Grilhagens multiplicam-se nesses sete meses? Talvez. Estiveram suspensas as queimadas, conflitos com povos indígenas, assassinatos de líderes do MST, de 2002 até o governo Dilma? Pelo que me consta, não. A luta de classes contou, desde FHC, com Lula, Dilma, Temer, com a fria contabilidade da barbárie no que ela não se detém no bálsamos das políticas sociais. Grandes interesses estão lá, há dezenas de anos.


O certo é que a Europa fez terra arrasada de seus ecossistemas originais. De repente querem proteger um surpreendente e inusitado ataque à Amazônia…será? Interesse no desequilíbrio das queimadas deste mês? Sou de MT. Agosto é o mês do céu marrom quase negro, que arde nos olhos. Não são queimadas criminosas. Elas existem há séculos. São resultados de seca, calor de quase 50 graus. O resto é mais que fake news, é desinformação. Mas torçamos para Lula voltar. Ou Manuela. Ou Haddad. As queimadas de agosto vão continuar. Mas talvez grilheiros e pecuaristas sejam agregados às politicas sociais das reformas agrárias interrompidas, engajando-se contra as leis de mercado (nunca se viu tanta ocupação e circulação de títulos imobiliários) desde a concessão de áreas rurais).


Mas Macron está preocupado como “pulmão do mundo” (ou um deles, reconhece o presidente francês), o premier do Canadá também. Seguem Merkel. As monarquias do Norte, lá onde juizes e parlamentares vão de bicicleta ao trabalho enquanto as grandes empresas que serviram ao nazismo dominam o mundo, inclusive na área do papel…o mesmo aqui na França onde é conhecida a colaboração das fábricas de carro francesas com a República de Vichy. Siemens e tantas outras empresas capitalizaram com o ecossistema totalitário. Armamentos, tecnologia, transgênicos, agrotóxicos, lixo nuclear, bom saber que os países civilizados deixaram aqueles interesses e subprodutos na gaveta do passado…


Não. O que está em jogo não é a besta chamada Bolsonaro e a letargia crítica de amplos setores bolsonaristas com as burrices de seu líder abjeto. Não. Agora por detrás desse clima de “salvem a Amazônia” encontra-se algo maior, a redefinição geopolítica para o controle “civilizado” do que subjaz à extensa região amazônica. Seus biomas, sim, mas, principalmente, as suas riquezas guardadas no subsolo. Água, minerais, recursos naturais desejados há décadas pelos grilheiros do Norte, associados a ávidos parceiros de sempre, os mercenários do dinheiro e do poder.


O resto é disputa na guerra da informação, por parcelas de narrativas que, mesmo fora do falso, reorientam, dissimulam e anestesiam a perceber o quanto o Brasil “sendo agora mais de esquerda – ou progressista, ambientalista, identitário, anti-misógino e anti-machista, não racista e não preconceituoso, avançou na luta libertário-emancipadora. E graças a uma mídia não promíscua, a uma elite consciente e, cereja do bolo, a artistas e atores da rede Globo seguidores de Zé de Abreu, o tucano arrependido e lulista tardio, do qual é devoto e possível sucessor no teatro do absurdo que todos ajudamos a representar.


Annecy, França 23.8.19


Edmundo Arruda Jr é cuiabano, sociólogo, professor titular aposentado da UFSC. Escreveu “Direito, Marxismo e Liberalismo”, entre outros livros

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