Dialogando com Jung, Freud e Peter Lund, JOSÉ ORLANDO MURARO fala de sonhos e viveiros em Chapada dos Guimarães

Muraro

Monjolo ao extremo

Texto IV

 

Por José Orlando Muraro

 

Quinta-feira   feriado….20 de junho de 2019.

 

Estou na Monjolo. José Gerônimo me trouxe. Paguei 40 reais pelo frete.

 

Descarreguei tudo. Pouca coisa. No mais as ferragens para o viveiro.

 

Hoje é quinta-feira e feriado. Corpus Christi…tinha planejado vir somente na sexta-feira, mas o feriado- quando me contaram- alterou bastante meus planos.

 

Ontem á tarde na casa de material de construção comprei a foice, marreta de 2 quilos, lima e torques, além de 5 barras de ferro 5;16 e 15 de outro ferro mais fino.

 

Não tinha carro para o frete. Sem problemas.

Enganchei as barras amarradas com arame nos ombros e fui arrastando-as até o escritório.

 

Cheguei esgualepado….cansado….mas duas cervejas me colocaram nos eixos novamente.

 

Fui ao mercado e comprei café e sardinha em lata. Comi uma coxinha de frango e fui para casa.

 

Hoje recolhi a roupa do varal e me vesti. Peguei o coador de café, abridor de latas, a colher grande e os potes vazios de herbalife. E uma caixa de madeira com cobertor e uma manta.

 

Na padaria  comprei roscas de polvilho e pacotes de mel em pequenos saches.

 

O mel será para alimentar as abelhas agora na seca….quando é muito ruim de flores no cerrado.

 

Serão quatro dias  sem álcool…com somente duas tarefas: fazer o viveiro e alimentar as abelhas.

 

Veremos como vai a coisa toda.

 

Me lembrei.

 

Esta noite, de quarta para quinta-feira, tive dois sonhos.

 

No primeiro parecia ser uma mulher conhecida, mas não identifiquei-a.

 

Suas mãos estavam atadas por uma grossa corrente e ela me apresentava o cadeado, pedindo para abri-lo e libertá-la.

 

O cadeado estava amarrado pro canudinhos, destes de tomar refrigerantes, de cor branca.

 

Quando comecei a soltar os canudos, outra mulher, mais jovem passou por mim e disse para não abrir o cadeado. E mostrou duas cartas que ela disse que tinham sido escritas por dois pastores, religiosos.

 

Soltei o cadeado e peguei as cartas. Rasguei-as e joguei no rosto da jovem. Só consegui ler uma linha:   “e este brasilianíssimo senhor suíço…”

 

Acordei, tomei água e voltei a dormir na rede…

 

Outro sonho.

 

Um barraco de lona preta. Um iglu, na realidade. Montado logo depois da bagaceira que trouxe do Toninho Roco.

 

Nas mãos eu levo uma pequena muda de uma planta. Paro na porta do iglu.

 

Sai um sujeito bem velho, que sei ser eu, na realidade.

 

Eu faço um buraco na frente do iglu de lona preta e planto a mudinha. Muito mal plantada, toda torta.

 

Depois eu encontro o eu-mais-velho perto da bagaceira e ele me diz:

 

-Vê se agora planta as coisas direito. Vi como você plantou aquela mudinha, toda torta….vi mas não falei nada….vê se planta certo agora!

…………………

Depois do almoço de  quinta-feira e da soneca….

 

Estou na sombra atrás do barraco de Eternit….

 

Fiz um almoço meio sem pensar….queimei o alho….mas tirando isto, consegui comer duas pratadas….depois procurei a sombra e tentei cochilar…

 

Antes, Sidneis e João da Pimenta passaram por aqui…..

 

Tentamos acertar os ponteiros…muita coisa para decidir…

 

Localizei o lugar para fazer o viveiro. Já fiz as estacas de marcação….encontrei os palanques de eucalipto onde os havia escondido.

 

Quando esteve aqui, Sidneis falou sobre sonhos que o estão atormentando…

 

Com cobras…uma  levanta a cabeça bem acima dele e aí de motocicleta ele foge…..passa por uma ponte e vê outra sucuri, bem gorda, atravessando a estrada…ele passa de moto sobre ela….

 

Expliquei que, para a maioria das pessoas, os sonhos são apenas diversão do cérebro enquanto você dorme…

 

Mas a tese de Carl Gustav Jung é bem outra.

 

Ele escreveu que o inconsciente está sempre atento, mesmo quando o consciente está ativo enquanto estamos acordados….

 

Este inconsciente ativo durante o dia, vê os fatos, analisa-os a todo momento. Muitas vezes intervém, quando o perigo é iminente. È o que chamamos de “sexto sentido”.

 

Mas à noite o consciente dorme e o inconsciente fica tentando te mandar uma mensagem.

 

Segundo Jung, o inconsciente não verbaliza…então ele vai juntando imagens e tentando passar a mensagem que ele quer mandar…mas esta mensagem, transmitida por imagens, algumas que identificamos, outras que o inconsciente cria, nem sempre – ou na maioria das vezes- não entendemos…

 

Sidneis entendeu a questão. Difícil era saber sobre o que o seu inconsciente estava tentando alertá-lo.

 

Pelo Google, no sistema de voz, ele perguntou sobre sonhar com cobras, pontes, etc….

 

O computador, sempre citando o “livro dos Sonhos” respondia, mais ou menos a mesma coisa: traição!

 

Ou seja: fique esperto.

 

Depois que ele se foi, fiquei pensando no que havia sonhado.

 

Jung escreveu que, para o homem, sempre que ele sonha com uma mulher, ele tende a identificá-la como algo externo à ele, às vezes a mãe, ou irmãs ou esposa.

 

Mas para ele, na maioria das vezes, é um equívoco. Todo homem traz em seu genes o cromossomo X que vem da sua mãe ( somos XY e as mulheres XX)

 

Muitas vezes, a figura feminina tem mais a ver com este lado feminino  do interior do homem.

 

No meu sonho, aquela mulher é uma parte de mim que sabe que só eu mesmo posso me libertar.

 

Nada de sair do armário, homossexualismo ou coisa do tipo. Com certeza Freud com suas paranóias analisaria por aí ( sonhou com lápis: penis…sonhou com porta: vagina…etc…)

 

Mas o discípulo (Jung) enfrenta o mestre (Freud) e escreve um artigo onde defende que o substrato dos sonhos era uma matéria bem mais complexa do que a dicotomia pênis-vagina ensinada pelo mestre.

 

Freud escreve um texto em resposta e tenta colocar o discípulo rebelde no seu lugar…

 

Junga narra que naquela noite, após ler o texto de Freud sentiu-se arrasado. Fim da linha, pensou ele. E à noite ele sonhou que, velho, estava em uma praia e fazendo castelos de areia, como fazia quando era uma criança.

 

Escreveu que entendeu que o inconsciente estava dizendo à ele que deveria buscar as forças, a vivacidade e a ousadia das crianças, enfrentar Freud e não agir como um velho derrotado…era construir muralhas e castelos para enfrentar seu antigo professor.

 

O embate escrito que se seguiu é uma das mais belas da psiquiatria, que engatinhava….e o tempo deu total razão à Jung.

 

Então volto ao meu sonho: do que eu tenho que me libertar?

 

Do alcoolismo….de um  gênio briguento…da prostração de dormir todas as tardes bêbado…acordar e ir beber mais umas, antes de voltar a dormir em casa….

 

O grande detalhe do sonho é o canudinho de refresco que está enrolado, amarrado no cadeado.

 

È como se o inconsciente desse a dica para não chegar à conclusão  errada…canudos de refrigerantes lembram bar ou lanchonetes…

 

Penso que é bem isto mesmo.

 

Quando João da Pimenta passou por aqui,  eu estava cozinhando o almoço, e disse que estava com o freezer cheio de cervejas e que, quando voltasse, ele traria algumas latinhas para mim.

 

Pedi a ele que não. Expliquei os motivos e ele entendeu….

 

Quanto à outra mulher, Jung escreveu que é a parte repressora de cada um….ou seja, você sabe que está fazendo cagadas, não se controla, apesar de que uma parte de si à toda hora te chama a atenção e te repreende.

 

O fato dela dizer que não posso libertar a outra mulher enquanto não ler as cartas dos pastores, me remete a uma conversa que tive dias atrás com João Carlos Monteiro (JCM)

 

Ele faz um trabalho meritório com alcoólatras, drogados e moradores de rua….

 

Disse-lhe que admirava o que ele fazia, principalmente porque ele tenta resgatar a auto-estima destas pessoas e não fica com aquele discurso ameaçando com as penas do inferno os que não conseguem sair da bronca.

 

-Ameaçar quem já está no inferno do álcool e das drogas com as penas do sofrimento no inferno não faz nenhum sentido….. disse ele.

 

Rasgar as cartas dos pastores significou claramente que tenho que resgatar a minha dignidade, a auto estima a seco, sem anestesia e sem discursos dos “pastores”….

 

É eu comigo mesmo!

 

E o último detalhe: a frase que li em uma das cartas: “eu brasilianíssimo cidadão suíço”.

 

Sei onde li esta frase, ou algo parecido.

 

Nas correspondências de Peter Lund.

 

Lund foi um estudioso e pesquisador de campo. Viveu e morreu em Lagoa santa ( MG) e passou a vida toda buscando catalogar fósseis…

 

Ele não era suíço. Era dinamarquês…escrevi sobre ele no texto  “No rasto do povo de Luzia”, publicado no Alquimista número 1.

 

Acredito que meu inconsciente na busca por uma linguagem que eu possa decifrar, me diz: use LUND como exemplo, como paradigma.

 

Sou um excelente pesquisador de campo. Não há lugar nesta Gleba Monjolo que não tenha colocado os pés….coletando pedras e fósseis…..mas chego no escritório, jogo tudo dentro de caixas de sapatos e vou para o bar beber….esqueço de catalogar o que encontrei….e tudo acaba se perdendo.

 

O segundo sonho é bem explícito: se vou montar um viveiro, que então plante as mudas com todo cuidado e técnica que se exige.

 

Bom.

 

O calor do sol está bem mais ameno….fiz as estacas para delimitar a área do viveiro…vou levá-las para o local e trazer a foice, que deixei por lá….amanhã faço os 12 buracos para os palanques do viveiro.

 

José Orlando Muraro, advogado e morador de Chapada dos Guimarães, é editor do jornal Pluriverso Chapadense

 

Categorias:A vida como ela é

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