DEBATE IDEOLÓGICO: Rafael Costa contra Johnny Marcus

Johnny Marcus e Rafael Costa, jornalista em Cuiabá que divergem quanto à atuação do PT e dos petistas no atual cenário brasileiro

Johnny Marcus e Rafael Costa, jornalista em Cuiabá que divergem quanto a diversos aspectos que marcam a atuação do PT e dos petistas no atual cenário brasileiro

 

O petismo e a revisão da história

RAFAEL COSTA

“Nada muda mais do que o passado”. A frase atribuída ao ex-imperador da França, Napoleão Bonaparte, nos leva avaliar que o conteúdo histórico, a priori considerado intocável para análise do cidadão, está sujeita a mudanças para atender a conveniências políticas do presente e porque não obscuros e nada republicanos.

Nos últimos dias, incrédulo, acompanhei a manifestação nas redes sociais e veículos de comunicação de militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) a respeito do ex-governador e presidenciável, Eduardo Campos (PSB), e a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (PSB).

A partir daí, avalio que, se a história do Brasil não mudou conforme tantos petistas desejavam, as tentativas de mudá-la foram persistentes e ainda permanecem constantes.

Em primeiro lugar, se percebe o empenho em desqualificar a legítima e democrática ação de Eduardo Campos em postular a Presidência da República, antes mesmo do trágico acidente aéreo que o vitimou, pelo simples fato de um dia ter sido aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que lhe rendeu rótulos de “oportunista”, “mau caráter”, e “playboy que se beneficiou com a esquerda e agora atenderá interesses da direita”.

De repente, Marina Silva, virou alvo de deboche, classificada de “fundamentalista”, “radical”, “aproveitadora de situação” e daí por diante.

Críticas que se potencializaram com a divulgação na segunda-feira (18) pela Datafolha da possibilidade de sua vitória interrompendo o ciclo de gestão do petismo no governo federal.

Muitas das críticas pesadas e sem fundamento oriundas do petismo é o que se pode classificar de “tentativa forçada de revisionismo histórico”.

No ambiente acadêmico, a revisão da história é uma prática legítima em meio a descoberta de fatos novos ou documentos inéditos que possam acrescentar conteúdo para tornar o episódio do passado mais original.

Na política, a revisão da história costuma funcionar como uma falsificação grosseira, independente de partir de grupos da esquerda ou direita, como a negação da falta de liberdade de expressão e pensamento ao regime político de Cuba ou a negação do Holocausto praticado pelos nazistas e fascistas, respectivamente.

No respeitável currículo político de Eduardo Campos, consta como ministro da Ciência e Tecnologia, a articulação e aprovação do programa de biossegurança, o que permitiu a utilização de células-tronco embrionárias para fins de pesquisa e de transgênicos.

Graças a sua habilidade política, também conseguiu unanimidade no Congresso Nacional para aprovação da Lei de Inovação Tecnológica, o que culminou no marco regulatório entre empresas, universidades e instituições de pesquisa. Outra ação importante foi a criação da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, considerada a maior olimpíada de Matemática do Mundo em número de participantes.

Uma rápida análise em relação ao desempenho de Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente se identifica o reconhecimento internacional pelas suas ações de proteção à floresta amazônica e pela criação do Programa de Áreas Protegidas da Amazônia Regional.

O que se percebe nesta ação orquestrada pelo PT e seus militantes é transformar figuras importantes para a consolidação de políticas públicas e autores de projetos eficazes ao Brasil, em meras figuras decorativas e irrelevantes em um processo eleitoral.

É totalmente legítimo numa democracia a defesa dos interesses políticos partidários, o que é abominável é que isto seja feito na base da destruição da imagem alheia, com falsificações, deformações e mentiras rudimentares, pelo simples fato de que o adversário não compactue com determinado projeto e ideal político, o que por si só já deve eliminar o debate de ideias.

Não seria o caso de pensar, então, que o PT e seus militantes significa uma ameaça a conservação do Estado democrático de Direito por acreditar que numa democracia o pensamento deve ser unicamente a seu favor?

Confundir o cidadão em busca de informações dos fatos e patrocinar a desqualificação alheia é uma forma ilegítima de alterar a história.

E é necessário reconhecer que os presidentes do Brasil, eleitos pelo voto popular, tiveram seus erros e acertos e contribuíram, cada um com suas parcelas, para gerar avanços neste país.

Fernando Collor de Mello, que sofreu impeachment do Congresso Nacional, foi responsável pela abertura da economia, estimulando a indústria tornar-se mais competitiva.
Seu sucessor, Itamar Franco, participou da elaboração do Plano Real, com Fernando Henrique Cardoso colocando fim a temível inflação e reestruturando as finanças do governo federal. Se houve privatizações questionáveis como a da Vale do Rio Doce, não há o que se contestar em relação ao setor de telecomunicações.

Lula foi importante na geração de empregos e distribuição de renda, embora não tenha explorado a alta aprovação e popularidade para conduzir aprovação de reformas sociais no Congresso Nacional.

Vale lembrar ainda de ex-ministros de Estado, como Paulo Renato de Souza, responsável pela implantação do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), e José Serra, em sua incansável luta pelos medicamentos genéricos, o que permitiu ao cidadão de baixa renda ter facilitado o seu caminho para muitos tratamentos médicos.

Mas, o que se percebe do PT é uma tentativa forçada de avocar para si todos os feitos positivos alcançados pela República brasileira nos últimos anos, o que inclui automaticamente deformar a história. Nisso, inclui tratar políticos criminosos punidos pela mais alta corte do Judiciário, o Supremo Tribunal Federal (STF), de guerreiros, heróis nacionais e vítimas de injustiça.

E ainda busca a qualquer custo apagar de sua história que uma das primeiras medidas de Luiz Inácio Lula da Silva ao ser empossado presidente da República, em 2003, foi a nomeação de um deputado federal eleito naquela ocasião pelo PSDB de Goiás, Henrique Meirelles, para assumir a presidência do Banco Central.

Não cabe a este jornalista que vos escreve influenciar o eleitor a votar em candidato A ou B, mas, como cidadão opinar que não há nada pior para um país democrático e a um povo de memória curta, que um partido e seus militantes aparelhados no poder estejam engajados em manipular a história, de modo a jogar uma sombra sobre seus equívocos e ser intolerante a construção de projetos políticos alheios e seus respectivos êxitos.

Antes de ser atacado por petistas, quero admitir que votei em Lula, aos 17 anos, nas eleições de 2002 e pela sua reeleição em 2006.

Movido pela esperança de aprovação de reformas, meu singelo voto se somou a maioria dos brasileiros, para eleger Dilma Rousseff a primeira mulher a assumir a presidência do Brasil, o que não se repetirá em 2014 por motivos que tornaria este artigo bastante cansável.

Com o PT aparelhado e disposto a manipular tudo ao seu redor em benefício do continuísmo no poder, acredito que os brasileiros devem se alertar para outra afirmação atribuída a Napoleão Bonaparte. “A história é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo”.

Rafael Costa é jornalista e repórter no jornal Folha do Estado e do site Folhamax

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CHAMEM O SÍNDICO
Por Johnny Marcus

Certa vez o ex-presidente Lula declarou que não lia jornais para não ter azia. Não chego a esse extremo, mas também não cultivo o hábito com muita frequência. A imprensa brasileira talvez seja a única no mundo que faz o que quer e não dá satisfação a ninguém. Vide a tentativa da criação de um conselho federal de comunicação. Qualquer iniciativa do governo de se criar um sistema regulatório é logo taxada como “censura”, atentado contra a liberdade de expressão ou qualquer coisa que o valha.

Interessante constatar que para a grande imprensa brasileira liberdade de expressão significa, na verdade, liberdade de difamação. Ou seja, sob a égide do direito de informar e fiscalizar o poder público, ela pode distorcer os fatos usando de métodos nada republicanos. Dispensável lembrar os anos a fio em que o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira foi o editor da revista Veja. Ou de quando a Folha de S. Paulo publicou na primeira página uma ficha falsa do Dops de Dilma Rousseff. Ou quando a Rede Globo retirou de seus telejornais qualquer menção sobre as Diretas Já.

Não é preciso entender muito de jornalismo para perceber a perseguição implacável da grande imprensa brasileira contra o Partido dos Trabalhadores. Chamo de perseguição porque qualquer notícia, por mais insignificante que seja – basta ser contra o PT – ganha a capa da Veja da sexta-feira, vira matéria principal do Jornal Nacional no sábado a noite e primeira página da Folha de S. Paulo no domingo.

Claro que por ser governo, o PT é vidraça. Porém, nessa cruzada fundamentalista, todos os princípios do bom jornalismo são deixados de lado. Matérias inteiras são escritas sem nenhuma declaração. Repito: nenhuma declaração – de ninguém. Essas pseudo-reportagens não passam de editoriais.

Não, eu não estou tentando tapar o sol com a peneira. O PT errou. E errou muito. Contudo, os culpados foram julgados em rede nacional de TV e estão presos. Nem vou entrar no mérito de o processo da Ação Penal 470, ou Mensalão, ser uma verdadeira colcha de retalhos. Com a palavra os juristas de plantão.

Ainda que com todas suas idiossincrasias e vícios, o PT é a única agremiação brasileira que mais se aproxima de um partido político. Apesar de todo o rancor contra, ele chegou ao poder pela força do voto, força que os partidos oposicionistas já demonstraram que não têm. A manipulação da informação é só uma das tentativas desesperadas de se evitar mais quatro anos de governo petista.

Às vésperas do início da propaganda no rádio e televisão, o quadro sucessório aponta que dificilmente Dilma perde a Presidência. Com a morte do “socialista” Eduardo Campos, aliado histórico do Partido dos Trabalhadores, e com a apatia de Aécio Neves, Marina Silva – outra petista de carteirinha – transforma-se na tábua de salvação para a oposição. Não que a direita e as elites confiem cegamente nela, mas como diz o ditado, “qualquer porto em uma tempestade”. Ou seja, se é para tirar o PT do poder, qualquer um serve.

Semana passada, quando os restos mortais de Eduardo Campos ainda nem haviam sido encontrados, o Datafolha já estava em campo. Por aquela pesquisa eleitoral, Marina teria condições não só de levar as eleições para o segundo turno, como também de vencê-la. Divertido notar que essas pesquisas nunca são exploradas na primeira página tendo como referência o número de votos válidos – os que realmente decidem a eleição.

Na qualidade de jornalista não-praticante, assisto com certa amargura essa briga de foice no escuro entre as chamadas imprensa governista e oposicionista. Se me dá nó nas tripas ler Reinaldo Azevedo, o mesmo acontece quando leio Paulo Henrique Amorim. Em nível local, nas redes sociais, pessoas que até outro dia só compartilhavam vídeos de gosto duvidoso ou viviam batendo boca por causa de futebol, repentinamente se descobriram analistas políticos de primeira.

Isso é bom. Melhor até, é ótimo. Pena que vivam a repetir os mantras da ala mais reacionária do jornalismo brasileiro. Cômico se não fosse trágico, no fim das contas vale a máxima do síndico Tim Maia: “O Brasil é um país que não pode dar certo mesmo. Aqui traficante é viciado; cafetão tem ciúme, prostituta se apaixona e pobre é de direita”.

JOHNNY MARCUS é jornalista, radialista e professor

5 Comentários

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  1. - IP 187.113.47.238 - Responder

    Qualquer oposição que se faça ao PT, a sua militôncia sempre vai reagir acusando uma manipulação, porque para essa turma não deve existir oposição ao partido.;

  2. - IP 177.1.91.205 - Responder

    MÍDIA CUIABANA:

    – QUANDO UMA GANG DE SERVIDORES FEDERAIS SÃO PEGOS ROUBANDO…”O PT É LADRÃO” (MESMO QUE SEJA EM ÓRGÃO, MINISTÉRIO OU AUTARQUIA COMANDADA POR OUTRO PARTIDO)
    – QUANDO UMA GANG DE SERVIDORES ESTADUAIS SÃO PEGOS COM A MÃO NA ”MASSA” ASSALTANDO O ERÁRIO ESTADUAL, MESMO QUE SOB O COMANDO DOS CHEFES DAS ”FAMÍLIAS” LOCAIS…NINGUÉM DIZ QUE O PSDB OU PSD OU PMDB OU PR É LADRÃO…
    – EM MT OS CHEFES DA MÁFIA ROUBARAM ATÉ O PT….PT AQUI NUNCA EXISTIU DE FATO…FOI INFILTRADO E DEPOIS COMPRADO…
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

  3. - IP 177.202.40.138 - Responder

    Parabéns Johnny. Acho que vc deve praticar mais o ofício de jornalista para que possamos deleitar-se com os seus artigos e reportagens. O MIno Carta tem razão: “O Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega”. Como essa moçada muda de opinião e bem rápido….

  4. - IP 177.193.178.8 - Responder

    Isso é debate ideológico?

  5. - IP 201.86.178.134 - Responder

    Parabéns Rafael Costa pela verdadeiras e lucidas palavras!!!! Abaixo os Ptralhas ladrão, chega de corrupcao aqui no Brasil, chega roubalheira!!!

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