TITANIC: Caso Cachoeira é pior que Mensalão

Caso Cachoeira é pior do que o mensalão

Elder Dias
jornal OPÇÃO, Goiânia

Em esclarecedora entrevista ao Jornal Opção, publicada na semana passada, o procurador federal Helio Telho tocou vários itens cruciais, que afetam, mais do que o mundo político, toda a sociedade brasileira. A sabatina de 50 minutos se tornou uma conversa aberta sobre as grandes mazelas da Nação, a partir de um ponto de partida: o de que o escândalo que tem como protagonista Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e do qual o objetivo da Operação Monte Carlo — desmantelar um esquema de exploração ilegal de jogos — foi apenas um cubo de gelo, desses de uísque, diante de um iceberg. Um estopim de uma bomba de potência ainda não mensurada totalmente, mas que já fez suas vítimas.

Helio Telho falou do caso Cachoeira, de jogos clandestinos, de financiamento privado, de favores políticos, de caixa 2, do mensalão, da Lei da Ficha Limpa. Mostrou didaticamente, com ótimos exemplos, as entranhas de um sistema corrompido que apodrece todo o País e do qual ficou íntimo por 20 anos de atuação em várias esferas do Ministério Público. Enfim, uma entrevista que merece ser lida e relida.

Ao fim daqueles minutos, uma impressão: a de que estamos fazendo um País errado. Sim, estamos progredindo economicamente — embora a passos de tartaruga, tendo em vista as potencialidades que o Brasil tem. Mas, ao mesmo tempo, sofremos um grave retrocesso em valores. Como sociedade, a Nação está sendo devorada, carcomida. É um processo de implosão moral, do qual a figura do senador Demóstenes Torres — parlamentar ético nos holofotes, ajudante de contraventor nos bastidores — surge como parâmetro e que deságua em problemas como a banalização da epidemia de crack, a violência crescente, a intolerância e o desrespeito à vida em suas mais variadas formas.

Pois desde a prisão de Carlos Cachoeira, o que assistimos todo dia na TV, ouvimos pelo rádio e lemos no jornal ou na internet é o desnudamento de um esquema que, para servir à jogatina, ia aliciando e enredando as mais diversas pessoas e reputações. Talvez, em vez de cachoeira, a melhor imagem seria um dominó em que as pedras vão se derrubando. Até onde e quando vão continuar caindo as peças, ainda não se sabe.

Para expandir seu raio de ação, o “empresário” virou empresário, dono de indústria farmacêutica, a Vitapan. Com essa nova ocupação, buscou criar uma relação formal com o Estado. Tanto que, em entrevista à TV Anhanguera (Rede Globo), o governador Marconi Perillo admitiu ter recebido, em audiência, o empresário farmacêutico Carlos Ramos. Nada a ver com Carlinhos Cachoeira, o “empresário”, que, em uma “reunião festiva” na casa do senador Demóstenes, teria dito ao governador, segundo o próprio, que teria deixado a contravenção.

O laço de Cachoeira com as empresas formais, porém, segue além dos produtos farmacêuticos e volta a ter uma faceta obscura — como nos tempos da contravenção que ele assegurava ter deixado — com a descoberta de seu envolvimento com a construtora Delta, uma das maiores do País e cuja súbita ascensão ocorreu depois de ter o ex-ministro e ex-deputado José Dirceu como seu consultor. Dirceu é tido como o idealizador do mensalão, que seria uma nova versão do velho esquema de toma lá dá cá entre o Executivo e o Legislativo, simplificou Helio Te­lho. Em vez de emendas e cargos em ministérios e autarquias, os parlamentares vendidos se contentariam com uma mesada vinda do chefe do Executivo, estratégia que já foi usada (e alguém duvida que ainda é?) em várias prefeituras Brasil afora.

O mensalão deve entrar na pauta do Supremo Tribunal Federal ainda neste semestre. É um compromisso do novo presidente da instituição, o ministro Carlos Ayres Britto, que, para cumpri-lo, dispõe de sete meses, prazo que tem na corte até se aposentar. O maior escândalo do governo Lula é, porém, apenas o começo de um processo que se digne, com honestidade e transparência, a passar o Brasil a limpo.

Mais abrangente que o mensalão é o enredo do caso Cachoeira. Primeiramente, porque ele envolve muitas outras instituições além do Congresso Nacional; e, em segundo lugar mas com mais relevância que o fato inicial, porque o “empresário”–empresário não é o único a fazer uma rede de cooptação e corrupção de autoridades nos diversos poderes. Ou alguém duvida que haja outros esquemas paralelos, de menor, igual ou até maior porte do que o revelado pela Operação Monte Carlo?

Se o mensalão era um escândalo de corrupção restrita à política, o caso Cachoeira é uma história de corrupção institucional: vai muito além dos detentores de mandato, e abarca empresários, profissionais liberais de várias áreas de atuação, servidores públicos civis e militares, etc. Apesar de seu pé na contravenção “no passado” — como quis acreditar muita gente fina e importante —, o dinheiro de Cachoeira era dinheiro como qualquer outro, antes de o escândalo estourar. Até porque ninguém achava que fosse estourar escândalo algum — Demóstenes Torres e o chamado “Clube Nextel” que o digam.

Geralmente se pergunta de onde vêm as dívidas, mas ninguém que gosta de dinheiro costuma questionar a origem de algum montante que porventura lhe caia pela frente, da forma que apareça. Exemplos? Uma promoção estranhamente abaixo do valor de mercado, um negócio lucrativo com uma Avestruz Mas­ter da vida, a oferta de um bilhete premiado, uma empresa que vença licitações em sequência por um preço bem menor que o das concorrentes. Dessa maneira, investindo seu dinheiro em pessoas-chave, Carlinhos Cachoeira construiu seu império.

A CPMI do Cachoeira virou, ao mesmo tempo, um mal necessário e o único bem a ser feito ao País. Se ninguém a frear, teremos “mortos” e “feridos” em todos os campos ideológicos. Porque — outra coisa importante — não existe nenhuma ideologia livre de apego ao dinheiro. Se os partidos fecharem entre si um propósito e não uma negociata, podemos começar a corrigir este País errado, no qual até belezas naturais passaram a ser ironizadas. Cachoeiras, como as de Pirenópolis, e deltas, como o do Parnaíba, no Maranhão, que o digam.

Categorias:Jogo do Poder

2 Comentários

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  1. - IP 177.41.94.45 - Responder

    O que surpreendeu todo mundo foi à desenvoltura como a Cachoeira reinou em vários momentos políticos nos pais e de quebra montando dossiês falsos até para a policia Federal no caso Dirceu e o grampo do hotel em Brasília. E pior de tudo isso foi o envolvimento escandaloso com o senhor moral Dem-ostenes, ele o Demóstenes vivia abraçado a policia Federal arrotando moralidade, com cachoeiras de denuncias muito delas plantadas pelo grupo CC. Nesse bolo tem que abrir a investigação aos demais moralistas da mesma corrente, mas ai fica uma pergunta, quem vai investigar? Pois no momento ate o ministro do supremo é suspeito.

  2. - IP 177.41.94.45 - Responder

    O que surpreendeu todo mundo foi à desenvoltura como a Cachoeira reinou em vários momentos políticos no país e de quebra montando dossiês falsos até para a policia Federal no caso Dirceu e o grampo do hotel em Brasília. E pior de tudo isso foi o envolvimento escandaloso com o senhor moral Dem-ostenes, ele o Demóstenes vivia abraçado a policia Federal arrotando moralidade, com cachoeiras de denuncias muito delas plantadas pelo grupo CC. Nesse bolo tem que abrir a investigação aos demais moralistas da mesma corrente, mas ai fica uma pergunta, quem vai investigar? Pois no momento ate o ministro do supremo é suspeito.

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