CLÓVIS ROSSI: Há algo de profundamente errado em um país em que os ricos choram (e de barriga cheia), ao passo que os pobres parecem relativamente felizes. Basta fazer a comparação: os portadores de títulos da dívida pública (serão quantos? Cinco milhões no máximo?) receberam do governo, no ano passado, R$ 75 bilhões. É quatro vezes mais do que os R$ 18,5 bilhões pagos às 14 milhões de famílias (ou 50 milhões de pessoas) que recebem o Bolsa Família.Quatro vezes mais recursos públicos para quem tem dinheiro para investir em papéis do governo do que para quem não tem renda.

clóvis rossi

Quem deveria ficar “nervosinho”

Há algo de profundamente errado em um país, um certo Brasil, em que os ricos choram (e de barriga cheia), ao passo que os pobres parecem relativamente felizes. Na ponta dos mais ricos, refiro-me à pesquisa da consultoria Grant Thornton que “Mercado” publica hoje e que mostra um absurdo recorde de pessimismo entre os executivos brasileiros.

Na ponta dos pobres, valem as sucessivas pesquisas que mostram satisfação majoritária com o governo Dilma Rousseff, a ponto de 11 de cada 10 analistas apostarem, hoje por hoje, na reeleição da presidente. Como ninguém vota em governo que o faz infeliz, só se pode concluir que uma fatia majoritária dos brasileiros, especialmente os pobres, está rindo.

Que a economia brasileira tem problemas, ricos, pobres e remediados estão cansados de saber. Problemas conjunturais (o crescimento medíocre dos anos Dilma ou a forte queda do saldo comercial, por exemplo). Problemas estruturais que se arrastam há tantos séculos que nem é preciso relacioná-los aqui. Daí, no entanto, a um pessimismo recorde vai um abismo.

Um país em que há pleno emprego e crescimento da renda não pode ser campeão de pessimismo nem pode ficar em 32º lugar, entre 45, no campeonato mundial de pessimismo. É grotesco.

Grotesca igualmente é uma das aparentes razões para o surto de pessimismo que vem grassando desde meados do ano passado. Seria a diminuição do superavit primário, ou seja, do que sobra de dinheiro nos cofres públicos depois de descontadas as despesas e tem servido exclusivamente para o pagamento dos juros da dívida. Foi por isso que o ministro Guido Mantega apressou-se a divulgar os dados de 2013, para acalmar os “nervosinhos”.

Quem deveria ficar nervoso, mas muito nervoso, não apenas “nervosinho”, é exatamente quem está contente com o governo.

Basta fazer a comparação: os portadores de títulos da dívida pública (serão quantos? Um milhão de famílias? Cinco milhões no máximo?) receberam do governo, no ano passado, R$ 75 bilhões. É exatamente quatro vezes mais do que os R$ 18,5 bilhões pagos às 14 milhões de famílias (ou 50 milhões de pessoas) que recebem o Bolsa Família.

Quatro vezes mais recursos públicos para quem tem dinheiro para investir em papéis do governo do que para quem não tem renda. Seria um escândalo se os pobres tivessem voz. Mas quem a tem são os rentistas que ficam reclamando da redução do que recebem, como se houvesse de fato a mais remota hipótese de que o governo deixe de honrar sua dívida. Fazem um baita ruído com os truques contábeis que permitiram o superavit, mas não dizem que, com truque ou sem truque, a dívida líquida diminuiu este ano, de 35,16% do PIB em janeiro para 33,9% em novembro, última medição disponível.

Ou, posto de outra forma: o governo, supostamente irresponsável, gasta menos do que arrecada e ainda pinga 1,3% de tudo o que o país produz de bens e serviços na conta dos mais ricos e apenas 0,4% na dos pobres entre os pobres. E os ricos ainda choram.

crossi@uol.com.br

clóvis rossi

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. É autor de obras como “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo” e “O Que é Jornalismo”. Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa de “Mundo”, caderno da Folha de S. Paulo e às sextas no site da Folha on line.

 

 

FONTE FOLHA DE S.PAULO

Categorias:Nação brasileira

2 Comentários

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  1. - IP 179.216.205.163 - Responder

    gostei, o jornalista clovis rossi botou o dedo na ferida. a maioria do brasil está satisfeita com a dilma. quem chia é porque tá querendo faturar mais do que fatura. a dilma bem que poderia inverter o jogo: diminuir o dinheiro para os CDBs e gastar mais com bolsa familia, pro-uni, minha casa minha vida e tal e tal

  2. - IP 189.74.109.52 - Responder

    Faça e verás o resultado: ( coloque só as iniciais dele nos pontinhos)

    Debaixo do pé esquerdo ( escrever o nome dele no pé esquerdo).

    Repita 3 vezes: Debaixo do meu pé esquerdo eu te prendo (R.B), eu te amarro (R.B), eu te mantenho (R.B.), pelo poder das treze almas santas e benditas e por São Cipriano, você vai ficar apaixonado por mim(H.C.),e confessar o seu amor por mim, vai ficar comigo para sempre e me fará muito feliz. Que você (R.B.), só tenha pensamentos, olhos coração, amor, desejos, tesão, admiração, respeito, carinho, paz e realização sexual comigo (R.B.). Que você seja um amante fiel, dedicado e completamente apaixonado por mim(H.C.),. Assim eu quero, assim será feito, assim já está feito.Amém.

    Publicar 4 vezes essa oração forte para amarrar alguém, simpatia infalives, porém não se pode voltar atrás.

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