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Como no tempo de Albert Camus, futebol ensina sobre grandeza e miséria humanas

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Camus

 

Mário Magalhães, em seu blogue, no UOL 

 

vale de novo

Nos destroços do Avro, na Colômbia, o fim de tantos sonhos – Foto Raul Arboleda/AFP

 

Escritor dublê de goleiro ou goleiro dublê de escritor, o franco-argelino Albert Camus (1913-1960) assinalou, em tradução livre: ”O que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do ser humano eu devo ao futebol”.

Cinquenta e seis anos depois da morte do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, sua lição permanece. Poucas vezes foi tão eloquente como na morte de 71 passageiros e tripulantes de um Avro que caiu na Colômbia. Entre eles, quase todo o time da Chapecoense finalista da Copa Sul-Americana e duas dezenas de jornalistas que cobririam em Medellín o jogo de ida da decisão.

A dor pungente e a solidariedade em todo o planeta mostraram a face mais generosa da humanidade. Embora às vezes divida, quase sempre o futebol une, na paixão e na comoção. Em estádios, treinos, na privacidade doméstica, a desgraça comoveu.

A repetição de jogadas de partidas recentes da Chape ensinou sobre perseverança, resistência até o instante derradeiro, superação na adversidade. O sonho alimentado por defesas milagrosas do goleiro _como Camus_ Danilo. Isso mesmo: quem disse que milagre não existe?

A iniciativa do Club Atlético Nacional de propor a entrega do título à Chape é uma das atitudes mais emocionantes da história do futebol, própria de campeões. Por isso, torço para que os dois clubes repartam o caneco.

Do infortúnio florescem atos dignos até na lama. Cartolas propuseram medidas honradas de preservação do clube catarinense na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Uma coalização de afetos. Por exemplo, com o empréstimo de boleiros para recompor o elenco.

Nada disso mitiga a dor, mas aduba a esperança num tempo de tanta desesperança.

O futebol é metáfora da vida, costuma-se dizer. Por que não a vida é metáfora do futebol? O futebol expõe a grandeza humana, e também a miséria.

Houve quem tenha tentado se promover com a dor alheia. Quem tenha tripudiado do sofrimento. Ou aproveitado a tragédia para proselitismo político vulgar. O João Saldanha dizia que a estupidez humana não tem limites. A miséria e a insensibilidade também não.

O ano de 2016 não deveria nem ter começado. Para o jornalismo, foi uma baixa atrás da outra. Colegas como Sérgio Costa, Geneton Moraes Neto, Luiz Antônio Novaes. Da turma que se despediu ontem, convivi com o Paulo Julio Clement em viagens mundo afora. Entre suas muitas virtudes estavam a garra jornalística, a paixão pelo futebol e a decência profissional. Li há pouco na ”Folha” que o Paulo Julio, aos 51 anos, era entre o pessoal da imprensa um dos três mais velhos no voo. Na Copa de 1994, quando estivemos juntos nos Estados Unidos, estávamos virando trintões. Éramos pouco mais que guris, ainda assim com mais idade do que jornalistas que partiram ontem. Tempo, tempo, tempo…

Na cultura das redações, o jornalismo esportivo foi historicamente espezinhado, minimizado. Nos jornais, os novatos iam para a cobertura esportiva ou policial, em que ganhavam menos. Isso começou a mudar com a televisão, sobretudo quando, pena, o entretenimento sufocou o jornalismo. Mas no jornalismo impresso e da internet essa cultura sobrevive. Decorre de preconceito elitista, de direita e de esquerda, contra o futebol, esporte que começou restrito a bacanas e se transformou em fenômeno popular. Costumam dizer que o jornalista esportivo é pouco crítico. Na minha opinião, não existe mais subserviência ao poder, no jornalismo brasileiro, que nas editorias de política e economia.

O 29 de novembro já seria triste para mim, pela primeira vez sem comemorar o aniversário do melhor amigo que a vida me deu _ele se foi em fevereiro.

A partir de agora, será também o dia de celebrar a memória de apaixonados pelo futebol e pelo jornalismo que foram embora antes, muito antes da hora.

 

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