gonçalves cordeiro

Cineasta José Padilha de um lado e Marcelo Freixo e Luiz Eduardo Soares, de outro, debatem desempenho da esquerda nas eleições no Brasil

E agora, José?

Esquerda optou deliberadamente em pôr a ideologia antes da ética

Dilma chegou em quarto para o Senado. Haddad, simulacro de Lula, perdeu para um candidato com enorme índice de rejeição. Boulos teve 0,5% dos votos. Freixo, que também colou em Lula, teve votos. Mas foi um fenômeno carioca, resultado do combate às milícias. O PSOL do Rio, anticorrupção, teve sucesso. Já o PSOL nacional sucumbiu. A Lava-Jato devolveu, fisicamente, R$ 1,5 bilhão para a Petrobras, e a Petrobras pagou US$ 2,5 bilhões aos procuradores americanos. Se não houve o petrolão, de onde veio este dinheiro? E por que o acordo na Justiça americana?

José Padilha Foto: Netflix / Alexandre Loureiro

José Padilha Foto: Netflix / Alexandre Loureiro

Teremos um radical de direita na Presidência porque a esquerda, acreditando que Lula era a única possibilidade de se manter no poder, optou deliberadamente em pôr a ideologia antes da ética. Alertei meus amigos marxistas sobre o erro que cometiam. Afinal, o dinheiro que o PT roubou era do mesmo eleitor que conviveu com a segurança pública e com os sistemas educacional e de saúde que o PT não consertou em 12 anos. Em outras palavras: a esquerda chamou o eleitor de otário, e colheu o preço desta afronta nas urnas. Para deixar claro que não ia levar desaforo para casa, a maioria dos brasileiros não apenas derrotou o PT, como escolheu a extrema direita para fazê-lo. O que o eleitor disse com esta escolha? Disse que coloca a ética antes de ideologia, mesmo que isto resulte em autoritarismo. Uma mensagem indigesta, mas inegável.

Depois de sofrer esta acachapante derrota, os formadores de opinião de esquerda deveriam estar se perguntando: “E agora, José, que a festa acabou, a luz apagou e o povo sumiu?” A resposta que derem a esta pergunta vai definir, em parte, se o Brasil continuará sendo um país de ideólogos irracionais e antiéticos.

Tive conversas com Luiz Eduardo Soares e Marcelo Freixo a respeito deste tema. Ambos participaram do erro da esquerda: reconheceram a roubalheira do PT e, mesmo assim, ficaram ao lado de Lula. No caso do Luiz, por conta da tese de que Lula, apesar de ser claramente culpado de vários crimes, foi condenado por um crime que não cometeu. Segundo Luiz, a prisão de Lula seria fruto de uma armação política que articulou todas as instâncias do Judiciário. Não vejo como isto possa ser verdade. Mas, mesmo que fosse, seria irrelevante, posto que a lógica do eleitor não se submete aos formalismos judiciais.

Lula recebeu R$ 27 milhões por palestras para empreiteiras pegas na Lava-Jato, mas não há uma única foto postada por alguém que tenha assistido a uma destas. Em um tribunal, isso não configura prova. Todavia, nenhum eleitor razoável pode deixar de concluir que as palestras não aconteceram e que Lula recebeu por outros serviços… No caso do Marcelo, o motivo do apoio dado a Dilma e Lula foi um veto ao PSDB, que roubou e é direita. O eleitor concordou com ele apenas em parte. Não relativizou a ética por conta da ideologia, e enterrou o PSDB junto com o PT.

Para piorar, a esquerda resolveu fingir que o apoio de Lula e do PT às ditaduras de Cuba e da Venezuela era desimportante. Eu, que filmei na Venezuela e tenho amigos por lá, sei quão cínica foi esta opção… Ao insistir numa tese facilmente refutável, a esquerda abriu mão do único discurso que poderia eliminar Bolsonaro da contenda: o fato de ele ser inaceitável por conta de suas opiniões a respeito dos direitos humanos e das liberdades civis. Ciro poderia ter feito este discurso. Lula e o PT, jamais. A esquerda optou por Lula, e traiu Ciro miseravelmente.

O que a esquerda precisa fazer para resistir a um possível autoritarismo de Bolsonaro? Primeiro, abandonar de vez o PT, irremediavelmente maculado pela corrupção e pelo PMDB. Depois, pôr a honestidade antes da ideologia, assim como fez o eleitor. E, finalmente, se opor a qualquer autoritarismo, incluindo o de países socialistas. Se isto não acontecer, mais uma vez, como disse Espinosa, a esquerda lutará pela escravidão pensando que está lutando pela liberdade,

——————-

Resposta a José Padilha

por Luiz Eduardo Soares e Marcelo Freixo 

Nossa amizade com José Padilha é a demonstração de que relações pessoais podem resistir às diferenças políticas. Ele escreveu um artigo, publicado por O Globo (7/11/2018), em que nos apresenta como representantes de uma esquerda derrotada que teria naufragado nas urnas por apegar-se à ideologia em detrimento da ética – como se a ética tivesse vencido a ideologia, no Brasil.

Seria por isso que o candidato a deputado estadual mais votado no Rio foi o homem que rasgou a placa de Marielle? O Brasil teria votado pela ética ao eleger quem defendeu grupo de extermínio e tortura? Los Angeles não está fazendo bem ao Zé. Talvez daí o ato falho: ele nos questiona, mas o título de seu artigo é: “E agora, José?” Padilha crê que de um lado está a distinção entre bem e mal, justo e injusto, de outro, a diferença entre ideologias. É como se separássemos o repúdio à corrupção da recusa a que seis bilionários acumulem a riqueza correspondente a 50% da renda nacional, ignorando que essa desigualdade inqualificável é fruto de um tipo de organização social e econômica, garantida e perpetuada por determinado arranjo do poder político. Como se nosso repúdio às desigualdades extremas não fosse ético, mas ideológico. Esses conceitos são controversos e muito mais complexos do que nosso amigo faz parecer. Poderíamos virar de cabeça para baixo sua avaliação, afirmando que é anti-ético sustentar posições políticas que viabilizem a reprodução das iniquidades sócio-econômicas. Valer-se da retórica “ética” para justificar sua posição política gera ilusão de objetividade e de falsa neutralidade, revelando-se uma clara manifestação ideológica.
Quanto à derrota, Padilha negligenciou alguns fatos: o PSOL cresceu quase 100%, passou de seis a 10 deputados federais, cinco homens e cinco mulheres, ultrapassando a cláusula de barreira. Progressistas e democratas, unidos no segundo turno, alcançaram 47 milhões de votos. As esquerdas, somadas, têm, no Congresso, o mesmo número de representantes que possuíam na legislatura anterior. A ultra-direita cresceu em detrimento do centro. Houve derrota, claro, mas não nos termos sugeridos por Padilha e pelos motivos alegados em seu artigo.

Finalmente, chegamos a Lula. Não somos membros do PT e temos sido críticos duros do partido, ao longo de anos, mas as divergências não nos impediram de reconhecer a escandalosa injustiça a que Lula e o PT foram submetidos. Padilha até parece admitir, ao menos por hipótese, que a condenação de Lula tenha sido injusta, mas, na sequência, refere-se a outras acusações como se já tivessem sido comprovadas, dispensando julgamento. Parece-nos perfeitamente ético refutar a condenação se a consideramos injusta.

Houve inúmeros casos na história de erros judiciais, bem ou mal-intencionados. Além disso, o anti-petismo nada tem a ver com críticas ponderadas e bem informadas sobre o desempenho do partido. O anti-petismo, viralizado como praga por redes sociais, alimentado por fakenews as mais abstrusas, é a crença de que todos os petistas são corruptos e de que esse partido é o foco não só da corrupção, mas de todos os males brasileiros. O que venceu as eleições foi antes essa patologia do que a ética, o justo repúdio à corrupção.

Quanto à Lava-Jato, a operação começou enchendo de esperança quem repelia a corrupção, entretanto, ao longo do caminho perdeu-se em sucessivos vazamentos e delações seletivos. Não nos parece minimamente razoável que se negue o caráter político-eleitoral do vazamento de antiga delação de Palocci, a seis dias do primeiro turno. O ingresso do juiz Moro no governo Bolsonaro, depois dessa intervenção, deixa claro para quem duvidava que Lula foi retirado da competição eleitoral intencionalmente e que foi essa a razão de sua rapidíssima dupla condenação. Veremos como a segunda temporada da série “O mecanismo” lidará com essa evidência.

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

dezessete − 9 =

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.