CUIABÁ, 297: Neste 8 de abril de 2016, aniversário da capital mato-grossense, poetas, seresteiros, cantores e narradores falam de sua relação com esta terra agarrativa

Vera Capilé

Vera Capilé

 

A Cidade Verde inspira todos que aqui aportam

Neste aniversário da capital mato-grossense poetas, seresteiros, cantores e narradores falam de sua relação com esta terra agarrativa

JOÃO BOSQUO
Diário de Cuiabá

Cuiabá, daqui três anos, não será a mesma. Hoje Cuiabá é esta que nós todos conhecemos. Sabemos que a Cidade Verde, apesar dos pesares, é reconhecida com a capital verde por conta de suas mangueiras, seus ipês, seus cajueiros mas antes de tudo Cuiabá é conhecida, cantada e decantada em prosa e verso como a cidade que acolhe todos que aqui chegam: de avião, carro velho ou de ônibus.

Cuiabanos e cuiabanos falam desta Cuiabá. Os primeiros são os naturais, de chapa e cruz, e os segundos são os adotivos, ditos paus rodados, que pra cá vieram em busca ou realização de um sonho como é o caso do editor de livros Ramon Carlini, da Carlini & Caniato.

Ramon se confessa um ‘pau rodado’. Natural de Araçatuba, interior de São Paulo, veio para Cuiabá, há duas décadas “com o sonho de “cobrir” Mato Grosso com livros. “No segundo dia na cidade que era mais verde, sai para passear pelo centro Histórico e descobri um pouco da riqueza desta cidade, sua Cultura, sua História, sua gente… Naquele momento percebi que aqui seria o local ideal para garimpar originais para edição. E neste mesmo dia tive a oportunidade de comprar um livro de História de Mato Grosso, de autoria da professora Elizabeth Madureira, com quem hoje tenho a honra de trabalhar em importantes projetos editorias”, narra.

“Cuiabá me proporcionou a oportunidade de ter uma editora respeitada na sociedade. Além de conhecer um sem fim de escritores que se transformaram em grandes amigos. Hoje, me sinto mais cuiabano do que muitos cuiabanos”, comemora Ramon.

O nome Capilé tem horas que dá impressão que ele é sinônimo de cuiabano. Mato-grossense, sim; do Mato Grosso unido, mas a cantora e compositora Vera Capilé se vê, sente e vive Cuiabá, desde de menina, quando aqui chegou aos 11 anos de idade, e conta sua história de amor com cidade.

“Era mês de junho quase julho. Havia mudado pra Cuiabá em março. Ano de 1961. Vindo da escola pra casa, ali perto da Catedral (a linda Catedral que derrubaram), ouvi um som alegre, contagiante, era a bandinha que acompanhava a ‘esmola’ e a bandeira de São Benedito”, recorda

Vera Capilé avalia que “nunca tinha visto ou ouvido coisa mais linda. Acompanhei sem pestanejar, emocionada pelo som vibrante que saía dos instrumentos de sopros e da percussão. A bandeira a tremular e as senhoras acompanhando animadas. Só parei quando minhas irmãs me puxaram pela saia e disseram que mamãe estava esperando e iria zangar comigo se não chegasse no horário esperado”.

Vera Capilé conta que a magia desse encontro ficou guardada na memória afetiva da menina e anos mais tarde, em 1998, ao produzir o seu primeiro CD fez questão de gravar como ouviu naquele dia o Hino a São Benedito, do maestro João Marinho da Fonseca. O Hino se incorporou à sua vida e ao seu repertório.

O cantor e compositor tocantinense (ex-goiano), Luth Peixoto, diz que “ainda morava em Brasília quando me emocionei e me apaixonei por Cuiabá”.

“Eu estava vindo de um festival de música, em Tangará da Serra, entre 2000 e 2001, quando tive que parar aqui pra pernoitar e precisava ir numa agência bancária no outro dia. Acordei cedo e comecei a caminhar pelo centro e fui me encantando pelas vielas, becos, casarios, principalmente pela receptividade das pessoas. Nesse mesmo dia eu resolvi que aqui seria meu porto seguro, por perceber que aqui reunia todas as qualidades que eu precisava encontrar numa cidade, uma cidade que é uma capital e ao mesmo tempo respira ares provincianos, onde você consegue se relacionar com todas as tribos. Voltei pra Brasília e depois de sete meses eu já estava morando aqui. Aqui está minha fonte de inspiração para compor minha música e minha vida”, explica.

A poeta Lucinda Nogueira Persona, natural de Arapongas, Paraná, autora de “Por imenso gosto” (1995), “Ser cotidiano” (1998) e “Sopa Escaldante” (2001), entre outros, conta que uma das passagens de grande valor afetivo e perene de sua vida em Cuiabá, refere-se à sua trajetória literária.

“Desde que aqui aportei, senti-me atraída pelos aspectos históricos, pelo dossel verde e abundante e pelas edificações coloniais. Na Praça da República, grande parte do encanto ficou por conta das estátuas de bronze que lá estão. Tanto que, em 1993, dei voz à estátua do verão e escrevi uma crônica “Carta para Cuiabá”, concorrendo ao Prêmio Literário Fundação de Cultura e Turismo de Mato Grosso. Tive muita satisfação ao obter o primeiro lugar, porém, e sem dúvida, a grande emoção foi precisamente por ser aquele um momento de referência em minha viagem inicial no mundo das letras. Um momento que brotou da comunhão com a paisagem cuiabana”, diz a ativa poeta hoje cuiabana dos pés à poesia.

Aclyse de Mattos, que se auto define como poeta nas horas cheias e professor nas horas vagas, cuiabano de quatro costados, garante que suas lembranças de histórias com Cuiabá são muitas. “Meus livros de poesia falam muito disso: recordações, acontecimentos, vivências e experiências”.

“Para resumir tudo isso vou contar das comemorações dos 250 anos de Cuiabá, quando era um menino e a cidade viveu uma euforia muito grande: rasqueados, festas, cultura, história, a cidade era mais limpa, mais arborizada, as pessoas moravam em casas e tinham o hábito da sociabilidade, andava de bicicleta pelas ruas e a consertava na Motosblim de Névio Lotufo, ainda havia a velha Igreja Matriz e era muito bom tomar banho no Rio Coxipó. Depois, a cidade passou por duas grandes mutilações – a pressa do progresso destrutivo – ou como diz Marilia Beatriz, o Des-envolvimento – cujo símbolo é a implosão da Matriz; e a ganência política des-envolvimentista, cujo símbolo são as obras inacabadas da Copa que enfeiam a cidade como cicatrizes, feridas, rugas da nossa velhinha e maltratada Cuiabá 300-3”.

Cristina Campos, poeta, professora e acadêmica da AML, diz que “ Cuiabá é um presente de seu rio, homônimo. As pedreiras que impediam a navegação rumo às cabeceiras, no início da colonização, determinaram o porto e também a cidade”.

“Cresci em uma chácara, às margens do rio Coxipó, interagindo com a polaridade seca x cheia, acompanhando na pele o ciclo das águas que regula toda a vida na região. Além da lendária piscosidade de nossos rios, uma lembrança inesquecível de minha infância é que, durante a piracema, cardumes com milhares de peixes subiam o rio Coxipó. O som era impressionante, pois, nas partes rasas, eles nadavam de banda prateando, priscantes, a superfície das águas – um espetáculo de acrobacias inesquecíveis. Hoje, infelizmente, a poluição e o desmatamento envenenam e minam a força vital dessas águas encantadas, grávidas de lendas ancestrais”, comenta.

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