DEBATE CULTURAL – Para Euler Belém, crítico literário Roberto Schwarz se comporta como “policial cultural” ao fazer restrições à Tropicália de Caetano Veloso

Roberto Schwarz e Caetano Veloso: o Tropicalismo segue dando motivo

Caetano Veloso nocauteia Roberto Schwarz

Euler de França Belém
jornal OPÇÃO, de Goiânia

Usando a estética para mascarar o discurso ideológico, o crítico literário Roberto Schwarz diz que a Tropicália recontada por Caetano Veloso perdeu energia. Na verdade, ao nuançá-la, o artista ampliou sua percepção crítica, retirando-a do “controle” da esquerda

O professor aposentado da Univer­si­dade de São Paulo Roberto Schwarz, dublê de crítico literário e sociólogo-pensador, é uma espécie de guia genial dos leitores de literatura e, agora, daqueles que ouvem música. No seu livro “Martinha Versus Lucrécia — Ensaios e Entrevistas” (Com­panhia das Letras, 318 páginas), especificamente no ensaio “Verdade Tropical: Um Percurso do Nosso Tempo”, Schwarz analisa o livro “Ver­dade Tropical”, do cantor, compositor e escritor Caetano Ve­loso, e ensina o leitor, além do artista, a se portar e se comportar politicamente. O livro tem provocado debate na “Folha de S. Paulo” e mereceu duas resenhas provocativas e apropriadas na revista “Veja”, do poeta, crítico e tradutor Nelson As­cher, e em “O Estado de S. Paulo”, do crítico literário e professor João Cezar de Castro Rocha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Comecemos pela entrevista de Caetano à “Folha S. Paulo” (domingo, 15), na qual rebate as ideias, quase censuras, de Sch­warz. Na apresentação da entrevista, o editor da “Ilus­tríssima”, Paulo Werneck, sintetiza a crítica do doutor em Machado de Assis. “O ensaio ‘reconta’ criticamente a narrativa [do livro de Caetano, ‘Verdade Tropical’], transformando-a na história da conversão de um ‘menino portador de inquietação’ de província a um ‘novo Caetano’, que ‘festejou a derrocada da esquerda como um momento de libertação’. (…) Schwarz critica seu ‘traço de personalidade muito à vontade no atrito mas avesso ao antagonismo’, as ‘ambivalências’ do tropicalismo, o ‘patriotismo fantasioso’ e ‘supersticioso’ do compositor, sua ‘defesa do mercado’, seu ‘confusionismo’, sua ‘cumplicidade’ com os agentes que o prenderam. Em sua interpretação, o ensaísta afirma que ‘Verdade Tropical’ compartilha os pontos de vista e o discurso dos vencedores da ditadura’. Em outro momento, recrimina o ‘regressivo’ ‘amor aos homens da ditadura’ que Caetano e [Gilberto] Gil expressaram”.

“Verdade Tropical” foi publicado há 15 anos e é um dos raros momentos em que um artista popular reflete a sério e de modo consistente sobre cultura, sobretudo de um período histórico conturbado, e um estilo de música. Cae­tano faz uma observação que merecia desdobramento, mas o entrevistador parece não ter percebido sua importância: “Não coincido com o grosso da crítica ideológica”… de Schwarz. Se a “Folha” não quis, ou não pôde, fazer o reparo, Ascher ampliou com precisão a frase sucinta, na resenha “O crítico justiceiro” (“Veja”, quarta-feira, 2): “Schwarz e seus amigos se consideram um pouco os donos do golpe militar de 1964, não como seus responsáveis, é claro, mas como seus intérpretes autorizados. Qualquer outra maneira, por mais despretensiosa que seja, de falar sobre o assunto é necessariamente herética e está sempre a um passo de ser acusada ou de leniente com a ditadura, ou até de sua cúmplice. Aliás, em meio a elogios superficiais, é isso que o ensaio dá a entender sobre Caetano, quando diz que ‘o memorialista compartilha os pontos de vista e o discurso dos vencedores da Guerra Fria’, capitulando ao ‘horizonte rebaixado e inglório do capital vitorioso’. Vislumbra-se ali o que sempre subjaz a esse tipo de crítica ‘dialética’, ou melhor, ideológica: não um juízo literário, mas uma condenação penal que, só pela sorte de o acusado viver numa democracia, não se converte em sentença e punição” (a crítica de Ascher à interpretação que Schwarz faz à obra de Machado de Assis, explicitando como o autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” critica ou “pensa” a realidade de seu tempo, mas empobrecendo, de certo modo, sua literatura, merece um texto à parte, mas não é o nosso foco).

No artigo “Memórias oblíquas de um intelectual” (“Estadão”, sábado, 28), João Cezar de Castro Rocha afirma que, “na leitura de ‘Verdade Tropical’, Schwarz parece oscilar entre o estudo do texto — que julga notável — e a avaliação do comportamento político do autor, que ele considera autoindulgente e condenável. Há, portanto, um desequilíbrio estrutural no ensaio. O olhar do crítico é, por assim dizer, estrábico: nem sempre trata do mesmo objeto, embora escreva sobre o ‘mesmo’ livro. O estrabismo crítico pode ser produtivo, mas somente se o analista problematizar a dualidade de sua perspectiva”.

João Cezar percebe, com nitidez, a forma de operar do crítico Schwarz: “Por vezes, trata-se do cidadão Roberto Schwarz, avaliando as posições do compositor a partir de um contraponto nunca explicitado — o de suas convicções políticas”.

Para João Cezar, “é como se a complacência identificada na narrativa do músico ironicamente se voltasse contra o crítico”. Ao final de sua resenha, o crítico sugere a Schwarz: “Ora, por que não imaginar a escrita de um novo ensaio, no qual o crítico reconheceria que sua análise da autobiografia de Caetano também é um exercício autobiográfico?” João Cezar diz que a sugestão não é “impertinente”, e não é mesmo. Mas, se fizer o que propõe o professor da Uerj, Schwarz terá de explicitar que sua crítica usa a estética para esconder a ideologia — a estética às vezes é o valhacouto da crítica ideológica mais refinada —, o “bom caminho” que Caetano deveria trilhar, o da crítica corrosiva ao sistema capitalista e à ditadura civil-militar e a defesa radicalizada da esquerda.

Caetano diz, na entrevista, que ele, Gilberto Gil, Tom Zé e Rogério Duprat, artífices do tropicalismo, tinham afinidades com a esquerda. “Na altura do tropicalismo deu-se uma virada em mim, e também em Gil, pelo menos, que exigia repensar tudo por conta própria, desfazendo adesões automáticas. O maior inimigo era esse automatismo.” Uma interpretação mais livre da realidade, sem adesão incondicional à ortodoxia da esquerda, não é o mesmo que, como quer Schwarz, “adesão” à direita. O que Caetano sugere, com cuidado e precisão, é que, a partir de certo momento, “desistiu” de ser “papagaio” do pensamento da esquerda.

Werneck afirma que o en­saio de Schwarz atribui a Cae­tano “uma ‘generalização para a es­querda do nacionalismo superficial dos estudantes que o vaiavam’ (num festival de música) e a visão da ‘esquerda como obstáculo à inteligência’”. Sch­warz faz a leitura não do que há, do que está escrito, e sim do que tem em mente quanto faz sua crítica. Trata-se do velho parti-pris ideológico. O que Caetano critica e tem criticado há algum tempo é a limitação intelectual de certa esquerda — mais por má-fé do que por tolice —, que sacrifica o debate, a apresentação dos fatos, para construir uma realidade favorável aos seus argumentos. “Toda cartilha ideológica pode ser — e frequentemente é — obstáculo à inteligência”, frisa Caetano. A palavra “toda” não exclui, naturalmente, o radicalismo ideológico de direita. O que Schwarz pretende, com certa sutileza, pois usa palavras contemporizadoras, é insinuar que, ao deixar o campo da esquerda, Caetano migrou, direta ou indiretamente, para a direita. Como se não fosse possível, e é, permanecer de esquerda, mas crítico da esquerda, como o filósofo Ruy Fausto e o historiador Tony Judt (falecido recentemente). A tese é prosaica: quem não me apoia é meu adversário e, até, inimigo político. “Hoje em dia, quando Delfim é defensor de Lula e [da presidente] Dilma [Rousseff] e se opõe a FH, gos­to da revista ‘Fevereiro’, de Ruy Fausto, e detesto blogs como o de Paulo Henrique Amorim”, ironiza Caetano. Com mestria, com palavras mais sutis do que explícitas, o artista e escritor está dizendo que quem migrou para uma posição “estranha”, ao lado do economista Delfim Netto, e poderia ter acrescentado os senadores José Sarney, Renan Calheiros e Fernando Collor — a vanguarda do atraso do oportunismo político, como diria Karl Marx —, foi a esquerda. E que não deixou de ser esquerda ao conciliar-se com as elites mais retrógradas de alguns Estados do país — numa espécie de pacto faustiano. As elites reacionárias ficam com o poder nas províncias, onde não são questionadas — note-se que Lula está pressionando o PT de várias regiões, como a Paraíba, para apoiar candidatos do PMDB —, e o lulopetismo assenhora-se do poder federal, altamente concentrador de recursos e, portanto, hegemônico politicamente.

Uma resposta de Caetano provocou a ira de Schwarz, que “pe­diu” direito de resposta à “Folha”: “Sempre me pergunto por que Roberto Schwarz ou Marilena Chaui nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte (não vale dizer que a ‘grande im­prensa já diz’). Por que Lula e Tarso Genro mandaram de volta, num avião venezuelano, os atletas cubanos que tinham pedido asilo político ao Brasil? Isso é admissível? Ninguém na esquerda reclama de nada disso”. As perguntas não sugerem, em nada, que Caetano se tornou integrante ou cúmplice da direita. A pauta tem a ver mais com direitos humanos, uma bandeira que deveria ser comum a esquerda, ao centro e a direita. Uma esquerda democrática, se isto não for ficção, tem como apoiar a Coreia do Norte e Cuba?

Outro comentário de Caetano tirou o guia genial Schwarz do sério, porque criticou um de seus ídolos, o lamuriento (como destaca Ascher) Theodor W. Adorno. “Os esforços intelectuais de Adorno para igualar a vida americana ao Terceiro Reich e à União Soviética só servem para provar repetidas vezes que as liberdades nas democracias liberais são suspeitas: a ostensiva falta de liberdade em países comunistas nunca é combatida, nem eloquentemente, nem cedo”, afirma Caetano. Não deixa de ser divertido que um artista popular, ainda que com formação intelectual adequada, seja responsável por abrir os olhos (intencionalmente) míopes de um scholar da USP. “É interessante notar que Zizek elogia o imperialismo chinês no Tibete e desculpa as paradas fascistas da Coreia do Norte. Nossos elegantes uspianos nada dizem”, acrescenta Caetano. Zizek é a nova moda acadêmica de esquerda. O novo guru.

Na sua entrevista-réplica (do­mingo, 22), concedida a Flávio Moura, colaborador da “Folha”, Schwarz tergiversa, mas apontando que a distorção é de seu oponente: “Em vez de comentar o meu artigo, Caetano falou da Coreia do Norte, da União Soviética, de Cuba, da USP, da esquerda obtusa, de Mangabeira Unger. Parece piada. (…) É cortina de fumaça para não falar de meu livro”. Não é piada, claro, e o uso da palavra é apenas uma forma de tentar desqualificar Caetano. Afinal, por que, ao se defender de uma crítica ideológica, de um policiamento mais político do que literário, de um jdanovismo ligeiramente requintado e requentado, Caetano não pode falar de assuntos correlatos, ou seja, não pode cobrar de Schwarz o que este cobra dele: “rigor” ideológico e “pureza” esquerdista (no sentido de não comungar com o totalitarismo; aliás, os socialistas frequentemente criticam o totalitarismo de direita, mas “esquecem” de “vituperar” o de esquerda)?

Ao ser pego em flagrante, Schwarz se “revisa”: “Não escrevi para pegar em Caetano o rótulo de direitista, e muito menos de esquerdista, mas de herói representativo e problemático. (…) Como crítico literário, sou sensível à força estética do livro. No caso, fazem parte inseparável dela as atitudes mais controvertidas do autor, tais como a autoindulgência desmedida, o confusionismo calculado e os momentos de complacência com a ditadura (os militares tomaram o poder ‘executando um gesto exigido pela necessidade de perpetuar essas desigualdades que têm se mostrado o único modo de a economia brasileira funcionar’), o que não exclui a simpatia pela guerrilha”. As palavras de Caetano são mesmo complacência? Podem até ser. Mas onde está o apoio explícito à ditadura? Ao contrário, no livro, não há nenhum apoio à ditadura. Ou é possível negar que, no governo Médici, um dos piores momentos da ditadura, a economia brasileira teve um “crescimento chinês”? Schwarz deixa a impressão, e friso que se trata de impressão, de que tinha uma tese e saiu em busca de um trecho, em todo o livro, para justificá-la. A tese do “herói representativo e problemático” decerto já estava na cabeça de Schwarz antes mesmo de examinar “Verdade Tropical” e o próprio artista.

O que dizer de um escritor como Henry James, o mestre da ambiguidade, no dizer de Modesto Carone, especialista em Kafka e companheiro de Schwarz na USP? A se aceitar a tese de Schwarz, se ela for transformada em camisa de força para interpretar todo e qualquer criador, pode-se dizer que o escritor americano era um “herói problemático”. Ah, James “não” era um escritor político. Há algum criador que, no fundo, escape inteiramente à política? Cita-se o autor de “A Volta do Parafuso” devido ao que se vai ler a seguir, as anotações de Schwarz (enviadas à “Folha” por e-mail): “‘Verdade Tropical’ deve muito de seu interesse literário a certa desfaçatez camaleônica em que Caetano, o seu narrador, é mestre. Penso não forçar a mão dizendo que a representatividade histórica do livro passa por aí. E o seu caráter problemático também, já que o quase romance não deixa de ser um depoimento”. Ora, se apresenta o livro de Caetano como “quase romance”, o crítico não teria de aceitar sua “desfaçatez camaleônica”? Schwarz é um dos mais sérios estudiosos brasileiros — a despeito de transformar a literatura de Machado de Assis em sociologia, em resposta literária aos acontecimentos, quase desfigurando o escritor, o senhor da linguagem —, e quase sempre é lúcido. Mas sua interpretação do trabalho de Caetano não é redutora, não é limitadora? Ao puxar a ideologia para o centro do debate, ao avaliar que há um caminho “reto” (o da esquerda) e um caminho “torto” (o da direita), o brilhante Schwarz não está empobrecendo o objeto examinado e sua própria interpretação? Quero dizer que ideologias devem ser ignoradas quando se examina um livro de memórias ou mesmo de literatura? Não. Estou sugerindo que se trata de um aspecto, às vezes central, às vezes não.

Quando a Tropicália era um desafio direto à ditadura, quando suas nuances críticas não eram perceptíveis — porque o combate aos militares era essencial e mais visível —, merecia todos os elogios possíveis da esquerda. Quando as fissuras se tornaram aparentes, e as críticas dos artistas passaram a ser notadas como mais amplas, inclusive como crítica do comportamento em geral, tornaram-se incômodas e não mais aceitáveis a certa esquerda. As palavras de Schwarz: “A Tropicália do fim dos anos 60 debochava — valentemente — do Brasil pós-golpe, quando a ditadura buscava conjugar a modernização capitalista ao universo retrógrado de ‘tradição, família e propriedade’. A fórmula artística dos tropicalistas, muito bem achada, que juntava formas supermodernas e internacionais a matérias ligadas ao atraso do país patriarcal, era uma paródia desse impasse. Ela alegorizava a incapacidade do Brasil de se modernizar de maneira socialmente coerente”. A Tropicália percebida por Schwarz é uma Tropicália domesticada… pela esquerda. Estava a serviço de uma causa. Entretanto, ao contar sua história, Caetano pôde explorar suas contradições e exibir uma crítica mais aberta e contundente não apenas à ditadura. O que Schwarz está sugerindo é que a Tropicália, a contada por Caetano, não serve mais, pelo menos como contestatária. Insiste Schwarz: “Era uma visão crítica, bastante desesperada, de muito interesse artístico, à qual se misturava certa euforia com a nova indústria cultural, que estava nascendo. Ao retomar o assunto em 1997, nos anos FHC, Caetano atenuou o anterior aspecto negativo ou crítico e deu mais realce ao encanto dos absurdos sociais brasileiros, tão ‘nossos’. Um tropicalismo quase ufanista e algo edificante”. Será? Sim, se a interpretação, sobretudo a ideologizada, for mesmo mais importante do que a arte. Schwarz fica aquém do seu interpretado, inclusive no debate.

Categorias:Quebra Torto

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