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CPI: Lula atirou no que viu e acertou no que não viu

Lula atirou no que viu e acertou no que não viu

Do Editorial do jornal OPÇÃO,de Goiânia

Ao incentivar a caçada aos negócios de Carlos Cachoeira, o ex-presidente Lula da Silva queria dinamitar as carreiras políticas do senador Demóstenes Torres e do governador Marconi Perillo. Paradoxalmente, com a entrada da Deltabrás no jogo, pode impedir a volta de José Dirceu à vida partidária e já está atingindo os governadores do Rio de Janeiro e do Distrito Federal

O Editorial desta semana é sobre a vida, sobre suas nuances e ambiguidades. A vida, como sabem todos, é escorregadia. A realidade, ou aquilo que se constrói como realidade, não é um terreno inteiramente sedimentado. A realidade é assim: pensa-se que se tem a compreensão precisa dos fatos e aí decide-se fazer a intervenção para mudá-la. Descobre-se, então, que a realidade exibida era tão-somente uma parte da vida, um recorte dos fatos e, daí, que a mudança pretendida às vezes não tem como ser processada. Iríamos citar agora o livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, mas decidimos, antes, explicitar uma posição. A onda moralista, que percebe a realidade apenas como tragédia (intransponível) e não como crise (crescimento, “Krísis”, em grego), sugere que aquele que reflete sobre a corrupção, indo além da condenação imediata, a aprova. Como notou William Skakespeare, há mais coisas entre o Céu e a Terra do que imagina nossa vã filosofia. O dramaturgo e poeta britânico escreveu, na peça “Henrique 8º”, que quando um cão de aldeia ladra todos os demais o acompanham — criando uma voz única. Mas os homens não são e não podem ser cães de aldeia. A voz dos homens não é unidimensional. Precisa ser plural, porque o mundo avança por intermédio do equilíbrio que resulta do conflito e do consenso, quer dizer, de posições divergentes. Chegou, pois, o momento de enfatizar uma questão. A corrupção no setor público tem de ser penalizada — doa a quem doer. O limite das coisas na democracia é sempre a lei. Se o senador Demóstenes Torres, deputados, prefeitos, empresários e auxiliares dos governadores Marconi Perillo (Goiás), Sérgio Cabral (Rio de Janeiro), Agnelo Queiroz (Distrito Federal) e Siqueira Campos (Tocantins) envolveram-se com a criminalidade devem ser denunciados e, se a Justiça avaliar como procedentes as acusações, devem ser condenados. O direito de defesa ampla deve ser assegurado e a Justiça deve seguir seus ritos normais, não os da imprensa, os de um grupo partidário ou os das ruas e das redes sociais (as ruas levadas para as casas). A Revolução Francesa desandou quando o governo de Robespierre, decerto atendendo ao clamor público, decidiu cortar as cabeças de alguns opositores e mesmo de aliados, como Danton. Quando o Judiciário se torna apêndice das ruas e da vontade dos homens que estão no Executivo, aderindo ao populismo e à ideologia, há risco para todos aqueles que pensam de modo independente. Esclarecido o ponto, consultemos Antonio Candido, sociólogo e crítico literário, e, sobretudo, Sérgio Buarque de Holanda. Se o leitor quiser “saltar” a parte teórica, digamos assim, não há problema algum. Adiante, a partir do oitavo parágrafo, terá o debate mais aceso sobre a política nacional.

O homem cordial

No prefácio de “Raízes do Brasil”, Antonio Candido, seguramente o maior crítico literário da história brasileira e uma espécie de Erich Auerbach dos trópicos, diz que o livro é “um clássico de nascença”. Por suas qualidades, a obra mereceria um registro maior, destacando-se seus pontos principais, mas vamos discutir, e brevemente, só a questão do “homem cordial”.

Há uma tendência a se elogiar o homem cordial, que seria uma definição do que é o brasileiro, mas Sérgio Buarque de Holanda tem sido citado erradamente. Antes de buscar sua própria interpretação, recolhamos a análise de Antonio Candido: “Formado nos quadros da estrutura familiar, o brasileiro recebeu o peso das ‘relações de simpatia’, que dificultam a incorporação normal a outros agrupamentos. Por isso, não acha agradáveis as relações impessoais, características do Estado, procurando reduzi-las ao padrão pessoal e afetivo. Onde pesa a família, sobretudo em seu molde tradicional, dificilmente se forma a sociedade urbana de tipo moderno”. É por isso, de alguma forma, que não avaliamos o nepotismo como “grave”.

Adiante, Antonio Candido esclarece: “O ‘homem cordial’ não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem aos ritualismos da polidez. O ‘homem cordial’ é visceralmente inadequado às relações impessoais que decorrem da posição e da função do indivíduo, e não da sua marca pessoal e familiar, das afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários. (…) Ao que se poderia chamar ‘mentalidade cordial’ estão ligados vários traços importantes, como a sociabilidade apenas aparente, que na verdade não se impõe ao indivíduo e não exerce efeito positivo na estruturação de uma ordem coletiva. Decorre deste fato o individualismo, que aparece aqui focalizado de outro ângulo e se manifesta como relutância em face da lei que o contrarie. Ligada a ele, a falta de capacidade para aplicar-se a um objetivo exterior”.

Passemos, agora, diretamente a Sérgio Buarque, deixando o comentador de lado. O capítulo 5 de “Raízes do Brasil” (Companhia das Letras, 220 páginas), “O homem cordial”, tem apenas 11 páginas e vale a pena o leitor consultá-lo, pois os clássicos dizem mais que suas interpretações. Escreve o historiador-pensador: “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade — daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informado no meio rural e patriarcal”. O complemento a seguir demole o que se compreende em geral por “homem cordial”: “Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.

Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo — ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças. (…) Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência — e isso se explica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espécie de mímica deliberada de manifestações que são espontâneas no ‘homem cordial’: é a forma natural e viva que se converteu em fórmula. Além disso, a polidez é, de algum modo, organização de defesa ante a sociedade. Detém-se na parte exterior, epidérmica do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções”.

Numa interpretação que mescla psicologia e antropologia como suporte da análise de um fenômeno histórico, Sérgio Buarque escreve: “No ‘homem cordial’, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros. Foi a esse tipo humano que se dirigiu Nietzsche, quando disse: ‘Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro’”.

Sérgio Buarque nota que somos avessos ao “ritualismo social” e que, até para fazer negócios, precisamos ser amigos, “estabelecer intimidade”, e com frequência “precisamos” usar diminutivos terminados em “inho” — tipo “queridinho”, “neguinho”, “Lulinha”. “A terminação ‘inho’, aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo. É a maneira de fazê-los mais acessíveis aos sentidos e também de aproximá-los do coração”. Há também a tendência de se omitir o “nome de família no tratamento social”. “O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade”, afirma o historiador.

Cachoeira e mensalão

Comece a ler o Editorial a partir daqui, se avaliar como chato os parágrafos anteriores. Note que usamos as ideias de um dos principais fundadores intelectuais do Partido dos Trabalhadores, Sérgio Bu­arque, para situar nossas raízes — fincadas fortemente na resistência do patrimonialismo e do patriarcalismo — e as ações da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula da Silva. Fernando Henrique Cardoso foi o “primeiro-ministro” do governo de Itamar Franco — quase repetindo o parlamentarismo no tempo do governo do presidente João Goulart e do primeiro-ministro Tancredo Neves (só que Jango queria ser FHC, e não Itamar). Lula tende a comportar-se, mesmo quando não é chamado por Dilma Rousseff, como se fosse primeiro-ministro e como se quisesse copiar FHC, seu ex-aliado e ex-rival. Lula é visto como o homem cordial, aquele que bebe uma pinguinha e adora comentar sobre futebol, enfim, o brasileiro típico. As relações do petista com os políticos nacionais, muitos oriundos de Estados em que a urbanização não criou novos valores e nos quais prevalece o “homem cordial”, infenso à disciplina das instituições e afeito ao patriarcalismo, são vistas como “perfeitas”. Eles são “entrosados”. Lula é apontado como “esperto”, “habilidoso”, pouco respeitador das leis, e essencialmente como o político de esquerda que entendeu que, para governar sem contestação intensa, sobretudo no Congresso Nacional, é preciso conciliar com os políticos-elites regionais — não importando suas ideologias, histórias pessoais e fichas policiais e judiciais. Até na avaliação de que as leis podem ser mudadas rapidamente, sem uma consulta ampla aos segmentos organizados da sociedade e aos seus representantes, os parlamentares, deputados federais e senadores, Lula mostra-se integrado ao comportamento das elites provinciais. Dilma Rousseff, embora seja aliada de Lula, é diferente do ex-presidente. Não é a “mulher cordial” e, até agora, tem jogado pelas regras legais e, tudo indica, não tem interesse em construir nenhuma sociedade totalitária — o que, vale acrescentar, Lula também não quer.

O petista-chefe é mais autoritário do que totalitário. Aqui e ali, porém, há laivos totalitários, mas Lula é democrata, uma espécie de democrata heterodoxo pouco analisado tanto por aliados quanto por seus críticos.

Neste Editorial, que examina Lula, supostamente furioso, e Dilma Rousseff, a estadista aparentemente moderada, vamos destacar alguns temas. Primeiro, o caso Cachoeira, a CPI do Cachoeira e o mensalão. Segundo, a tentativa de se fazer, a fórceps, uma reforma partidária, depois da qual não adiantará fazer nenhuma reforma política. Terceiro, como o PT “suja” todo mundo para, depois, tentar reunir o “partido da ética” ao “partido do social”. Quarto, o pacto da conciliação do PT com as elites estaduais mais arcaicas. Quinto, o uso da moral como instrumento político. Sexto, a tentativa de enfraquecer a imprensa.

Comecemos pela CPI do Cachoeira ou, como dizem os que fazem oposição ao PT, pela CPI da Delta Construções. Nos bastidores, os políticos chamam a construtora de “Deltabrás” ou “a Petrobrás das empreiteiras” — numa referência ao vultoso volume de obras (e serviços) que faz para os governos federal e estaduais e prefeituras, e aos seus estupendos ganhos financeiros. Nos oito anos do governo Lula, a empresa de Fernando Kavendish cresceu 1411% — uma história tão rara que deveria ir para o “Livro dos Recordes”. Em 2011, no governo de Dilma Rousseff, a Deltabrás faturou quase 1 bilhão de reais. Quando incentivou — não se sabe se “orientou” — a investigação para, supostamente, tentar destruir o senador Demóstenes Torres, o DEM, o partido-zumbi, e o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, Lula, como político inteligente e até brilhante, pensou possivelmente em alguns revezes, mas não em todos. Como pensar que o “tiro” dado em Demóstenes, Cachoeira e Marconi poderia acertar, mais do que a Deltabrás, aliados como os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e o petista-subchefe José Dirceu? Lula não sabia disso? Pelo contrário, é possível que sabia. Na semana passada, um petista disse ao Jornal Opção que, ao saber que José Dirceu poderia ser atingido, Lula teria dito: “Foda-se o Zé”. Não sabemos se o ex-presidente falou isto e é possível que não tenha falado. Mas a expressão grosseira, pela qual pedimos desculpas ao leitor pela transcrição inapropriada, reflete os fatos. Há uma disputa pela hegemonia no interior do PT. Em 2010, José Dirceu não queria a candidatura de Dilma Rousseff, mas Lula, com a caneta de presidente nas mãos, podendo contratar e demitir petistas recalcitrantes, bancou a neopetista, egressa do PDT de Leonel Brizola, e, no final, provando sua perspicácia política, estava certo mesmo. Em 2012, na disputa pela Prefeitura de São Paulo, José Dirceu tentou impor outro candidato, poderia até ser Marta Suplicy, mas Lula indicou outro petista, Fernando Haddad. Lula não tem mais a caneta, mas tem Dilma, sua caneta e trunfo. “Fiz Dilma e vou fazer Haddad”, pode dizer o confiante articulador. É possível que faça mesmo, pois o “velho” em São Paulo é José Serra, um desenvolvimentista que recusa-se a abrir espaço para novos correligionários, evitando a renovação tucana. O tucanato critica Lula, mas providencialmente esquece o onipresente e onipotente Serra. Então, se a CPI do Cachoeira e da Deltabrás fizer revelações profundas sobre os vínculos entre José Dirceu e a empresa poderá ser ruim para o consultor e líder petista, mas não para Dilma e Lula, que assumirão o controle do PT sem contestações. A Deltabrás, portanto, pode livrar o PT de José Dirceu — deixando o terreno livre para Lula, Dilma, Haddad e mais alguns escolhidos. (Consta que um dos objetivos de Lula é atrair o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para o PT, no rearranjo partidário que, depois da hecatombe, deverá ocorrer.) Quando José Dirceu contribuiu para “derrubar” Antônio Palocci, que estaria sendo preparado para disputar o governo de São Paulo, com Gilberto Kassab na vice, Lula teria ficado profundamente irritado. Palocci era e é de seu círculo pessoal e o ex-presidente avaliava que ele estava se recuperando do caso do trabalhador Francenildo Costa, que teve o sigilo bancário quebrado por gente do PT do ex-ministro-chefe da Casa Civil.

Carlos Cachoeira e o dono da Delta, Fernando Cavendish — Cláudio Abreu é uma peça da engrenagem, por sinal medularmente ligada ao PMDB goiano e possivelmente usou o empresário do jogo para aproximar-se do tucanato do Estado —, envolveram vários políticos e empresários brasileiros, não apenas goianos, no seu jogo bilionário. Há quem diga que a movimentação da Polícia Federal, investigando o poderoso esquema de Cachoeira-Deltabrás, tem como objetivo “esconder” o mensalão. Parece que isto é um fato. Mas há outros, pois Lula sabe, como raposa política que é, que, embora seja possível retardar o julgamento do mensalão, não é possível camuflá-lo o tempo todo. O julgamento do mensalão em cima do período eleitoral poderá enfraquecer o PT e alguns de seus principais aliados. Assim, seria melhor transferir o julgamento para 2013, um ano neutro, sem eleições. O terremoto do caso Cachoeira-Deltabrás, sem o julgamento do mensalão em 2012, desgastará apenas as oposições e levemente alguns políticos da situação? É possível, ainda que não se tenha um quadro definido do escândalo.

Reforma partidária a fórceps

Há, porém, um aspecto, soterrado pelo debate moral, que está sendo negligenciado pelo jornalismo e pelos analistas profissionais. Na política não há como evitar a discussão sobre a hegemonia. O partido “B” quer destronar o partido “A” e o partido “A” faz tudo para não ser substituído pelo partido “B”. Mas há hegemonias e hegemonias. Lula, com sua intuição extraordinária e sua capacidade de elaborar cenários, percebeu que não é possível adotar medidas autoritárias numa sociedade complexa e diversificada como a brasileira. Não dá para ser Hugo Chávez sendo brasileiro, nas atuais circunstâncias, sobretudo logo depois de o país ter escapado de uma ditadura. Assim, opera-se, com a participação de Lula — o jogo não é explícito porque o ex-presidente não é dado a escrever e problematizar suas ideias —, uma tentativa de dinamitar o sistema partidário brasileiro em nível nacional.

O jogo é até prosaico, mas, por enquanto, eficiente — uma jogada de mestre. Lula projeta um sistema partidário com apenas um partido forte, o PT — e seu movimento social, incrementado pelo lulopetistmo, com o “lulo” precedendo o “petismo”, porque este está subordinado àquele (“lulo” e “petismo” não são uma coisa só, mas Lula opera para que sejam) —, e vários partidos fracos, alguns aliados e outros numa oposição que, ainda que se apresente como tal, não terá força eleitoral suficiente para derrotar o partido carro-chefe. Haverá contestação? Claro, pois é da essência das democracia. Mas haverá também compensação. O lulopetismo opera de maneira “democrática” num ponto. Os Estados, quebrados e financeiramente aos “pés” da União, que concentra os principais recursos, poderão ficar sob controle das elites estaduais. Aqui e ali, o PT terá um governador, mas o projeto do lulopetismo concentra-se no plano nacional e o petismo estadual subordina-se à estratégia principal. O deputado Rubens Otoni, do PT, não deverá disputar o governo de Goiás em 2014. Tende a apoiar a candidatura de Júnior do Friboi, do PSB, ou de Iris Rezende, do PMDB, ou mesmo de Vanderlan Cardoso, do PMDB. Em 2010, as ordens federais foram peremptórias: “Saia do caminho, Rubens, e abra espaço para Iris Rezende”. Rubens abriu, em silêncio, pois o centralismo democrático do PT é poderoso. PMDB, PP, PR, PSD e PSB podem ser fortes nos Estados. Por que Lula opera com mais vigor em São Paulo? Porque o ex-presidente sabe que a oposição só existe no Brasil, a oposição com alguma consistência, devido ao controle que o PSDB tem do governo de São Paulo e da Prefeitura de São Paulo, com o aliado Gilberto Kassab, do PSD. São Paulo, o Estado, é um país, o mais rico do “continente” chamado Brasil, e São Paulo, a capital, é o mais poderoso “Estado” do país — daí o vigor político do não-ideológico Gilberto Kassab. Se arrancar o PSD do comando da Prefeitura de São Paulo, primeiro, e o PSDB do governo de São Paulo, depois, Lula sabe que seu grupo político terá o controle integral do país.

Lula pode ser criticado por buscar a hegemonia? Na verdade, se não estiver pretendendo instalar uma “democradura”, não. Ele opera um jogo político e cabe às oposições e mesmo aos aliados, e também a sociedade, enfrentá-lo tanto em termos de crítica quanto eleitoralmente. Fala-se muito em reforma política, mas, sem que os políticos e mesmo a imprensa percebam, está sendo operada uma reforma partidária, dinamitando a participação dos grandes partidos nacionais — todos têm integrantes acusados de corrupção —, que tem como objetivo manter o lulopetismo no poder.

Falava-se em 20 anos de PT no poder. Agora, fala-se em 30 anos e até mais. O operador deste jogo duro, até implacável, é o “cordial” Lula, o político amado e adulado pelo povo. Sérgio Buarque e Raymundo Faoro por certo ficariam espantados se, vivos, pudessem verificar como o “cordial” Lula usa o aparato institucional para fins partidários.

Partido do social e da ética

Ao contribuir para “sujar” integrantes de vários partidos, criando um pandemônio moral, os ideólogos do PT, sobretudo aqueles que são ligados ao ex-presidente Lula, mandam muito mais um recado para a sociedade brasileira do que aos adversários e aliados. O petismo, o lulopetismo, está sugerindo o seguinte: a corrupção grassou, é fato, mas o governo do PT está investigando “tudo” — exceto os aliados das províncias enviados para o Congresso Nacional, como José Sarney, Renan Calheiros, Jáder Barbalho e Fernando Collor, todos políticos que, no passado, foram execrados pelo PT e acusados de corrupção — e está “mandando” gente para a cadeia. Diz ou insinua: “Veja o caso do contraventor Carlos Cachoeira”, “veja a lama que envolveu o senador Demóstenes Torres”, um dos mais contundentes críticos ideológicos do PT.

O PT chafurdou-se na lama vermelha da corrupção, sendo obrigado a abandonar o discurso da ética, seu velho e resistente bordão, sobretudo depois do mensalão. Com Lula, que seria o chefe do mensalão, segundo alguns de seus críticos — José Dirceu seria o subchefe —, não era possível fazer a operação limpeza. Por isso, Lula, com mão de mestre, optou por uma não-política, ou melhor, por uma política sem experiência eleitoral e com vocação técnica. Lula sabia que, mesmo sendo forte, precisava de um político, ou uma política, que sugerisse renovação — o que José Serra não era e não é há algum tempo. Dilma assumiu e, com o apoio dos marqueteiros deixados por Lula, como o baiano João Santana, operou uma mudança no governo — optando por demitir os ministros e demais auxiliares corruptos, numa faxina que lhe rendeu 77% de popularidade, um índice alto considerando que não faz o perfil de “mulher cordial”, até por ser afeita aos ritos institucionais, à liturgia do poder. Mas Dilma está conseguindo operar, e o próprio Lula não deve ter pensado nisto, a junção do partido do social, herança deixada por Lula, ao partido da ética, herança perdida pelo ex-presidente. Dilma passa a imagem de que é ela que está fazendo a operação limpeza — quando, na verdade, são as instituições, como imprensa, Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal, que estão funcionando. Sem as denúncias da imprensa, a equipe de ministros teria permanecido a mesma, e, a rigor, a composição política do governo continua sem mudança substancial. Observe-se que nenhum dos ministros defenestrados por Dilma Rousseff foi investigado pelo governo. O acordo com os partidos parece ser o seguinte: “Pode demitir, mas não investigue”. Quem vai investigá-los? A Polícia Federal e o Ministério Público. Quem vai julgá-los, se for o caso? O Judiciário, talvez o mais eficiente dos poderes brasileiros — apesar das falhas eventuais.

Moral e imprensa

O quarto ponto, sobre a união do PT com algumas das elites estaduais arcaicas, importando-se tão-somente com a subordinação delas ao projeto nacional do lulopetismo, já foi analisado anteriormente. Podemos saltar, pois, para o quinto ponto: o uso da moral como instrumento político. O respeito ao dinheiro público, sua aplicação correta — e a presidente Dilma Rousseff tem sido correta, até agora, e nem mesmo tucanos e democratas têm críticas consideráveis aos seus atos e, por isso, tendem a vituperar mais a concentração de recursos na União —, é fundamental. Roubar o Erário é assaltar a sociedade — é retirar dinheiro do crescimento da economia e do desenvolvimento.

Entretanto, quando a moral é usada como instrumento político, e até partidário, a sociedade deve abrir os olhos. É positivo a sociedade criticar a corrupção, verificar e criticar aqueles gestores e políticos que avançam sobre os cofres públicos, mas é fundamental, para a estabilidade democrática e para que se evite a prevalência dos arroubos autoritários, que não se faça um linchamento moral dos indivíduos antes que os fatos sejam devidamente apurados. Entende-se que a sociedade brasileira, como outras mundo afora, está escaldada com alguns políticos, talvez até com todos, e por isso as críticas, contundentes e sem medir palavras, podem até ser vistas como pertinentes. Mas não se constrói uma sociedade socialmente justa, de fato democrática, se feita com arroubos de homens cordiais que não entendem que o funcionamento institucional, não com vontades individuais raivosas, é muito mais adequada e sólida. A sociedade deve criticar, deve ser dura, mas, ao mesmo tempo, deve esperar (e pressionar para) que as instituições funcionem. Os acusados ou suspeitos de corrupção, como supostamente o senador Demóstenes Torres, devem, primeiro, ser denunciados pelo Ministério Público e, depois, condenados pela Justiça. O que o senador fez é reprovável, não só pela possível aliança financeira com Carlos Cachoeira — um homem público, eleito pelo povo, não poderia fazer isto —, mas também por ter iludido a sociedade brasileira, não apenas a goiana, que o via como esperança de tempos mais limpos. As redes sociais são um avanço, e inescapável, mas o bom senso indica que lá o indivíduo deve se comportar como cidadão e não como linchador, e não apenas devido à possibilidade de processos judiciais, mas fundamentalmente ao fato de que os homens não são bárbaros e devem, ao mesmo tempo que pressionam as instituições e os homens que as representam, respeitá-los. O ministro Ricardo Lewandowinski não deve ser “linchado” pelas hostes tucanistas porque quer examinar o processo do mensalão com o máximo de cuidado. Assim como o novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, não deve ser “atacado” pelo petismo porque quer julgar o processo até junho. A crítica “limpa” a alma — o linchamento a “suja”.

O sexto ponto tem a ver com as relações tumultuadas entre o petismo e a mídia, sobremaneira a imprensa. Não são todos os petistas que querem “monitorar” a imprensa. A presidente Dilma Rousseff, que sofreu, até fisicamente, nas “mãos” de uma ditadura, que controlava a imprensa — até carros da “Folha da Tarde” eram usados pelas forças repressoras e os principais jornais apoiavam a violência dos militares e policiais civis —, não fala sobre a regulação da mídia. Pelo contrário, demonstrou, em mais de uma ocasião, que, quanto mais livre, melhor a imprensa. Em nenhum momento criticou a imprensa quando esta publicou denúncias de corrupção em seu governo. Pôs parte dos corruptos para fora, enquanto Lula tinha o hábito de “enfrentar” a imprensa e apoiar os aliados.

Enquanto Dilma evita falar de controle da imprensa, dentro de seu governo, as viúvas de Lula continuam, com o apoio de parlamentares do PT, com o mesmo discurso. Aproveitando-se dos supostos laços de Carlos Cachoeira com a imprensa, notadamente com a revista “Veja” — e não há nenhuma comprovação de que o redator-chefe Policarpo Júnior subordinasse o conteúdo das reportagens aos interesses do empresário do jogo —, os petistas voltaram a falar em regulação da imprensa. É um equívoco. A imprensa só é imprensa se for livre. Livre inclusive para apoiar os tucanos, como supostamente faz a “Veja” (a defesa maior parece ser da economia de mercado, tanto que a revista escreve “estado” com “e” minúsculo, o que é uma visão limitada do que é o Estado). Aliás, o proprietário, Roberto Civita, e os editores da “Veja” sabem que uma oposição recalcitrante como a tucana não ajuda em nada a imprensa. O DEM era uma grande fonte da imprensa porque posicionava-se ideologicamente com firmeza. Agora, o DEM é um zumbi, dirigido por um coronel político do Nordeste, José Agripino Maia. O PT, com todos os defeitos, está a anos-luz de um político como Agripino Maia. Os tucanos paulistas e os mineiros, sobretudo os cautelosos mineiros, como Aécio Neves, são por demais moderados — e fazem uma oposição quase tão consentida quanto o MDB na época da ditadura. Mas, entre a década de 1960 e meados das década de 1980, é claro, havia uma ditadura e, ainda assim, o MDB, sobretudo seus integrantes autênticos, era aguerrido. A turma de José Serra chama Aécio de Traécio. Este parece que quer imitar mais Lula do que Tancredo Neves. Mas deveria entender que Lula é um só — cada geração tem um (e não dois) político como o petista, um grande político, ainda que possa ser criticado por sua vocação autoritária e, até, caudilhesca.

Falamos de “Veja” e agora algumas palavras sobre a “CartaCapital”, editada por Mino Carta, de 79 anos. Trata-se de uma revista de qualidade e não faz nada de errado ao se comportar como porta-voz oficiosa do petismo ilustrado. Pode e deve fazê-lo, afinal é uma empresa privada e, sobretudo, não esconde que apoiou o governo de Lula e apoia o governo de Dilma Rousseff. Na eleição passada, declarou o apoio na capa e em editorial. Na verdade, para a democracia, é importante que se tenha uma revista que critica o governo, de modo mais incisivo, e uma revista que o defenda, também de maneira incisiva. As duas revistas sabem que seus leitores são inteligentes e sabem ler, nas e fora das entrelinhas, e por isso não escondem suas simpatias políticas e ideológicas. Na verdade, o leitor ideal, se existe, é aquele capaz de ler e, se possível, aprender com as duas — ainda que possa discordar de seus conteúdos. Dizer “não leio a ‘Veja’” ou “não leio a ‘CartaCapital’” é mais ideológico, no sentido rasteiro do termo, do que inteligente. É melhor dizer: ‘Leio e discordo”. Ler apenas aquilo que combina com o que pensamos costuma levar-nos à estagnação mental.

Resta dizer, ao fim do Editorial, três coisas sobre a crise moral da República. Primeiro, Lula e Dilma Rousseff, embora aliados, são diferentes. O leitor marcadamente ideológico talvez pergunte: “Não estará o jornal sendo ingênuo?”. Quem sabe, seja um voto de confiança numa política, até agora, moralmente inatacável e uma gestora que não está comprometendo o crescimento e o desenvolvimento do país. E, politicamente, não tem advogado medidas autoritárias.

Segundo, a crise moral, ao contrário do que se pensava no início, é coletiva — não há como não reparti-la entre o PSDB dos governadores de Goiás, Marconi Perillo, e do Tocantins, Siqueira Campos; o DEM do ex-democrata Demóstenes Torres; o PT de José Dirceu, o consultor da Delta Construções, e do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz; do PMDB do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho; do PMDB de Adib Elias, presidente do partido em Goiás, e do prefeito de Catalão, Velomar Rios. Carlos Cachoeira, afinal, se não é de todos — é de quase todos. Assim como a Delta. Terceiro, uma CPI ampla tende a paralisar o governo? É o que teme a gestora Dilma Rousseff. A presidente só não o diz com todas as letras porque teme a ira das ruas e, agora, das redes sociais. E Lula? Parece não se importar com nada. Mas sabe que a desmoralização da política faz parte de um jogo arriscado e não democrático.

fonte jornal OPÇÃO, de Goiânia

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