CIENTISTA SOCIAL JELDER POMPEO: Com toda legitimidade e razão os(as) trabalhadores(as) têm se indignado com as políticas que estão sendo gestadas e que atacarão direitos históricos da classe trabalhadora: direitos trabalhistas, previdenciários, do funcionalismo público, etc. De fato, não podemos ficar parados diante desses ataques, porém, não dá para sairmos às ruas tendo como bandeira principal o Fora Temer

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As problemáticas do Fora Temer
Por Jelder Pompeo

O Brasil recentemente vive um período de transição: sai a presidenta (PT) e assume o seu vice de chapa, Michel Temer (PMDB), fruto de um intenso desgaste frente aos(as) trabalhadores(as), devido ao crescente desemprego, ataques à previdência, autos índices da inflacionários, aumento dos combustíveis, alimentos e meios básicos da subsistência, aliados a uma crise cíclica do capital a nível internacional bem como as denúncias generalizadas de corrupção.
Com a perda da base social que poderia legitimar o governo petista, grande parte dos setores da classe dominante como grandes empresários, banqueiros e agronegócio que antes apoiavam o projeto de conciliação de classes implementado pelo PT, se deslocaram para a oposição. Tal conjuntura possibilitou que a presidenta fosse destituída do cargo.
Para reverter a queda da taxa de lucro, ou seja, a crise, as classes dominantes brasileiras na direção do estado exigem medidas drásticas contra os direitos historicamente conquistados pelos trabalhadores. Elas perceberam que, por ter que dialogar com a sua base social sindical e popular, os governos petistas não implementavam na velocidade adequada as medidas de ajustes que os grandes empresários exigem: reforma da previdência e trabalhista.
Ao assumir a presidência, Temer mostrou que tem voracidade para implementar a política de arrocho. Cortou verbas de programas educacionais, culturais, e irá inflexionar os poucos avanços superficiais do governo petista. Mas, este processo de transição não acontece sem resistência. Setores organizados dos movimentos sociais e partidos políticos de esquerda organizaram várias mobilizações contra o governo. Tanto que o próprio Temer teve de admitir que subestimou as manifestações. Para além dos derrotados na “batalha” do impeachment (golpe), “o Fora Temer” tem tido apelo para além do campo petista e seus aliados nos movimentos sociais e sindicais.
Se as manifestações do Fora Temer dependessem apenas da militância petista e seus aliados, talvez as manifestações seriam mais esvaziadas, como o Temer previa. O PT não conseguiu barrar o impeachment, mesmo tendo apoio de uma das maiores centrais sindicais do país, a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), maior movimento social da América Latina. Digo isto pois, antes mesmo do governo Lula, a direção de boa parte do MST e dos sindicatos ligados à CUT começaram a desmobilizar suas bases sociais. Ou seja, enfraqueceram a luta combativa, feita na rua e no enfrentamento das classes dominantes, preferindo a via institucional, política e eleitoral. Com mais de quinze anos de política de conciliação de classe, aquela que tenta conciliar interesses inconciliáveis, como os interesses dos trabalhadores e os dos patrões, o do agronegócio com os dos sem-terras por exemplo, o PT e seu braço sindical e social foram ao longo desse período deslocando suas lutas da rua para os gabinetes.
Agora que o PT não conseguiu mais manter-se no jogo político institucional, mesmo utilizando todas as artimanhas que esse jogo tem, como a barganha por votos de parlamentares, alianças espúrias, mensalões, entre outras, surge então a necessidade de voltar para as ruas para assim retornar ao jogo político. Porém, com a desmobilização feita por eles mesmos, as ruas já parecem um território estranho para muitos que se acostumaram com a política de gabinete. Dessa forma, o PT e seus aliados, não conseguiram força suficiente para manter a “presidenta” no poder e talvez não mais conseguiriam colocar uma grande quantidade de manifestantes nas ruas. Até agora, as manifestações estão pouco expressivas se comparadas às de junho de 2013, porém são maiores que as manifestações que ocorriam em defesa do governo Dilma. Muitos trabalhadores, indignados com a possibilidade de perda de direitos com os projetos de leis que o atual governo quer aprovar, têm engrossado o coro nas manifestações do Fora Temer.
Com toda legitimidade e razão os(as) trabalhadores(as) têm se indignado com as políticas que estão sendo gestadas e que atacarão direitos históricos da classe trabalhadora: direitos trabalhistas, previdenciários, do funcionalismo público, etc. De fato, não podemos ficar parados diante desses ataques, porém, não dá para sairmos às ruas tendo como bandeira principal o Fora Temer.
Apesar de saber o quanto Temer está sedento pela aprovação dos projetos, chamados pelos políticos de “ajuste fiscal”, ainda assim, ter como mote principal o “Fora Temer” acaba escondendo alguns elementos da luta a ser travada. Muitos trabalhadores(as) ainda estão acreditando, que, com o “novo governo”, haverá também “nova política” e assim poderia ocorrer alguma melhora no quadro econômico atual. Na realidade, muitos dos projetos, que irão atacar os direitos da classe trabalhadora e que o Temer pretende implementar, “gestados” ainda no governo Dilma, como por exemplo: as privatizações dos bancos públicos, correios, Petrobras, entre outras, as alterações nas leis trabalhistas, as PLs 257 e 241 de 2016, que atacam diretamente o serviço público e a reforma da previdência. Dessa forma, colocar como principal bandeira e palavra de ordem o Fora Temer – ou acreditar que esse “novo governo” terá novas medidas que possam melhorar a vida do(a) trabalhador(a) – esconde que os ataques do presidente são, na verdade, ataques dos governantes, ou melhor, do estado burguês comandado pelo empresariado do campo e da cidade e pelos banqueiros.
Para “fugir” desse problema, parte dos manifestantes do Fora Temer, tem clamado por “Diretas já”, ou seja, pela antecipação das eleições. Essa segunda bandeira também é extremamente perigosa no atual momento, pois vemos políticos como Bolsonaro e Feliciano com grandes índices nas pesquisas eleitorais. Mesmo que eles não sejam eleitos e o PT porventura consiga alçar o Lula outra vez à presidência da República, as políticas que ele iria implementar seriam as mesmas que Dilma deixou e que Temer pretende aprovar, com a diferença de que, com Lula ou com qualquer outro recém-eleito, essas políticas poderiam ser aprovadas com a legitimidade dos votos da nova eleição.
Ao invés de entrarmos na batalha dos governantes, na disputa do estado que nada mais quer do que ver quem vai guiar o trator que atropelará a classe trabalhadora, temos de nos organizar nos locais de trabalho, estudo, moradia e construir alternativas de luta que levem como bandeira a defesa de nossos direitos, combatendo as PLs, privatizações, alterações nas leis trabalhistas e todos outros ataques. A novidade nesse sentido é a necessária greve geral, pois só parando a produção e circulação de mercadorias que a classe trabalhadora pode mostrar sua força e organização. Só assim, conseguiremos avançar para além da visão político institucional e construir formas mais avançadas de organização e de luta.
jelder pompeo tecnico administrativo e militante da Intersindical


Jelder Pompeo de Cerqueira, Cientista Social pela UFMT, Especialista em questão agrária, Técnico em Assuntos educacionais do IFMT. Artigo com contribuições coletivas de militantes da INTERSINDICAL

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