TCE - DEZEMBRO

DRAUZIO VARELLA: Sou a favor da internação compulsória dos usuários de crack que perambulam pelas ruas feito zumbis. Por defender a adoção dessa medida extrema para casos graves já fui chamado de autoritário e fascista, mas não me importo

A internação compulsória acabará com o problema? É evidente que não. Especialmente, se vier sem a criação de serviços ambulatoriais que ofereçam suporte psicológico e social para reintegrar o ex-usuário - adverte o médico Drauzio Varella

A vida em primeiro lugar  

por Drauzio Varella

CARTACAPITAL

 

Sou a favor da internação compulsória dos usuários de crack que perambulam pelas ruas feito zumbis. Por defender a adoção dessa medida extrema para casos graves já fui chamado de autoritário e fascista, mas não me importo.

A você que considera essa solução higienista e antidemocrática, comparável àquela dos manicômios medievais, pergunto: se sua filha estivesse maltrapilha e sem banho numa sarjeta da Cracolândia, você a deixaria lá em nome do respeito à cidadania, até que ela decidisse pedir ajuda?

De minha parte, posso adiantar que fosse minha a filha, eu a retiraria dali nem que atada a uma camisa de força.

Para lidar com dependentes de crack, é preciso conhecer a natureza da enfermidade que os aflige. Crack é droga de uso compulsivo causadora de uma doença crônica caracterizada pelo risco de recaídas.

É de uso compulsivo, porque vai dos pulmões ao cérebro em menos de dez segundos. Toda droga psicoativa com intervalo tão curto entre a administração e a sensação de prazer provocada por ela causa dependência de instalação rápida e duradoura – como a que sentem na carne os dependentes de nicotina.

As recaídas fazem parte do quadro, porque os circuitos de neurônios envolvidos nas compulsões são ativados toda vez que o usuário se vê numa situação capaz de evocar a memória do prazer que a droga lhe traz.

Quando os críticos afirmam que internação forçada não cura a dependência, estão cobertos de razão: dependência química é patologia incurável. Existem ex-usuários, ex-dependentes não. Parei de fumar há 34 anos e ainda sonho com o cigarro.

Tenho alguma experiência com internações compulsórias de usuários de crack. Infelizmente, não são internações preventivas em clínicas especializadas, mas em presídios, onde trancamos os que roubam para conseguir acesso à droga que os escravizou.

Na Penitenciária Feminina atendo meninas presas na Cracolândia. Por interferência da facção que impõe suas leis na maior parte das cadeias paulistas, é proibido fumar crack. Emagrecidas e exaustas, ao chegarem, elas passam dois ou três dias dormindo, as companheiras precisam acordá-las para as refeições. Depois desse período, ficam agitadas por alguns dias e voltam à normalidade.   Desde que o usuário não entre em contato com a droga, com alguém sob o efeito dela ou com os ambientes em que a consumia, é muito mais fácil ficar livre do crack do que do cigarro. A crise de abstinência insuportável que a cocaína provocaria é um mito.

Perdi a conta de quantas vezes as vi dar graças a Deus por terem vindo para a cadeia, porque se continuassem na vida que levavam estariam mortas. Jamais ouvi delas os argumentos usados pelos defensores do direito de fumar pedra até morrer, em nome do livre-arbítrio.

Todas as experiências mundiais com a liberação de espaços públicos para o uso de drogas foram abandonadas, porque houve aumento da mortalidade.

A verdade é que ninguém conhece o melhor método para tratar a dependência de crack. Muito menos eu, apesar da convivência com dependentes dessa praga há mais de 20 anos.

A internação compulsória acabará com o problema? É evidente que não. Especialmente, se vier sem a criação de serviços ambulatoriais que ofereçam suporte psicológico e social para reintegrar o ex-usuário.   Se esperarmos avaliar a eficácia das internações pelo número dos que ficaram livres da droga para sempre, ficaremos frustrados: é preciso entender que as recaídas fazem parte intrínseca da enfermidade.

Em cancerologia, vivemos situações semelhantes. Em certos casos de câncer avançado, procuramos induzir remissões, às vezes com tratamentos agressivos. Não deixamos de medicar pacientes com o argumento de que sofrerão recidivas.

Está mais do que na hora de pararmos com discussões estéreis e paralisantes sobre a abordagem ideal, para um problema tão urgente e dramático como a epidemia de crack.

Se a decisão de internar pessoas com a sobrevivência ameaçada pelo consumo da droga amadureceu a ponto de ser implantada, vamos nessa direção. É pouco, mas é um primeiro passo.

 

Drauzio Varella é médico e colaborador da revista CARTACAPITAL

3 Comentários

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  1. - Responder

    Concordo com o renomado Médico. Essa gente , tendo entrado nessa vida por ecolha ou não precisa de tratamento sim ; e se tiver que ser a força que seja . É uma estupidez , idiota e romantica desses que dizem por ai que internar a força é uma agressão ao dependente. Ora essa gente não pensa mais ; afinal quem em sã consciencia preferiria viver em meio ao lixo e aos ratos , ao invés de uma limpa vida??? Só mesmo gente imbecil , travestida de pseudo-liberais , que defende uma insanidade dessas ( de não interná-los a força). Ademais , nós os não dependentes não somos obrigados a sermos vitimas dessa gente que nos incomoda sim , em bares , restaurantes, supermercados , ruas e avenidas , com seus aspecto sempre lúgubre e maltrapilho. São nossos irmãos e irmãs , mas que infelizmente já nÃo podem mais responder por sí e cabe aos ainda mentalmente sadios decidir por eles. INTERNAÇÀO COMPULSÓRIA PARA TODO DEPENDENTE JÁ!

  2. - Responder

    Concordo plenamente com dr. Drauzio, sei como é isso…a luta em ajudar um dependente.
    Sou feliz hoje que a cada dia é uma vitória. Passei por momentos muito sofridos. Busquei todas as forças de ajudar uma pessoa que amo. Hoje posso crer que vencí essa luta. Apenas o amor salva e liberta!
    Se cada um fizer a sua parte em não descriminar e procurar erguer a mão para cada ajudar, conseguiremos vencer essa “maldição”.
    Enfim, acima de nós existe um Deus maravilhoso que nos ajuda e mostra caminhos para ajudar nosso proximo.
    Agradeço muito por estar vencendo essa luta. Com amor estou vencendo…Vencí!!!

  3. - Responder

    CONCORDO COM O DR. DRAUZIO VARELLA, DESDE QUE O PAÍS OFEREÇA CONDIÇÕES ADEQUADAS DE TRATAMENTO. COMO MEDIDAS APENAS HIGIENISTAS ( COMO OCORREU COM A “LOUCURA” TEMPOS ATRÁS) SOU CONTRA.

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