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CID BENJAMIN, FUNDADOR DO PT, HOJE NO PSOL: “O PT deixou de ser um partido de transformação social, o que não quer dizer que seus integrantes, pelo menos a maioria, não têm mais essa perspectiva. Mas a direção do PT… o rumo que tomou não é transformador. E nem falo de transição para o socialismo, mas da dificuldade que o PT tem para tomar medidas republicanas mais radicais

 

Cid Benjamin, que militou no MR-8 durante a resistência à ditadura militar, hoje é ativista do PSOL e está lançando o livro de memórias "Gracias a la vida"Ex-guerrilheiro dos anos 60: ‘Lutamos por uma sociedade melhor’

 

Um dos líderes da guerrilha urbana, o jornalista Cid Benjamin está prestes a lançar o livro ‘Gracias a la Vida’. Ele diz que se pudesse voltar no tempo faria tudo de novo, mas de outra forma

 

POR Caio Barbosa – jornal O DIA – RJ

 

 

Rio –  O DIA: Por que lançar um livro só agora, tanto tempo depois da prisão?

 

CID: As pessoas me cobram este livro há muito tempo por uma série de motivos. E eu adiava porque não queria fazer só um relato, mas uma espécie de reflexão sobre uma série de questões. E como eu não tinha tempo nem pressa e não me sentia em condições de fazer como eu queria, o livro está saindo só agora.

 

Da maioria dos ex-companheiros, pelo menos os mais conhecidos, como o Fernando Gabeira e o (ex-ministro) Franklin Martins, você é um dos poucos que se mantêm em defesa do socialismo.

 

Mudei algumas concepções, mas no essencial eu continuo no mesmo lado onde estava. Hoje, dou um peso maior à democracia, até porque acho que ela não enfraquece o socialismo. Muito pelo contrário. Ela valoriza e enriquece a proposta socialista.

 

Cid voltou este ano à cela onde ficou preso, no Dops. Tão pequena que não havia espaço sequer para deitar e dormir | Foto: Divulgação

Cid voltou este ano à cela onde ficou preso, no Dops. Tão pequena que não havia espaço sequer para deitar e dormir | Foto: Eduardo Sarmento / Divulgação

 

Qual foi seu principal aprendizado?

 

Não foi político, mas de vida. Várias vezes me vi sem nada. Levei uma vida muito espartana na clandestinidade. Fiquei preso sem roupa nenhuma. Perdi tudo várias vezes. Quando estava exilado no Chile, tive de sair do país com a roupa do corpo às vésperas do golpe contra o presidente Salvador Allende com minha mulher e minha filha recém-nascida. Tudo isso me fez aprender que, se você tem saúde e disposição, todo o restante é perfeitamente possível de ser feito.

 

E politicamente?

 

Tenho muito orgulho da minha trajetória. Apesar dos nossos erros políticos, sou de uma geração que em condições muito adversas lutou, arriscou a vida por uma sociedade melhor para todos. Isso é motivo de muito orgulho e acho que tem de ser valorizado.

 

E o grande erro?

 

Acho que a luta armada foi um erro. Não em tese, pois reafirmo a legitimidade de você pegar em armas contra um regime opressor e ilegítimo. Isso é reconhecido até pela ONU. Minha reflexão é em relação à eficácia da ação. Não tinha condição de vingar. Foi um erro político pelo qual pagamos caro. Mas falar agora é fácil. Após 1964, com a Revolução Cubana, com os EUA perdendo a Guerra no Vietnã, havia elementos fortes para que as pessoas se atraíssem e acreditassem no sucesso da luta armada. Então, não há arrependimento, mas a reflexão de que foi um erro. Costumo dizer que se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo, mas de uma outra forma para que o objetivo fosse atingido.

 

Na volta ao Brasil, você fundou o PT com outros ex-companheiros. Mas hoje o partido é bem diferente.

O PT deixou de ser um partido de transformação social, o que não quer dizer que seus integrantes, pelo menos a maioria, não têm mais essa perspectiva. Mas a direção do PT… o rumo que tomou não é transformador. E nem falo de transição para o socialismo, mas da dificuldade que o PT tem para tomar medidas republicanas mais radicais. Embora eu reconheça melhorias em relação aos governos anteriores, é muito pouco para o que eu queria do PT.

E o Psol?

 

Não acho que o Psol vá crescer, atropelar isso tudo que aí está e encampar a bandeira do socialismo. Mas é uma importante trincheira onde segue erguida a bandeira socialista. Não consigo imaginar o que seria do Congresso sem os nossos quatro parlamentares (senador Randolfe Rodrigues, do Amapá, os deputados Chico Alencar e Jean Wyllys, do Rio, e Ivan Valente, de São Paulo). Eles cumprem um papel importantíssimo, são os melhores parlamentares do país e não seriam se estivessem no PT. Ficariam amordaçados.

 

Você é daqueles que consideram que o grande legado do PT, além do Bolsa Família, será a despolitização da sociedade após os escândalos de corrupção?

É um exagero afirmar isso. Contribuiu bastante para a desilusão. Despolitização? Penso que sim. Mas o Bolsa Família melhorou a situação de milhões de pessoas. Só que representa apenas 1/5 do lucro dos bancos. E se você quer pensar em transformação social, é preciso pensar em emprego digno e estável. A assistência social tem que ser feita muitas vezes porque há miséria, mas é preciso ter a porta de saída para não ficar vivendo eternamente da caridade do Estado.

 

O Bolsa Família se tornou o que há algumas décadas era um saco de cimento e um caminhão de tijolos, ou seja, é um cabresto eleitoral do século 21?

 

Não quero dar uma impressão pejorativa do Bolsa Família. Ele beneficia não apenas o núcleo familiar, mas faz o dinheiro circular nas cidades do interior do Nordeste, por exemplo. O padeiro vende mais pão, o comércio vende mais roupa e isso é bom. Mas é emergencial. Cada vez que se anuncia o número maior de beneficiados vejo um lado ruim. O ideal seria este número diminuir, que o governo dissesse que dá menos Bolsa Família porque o cidadão já tem um emprego decente. Mas isso não acontece.

 

Apesar de ter sido fundador do PT e um dos coordenadores da campanha do Lula na histórica eleição de 1989, você diz no livro que o melhor para o país teria sido a eleição de Leonel Brizola. Por quê?

 

Pela educação. Acho que ela tem de ser prioridade em qualquer governo, de esquerda ou direita. Isso não tem a ver com o socialismo e não necessariamente vai ameaçar as classes dominantes. Se o PT tivesse revolucionado a educação fundamental nestes 11 anos, já teria sido um legado enorme. Mas nunca fizeram isso. Aliás, não há quem cite neste governo uma única medida que tenha contrariado o interesse das classes dominantes, dos bancos, dos empreiteiros, das multinacionais e do agronegócio.

 

E qual a sua avaliação do governo Dilma, outra ex-guerrilheira. Vocês se conheceram na ditadura?

 

Não. Ela era da base. O ex-marido, Carlos Araújo, é que era dirigente. Eu acho um governo frustrante porque não é de transformação social. Se você me perguntar se não é melhor que os do Lula, Fernando Henrique e Collor, certamente direi que é, mas não me satisfaz. Não mexe com os interesses dos ricos, não faz as reformas necessárias e constrói a governabilidade montando uma geleia de partidos que o imobiliza. São tantas concessões que não permitem as transformações, apenas permitem que o o governo não seja incomodado.

 

E a Comissão da Verdade, criada por ela para apurar os crimes cometidos pelo Estado na ditadura? O que pensa a respeito?

 

Não tenho rancor contra meus torturadores, mas um país que não conhece sua história está condenado a repetir os erros. Mandela, na África do Sul, abriu mão da punição dos torturadores desde que eles fossem a público confessar tudo o que fizeram. Foi um choque na sociedade sul-africana, mas criou anticorpos para que não aconteça de novo. Por isso, é preciso que saibamos quem foram os torturadores e os mandantes. Só lamento que esta comissão tenha vindo tão tarde. O Sarney, como cúmplice da ditadura, não poderia tê-la criado. O Collor, tampouco. Mas o Fernando Henrique e o Lula, sim, poderiam ter dado um passo importante neste direção e não fizeram.

 

O que chama a atenção em você é que, apesar de ter sido derrotado na luta contra a ditadura, de ter criado um partido que te causa frustração, você tem uma alegria de viver incrível.

 

Fiz o que achei que deveria ter feito e o fato de ter perdido batalhas não me deixou amargurado. Se eu ficar preocupado com tudo o que passei, vou ser torturado continuamente. Buda dizia que guardar rancor é como pegar um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém. Quem segura o carvão é que se queima.

 

E o Darcy (Ribeiro) também tinha uma ótima. Ele dizia: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras e não consegui; tentei salvar os índios, não consegui; tentei fazer uma universidade séria e fracassei; tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Penso exatamente assim.

 

Prisão se deu no dia 21 de abril de 1970, há exatos 43 anos

 

Em seu livro, Cid Benjamin conta detalhes do dia em que foi preso por agentes da ditadura, numa luta inglória dentro de uma padaria, no Méier.

 

“Surgiram entre 15 a 20 sujeitos, com fuzis, e começou uma briga que durou vários minutos… Eles queriam me prender vivo, em busca de informações que pudessem ser extraídas na tortura. Por isso, não atiraram. Os fuzis foram usados como porretes, para me desferir pancadas, principalmente na cabeça.”

 

“Fui recepcionado com um soco em cheio na boca do estômago, dado pelo tenente Garcez. Como tinha as mãos presas nas costas, não pude me defender.

 

”Tive os fios amarrados no pênis e no dedo mindinho do pé direito. Em seguida, começaram os choques elétricos. A manivela foi girada, inicialmente, pelo policial civil Luiz Timóteo, cujo codinome era Padre. Ele se jactava de gostar de ‘dar choques no pau dos terroristas’. Isso durou um tempo que não sei precisar.”

 

“Os choques eram longos e fortes. Se a pessoa estivesse de pé, era derrubada violentamente. Se estivesse no chão, dava saltos como vítima de uma convulsão. Se estivesse pendurada no pau de arara, corcoveava, numa espécie de rodeio às avessas.”

 

“Enquanto os choques se sucediam, os torturadores oscilavam entre a tentativa direta de intimidação e a galhofa, com frases do tipo “ele vai ficar brocha pelo resto da vida.”

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Autobiografia de um torturado

 

Em ‘Gracias a la Vida’, Cid Benjamin, veterano da guerrilha e ex-petista, diz que oficiais torturadores admiravam presos políticos

 

 

Wilson Tosta / RIO – O Estado de S.Paulo

 

Exatos 43 anos atrás, no Dia de Tiradentes de 1970, perto das 19h30, Paulo Alves, 21 anos, óculos para miopia, 1,71m de altura, entrou com uma pastinha de plástico preto em uma padaria na esquina das Ruas Vilela Tavares e Dias da Cruz, no Méier, no subúrbio carioca. Recostado ao balcão, depois de pedir um guaraná e, ironicamente, um sonho, preparou-se para esperar alguém que logo deveria chegar ao ponto de ônibus a alguns metros dali, para tratar de assunto urgente. Perto dele, um homem passado dos 30 o observava. Em frente, alguns rapazes – barbudos, cabeludos, de bermudas – conversavam, animados, em uma sorveteria, parecendo aproveitar o fim do dia sem trabalho para relaxar. Subitamente, porém, todas essas fantasias se desfizeram: o grupo atravessou a via às pressas, Alves tentou pegar algo na pasta, o homem que o olhava lhe deu uma gravata por trás gritando: “Tá em cana!”. E as coisas começaram a acontecer muito rapidamente para todos.

Mais de 30 anos depois, Cid Benjamin volta à solitária do Dops para fotografias - Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão
Mais de 30 anos depois, Cid Benjamin volta à solitária do Dops para fotografias

 

Primeiro, o preso, impossibilitado de tirar da pastinha a pistola Colt 45 que carregava, com um golpe de judô – era campeão brasileiro juvenil do esporte – jogou sobre o ombro o homem que o agarrara, o major Moacir Fontenelle, que desabou sobre o balcão. Os tais jovens – todos agentes à paisana do DOI-Codi do I Exército – atacaram o preso com coronhadas de fuzil, socos e pontapés. E Alves – nascido Cid de Queiroz Benjamin, um dos guerrilheiros mais procurados do País, chefe da Frente de Trabalho Armado (FTA) do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) – lutou, segundo seus captores (cujas ordens eram pegá-lo vivo), por 20 minutos. No fim, coberto de sangue, foi jogado em um carro, algemado e levado em meio a gritos de vitória dos repressores. Para trás ficou a padaria destruída e um agente com dentes quebrados, socorrido no Hospital Central do Exército (HCE).

 

A cena abre Gracias a la Vida, autobiografia em que Cid, hoje jornalista, professor e escritor, acaba de dar o ponto final. Nela, o ex-guerrilheiro, um dos fundadores do PT e atualmente crítico duro do partido e seus governos, se dedica a “mexer em casas de marimbondos” enquanto recorda sua vida e reflete sobre a política, atacando crenças da esquerda – algumas opostas a outras. “Vou levar porrada de todo lado”, diz, entre divertido e conformado, ao lembrar sua trajetória sob a ditadura militar (1964-1985), quando participou do sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick. “Vou levar porrada do Tortura Nunca Mais; vou levar porrada dos marighellistas; vou levar porrada das viúvas da luta armada; vou levar porrada dos prestistas; vou levar porrada do PT; e vou levar porrada do PSOL.”

 

Em tempo de Comissão da Verdade, uma das “casas de marimbondo” em que Cid mexe é a sua constatação de que a tortura, que sofreu durante seu primeiro período no DOI, no quartel da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, não foi praticada apenas por psicopatas sádicos e jovens militares extremistas da Guerra Fria, mas também por cidadãos “normais”. Eram bons maridos, pais amorosos, vizinhos simpáticos, mas que tinham no suplício e até assassinato de seus semelhantes sua “rotina” profissional – impossível não lembrar a descrição de burocrata banal feita por Hannah Arendt (1906-1975) para o criminoso nazista Adolph Eichmann (1906-1962). Verdugos que, em alguns casos, se permitiam até sinais de admiração por suas vítimas, pela coragem que demonstravam diante da dor, embora não deixassem, claro, de fazê-las sofrer mais.

 

“Não quero que pareça que estou humanizando o torturador. O fato de um ou outro torturador não ser um monstro é mais grave: pessoas normais são capazes de torturar”, diz Cid, tão torturado no DOI que reconhecia o suplício pelo tipo de gemido da vítima.

 

Polêmico? Pois fica ainda mais quando Cid se recorda no livro de um oficial do DOI, cujo nome preserva, que, em 17 de junho de 1970, no avião que levava para Argel os 40 presos políticos libertados em troca do embaixador Ehrenfried Von Holleben, da Alemanha Ocidental, sequestrado pela guerrilha urbana, sentou-se a seu lado. Em certo momento, disse mais ou menos o seguinte: “Você viu que não participei dos teus interrogatórios. Sou muito violento e gostei de você. Eu te respeito”. Já na capital argelina, outro ex-preso, Apolônio de Carvalho, do PCBR, cuja bravura no enfrentamento dos verdugos era venerada na guerrilha, contou-lhe outro episódio envolvendo o mesmo oficial. Um dia, ele quis tirar Apolônio da cela para algo que era proibido para os presos: um banho de sol de uma hora.

 

“Você é mais velho, está machucado, e eu respeito a tua coragem”, disse o torturador, antes que o dirigente do PCBR, diante da informação de que só ele teria o benefício, recusasse o privilégio. Para o autor, o gesto do militar era sinal claro de admiração pela coragem de Apolônio, típica da formação militar (o pai de Cid era do Exército). “Como se (o torturador) dissesse: ‘O cara é inimigo, se for o caso vou matá-lo, mas eu o respeito.”

 

Cid avalia que, quando foi preso, o sistema de repressão ainda não se profissionalizara totalmente. Isso permitia que se desenvolvessem relações pessoais entre torturadores e alguns torturados, uma espécie de elite dos presos políticos. “Era o cara que vinha e dizia: ‘Olha, você é um cara legal, não vou perguntar nada que leve à prisão de alguém. Tudo bem?’”, narra ele. Havia ainda recrutas que conversavam com os presos e identificaram torturadores pelos nomes.

 

O ex-guerrilheiro também surpreende ao falar do médico Amilcar Lobo, que participou das torturas e foi demonizado pelas esquerdas. “Considero que, nessa ocasião, nossa postura em relação a Lobo foi errada politicamente, além de ter sido desumana”, diz, no livro. “Houve algo de vendeta em nosso comportamento. Lobo já era um farrapo e, ainda assim, foi acossado. Teria sido mais humano, e mais produtivo do ponto de vista de se desvendar o que aconteceu nos porões da ditadura, se lhe houvéssemos estendido a mão, compreendêssemos sua angústia e o amparássemos.” Isso apesar de ter tido pontos na cabeça costurados sem anestesia pelo médico – no DOI, Dr. Carneiro -, que também lhe administrou pentotal na tentativa de fazê-lo abrir informações.

 

“Os torturadores devem ser punidos”, insiste Cid. “Eu numa boa anistiaria quem me torturou. Só não anistiaria porque o futuro da tortura está ligado ao futuro do torturador. É uma questão política, não pessoal.”

 

Não que o jornalista releve tudo. No livro, ele recorda que em 1989, no segundo turno das eleições presidenciais, bebia com amigos no Bar Amarelinho, na Cinelândia, no Centro do Rio, e precisou ir ao banheiro. Lá, no mictório, encontrou o policial Luiz Timóteo, torturador que se jactava de dar choques nos pênis dos presos. Dezenove anos antes, submetera o autor ao tratamento.

 

“Ficamos os dois, lado a lado, no mictório. Não havia mais ninguém. Olhei fixamente para seus olhos e perguntei: ‘Está lembrado de mim, Timóteo? Sou o Cid.’

 

‘Estou, sim’, ele respondeu, visivelmente receoso do que eu pudesse fazer.

 

‘Quem diria, hein. Você cansou de me dar choques no pau e, agora, o Lula vai ser eleito presidente da República.’

 

‘Vamos ver, vamos ver’, disse, cauteloso.

 

‘As coisas mudam, não é?’, retruquei, antes de voltar para a minha mesa.”

 

Para as “viúvas da luta armada”, Cid reservou uma avaliação de que o caminho da guerrilha foi um equívoco, pela impossibilidade de vitória. Mas não deixou de admitir que o sequestro de Elbrick foi um “gol de placa”. E revela detalhes novos sobre o caso. Em meio à ação, conta, recebeu o apoio do pai, o oficial do Exército da reserva Nei Benjamin, janguista não ativo, que lhe enviou sua pistola de oficial, com a numeração raspada. Depois, quando foi preso (e, mais tarde, seu irmão César), Nei usou seus contatos militares para ajudá-los. Furtou na Bahia uma ficha que comprovava a prisão de César e, quando Cid estava no Dops, apoiou-o quando resistia a assinar depoimentos, dizendo-se orgulhoso de seu comportamento.

 

A recusa mandou Cid para a solitária, o “ratão”, cela estreita, onde só podia dormir na diagonal e à qual voltou mais de 30 anos depois, para fotografias. Mesmo preso no Dops, ajudou a elaborar a lista de presos a serem libertados em troca de Holleben (recebeu o pedido de nomes em um maço de cigarros). Já esperava o sequestro – o MR-8 preparava a ação, que acabou executada pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). No exterior, passou nove anos e três meses por Argélia, Cuba (onde treinou guerrilha), Chile (de onde saiu depois do golpe), México e Suécia.

 

Assumidamente emocional, Cid revela no livro que chorou no dia do último comício de Lula em 1989 e de novo no dia da posse do presidente, em 2003, embora àquela altura já não acreditasse no velho PT. Poucos anos depois, porém, ao investigar o assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, e obter informações que levavam a um esquema de corrupção ligado ao partido e a outros homicídios, não reconheceu o partido que ajudara a construir.

 

“Contei a dois amigos de confiança – ambos do PT, diga-se – o que tinha apurado”, relata, no livro. “Eles ficaram estupefatos. De um deles veio a sugestão: que eu gravasse as informações em CDs, os distribuísse para amigos, deixando claro que, se me acontecesse algo estranho – como morrer em um assalto na rua, por exemplo – as informações viriam à tona. Um terceiro amigo, também do PT, tinha audiência com um ministro todo-poderoso daí a alguns dias. Pedi que ele lhe desse o recado, o que foi feito (…) Não deixou de ser surpresa quando soube que a resposta tinha sido: ‘Tudo bem’. Confesso que esperava algum tipo de protesto. A advertência que fiz era também uma insinuação.”

 

Cid ressalta que não acredita em participação da cúpula do PT nos homicídios. Faz, porém uma impiedosa crítica ao partido.

 

“O PT diz que seus governos são melhores que os anteriores. É verdade”, afirma. “Mas não contribuem para a transformação social.” Para Cid, durante os governos petistas “a política se avacalhou mais”. “Mesmo o pessoal que vota na Dilma tem uma percepção pior da política, de malandragem, de sacanagem… O ciclo do PT pode ter se esgotado”, analisa o agora militante do PSOL.

 

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