Carlos Minc, um ministro performático

Um ministro performático

Por Eugênio Bucci

Mais que um novo personagem, o que invadiu a Esplanada dos Ministérios esta semana foi um estilo desconcertante – e de alto impacto. Comecemos recapitulando os atos recentes.

Já na semana passada, no dia 14, quando seria confirmado como o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc estava em Paris. De lá deu uma entrevista ao Jornal da Globo. Para demonstrar como era ingrata a pasta que lhe confiavam, trouxe à baila o nome de Blairo Maggi, que, além de plantar soja e governar o Mato Grosso, apóia o governo Lula: “Você pega o governador do Mato Grosso, ele próprio o maior produtor de soja do mundo, com a polícia na mão dele, e se deixar ele planta soja até nos Andes, então não é mole.”

A declaração não chegou a ser um desastre ambiental, mas abalou o equilíbrio ecológico da coalizão governista. O mal-estar prosseguiu quando Maggi, em nota, assegurou não possuir nem terras nos Andes nem o posto de maior produtor do planeta. Desde então, as declarações de Carlos Minc não saem das manchetes.

Na segunda-feira, dia 19, ele desembarcou espetacularmente em Brasília: “Tremei, poluidores, tremei!” Quem tremeu foram as redações. A frase repercutiu em toda a imprensa e, ainda ontem, virou título de editorial no Estado. Na mesma segunda, ao se despedir dos repórteres, lançou outra palavra de ordem: “Saudações ecológicas e libertárias!” Performático, sem dúvida. Ele mesmo cuidou de avisar: “Vou ser performático na defesa do meio ambiente. Não vou virar vidraça e nem me enforcar na gravata.”

Mas o que será que significa isso, um ministro performático?

O adjetivo é recente nos dicionários. Segundo o Houaiss, a palavra nasceu por volta de 1970, no mundo das artes. Performáticos eram os artistas que, nas décadas de 70 e 80, montavam aqueles espetáculos high-tech misturando música, dança, vídeos e efeitos especiais diversificados, como os shows comandados pela americana Laurie Anderson. Depois, o vocábulo caiu na boca do povo. Atualmente, pode-se dizer que qualifica o estilo de quem sabe atrair a toda hora os holofotes e se afina com bandeiras da chamada pós-modernidade. Um bom sinônimo para performático – deveria entrar nos dicionários – é Carlos Minc. Suas opiniões sobre outras matérias comportam controvérsias, mas, quanto à aplicação do adjetivo a si mesmo, está coberto de razão. Ninguém é mais performático do que ele.

A intelectual americana Camille Paglia disse certa vez que só vale a pena falar a língua das manchetes. Performática quando quer, ela sabe dar às suas próprias palavras a mais estridente visibilidade. É o que faz o novo ministro. De coletinho folgado e cabelos longos, ainda que ameaçados de extinção, o homem é um happening midiático, uma metralhadora de sentenças bombásticas. Comparado à sua antecessora, a discreta Marina Silva, um símbolo da causa, que lembra uma orquídea em sua exuberância frágil, Carlos Minc está mais para uma motosserra ensandecida varrendo uma plantação de soja. Nele tudo conflui para a comunicação trepidante: suas roupas, seu penteado e seu vocabulário se unem em mensagens concentradas de grande efeito. O que, se é novo em Brasília, não é exatamente uma novidade no campo da ecologia.

Um dos pioneiros na matéria foi justamente o Greenpeace. Entrar com um barquinho inflável na frente de um baleeiro em alto mar é o que há de performático. Essas encenações a céu aberto juntam estética e política em alta temperatura jornalística. Inspiradas nas intervenções urbanas tramadas por artistas plásticos nos anos 70, elas combinam, de forma indissociável, o ato de comunicar ao ato político em si. Traduzindo: o ato político – barrar o curso de um baleeiro para impedi-lo de matar baleias – e o ato de comunicação – mostrar ao mundo inteiro que se quer protestar contra as baleias – se fundem num único ato de protesto. O Greenpeace fala a língua do espetáculo e, ao mesmo tempo, ataca a ordem estabelecida.

Ser performático – na política ou em qualquer outro campo – é próprio dos que precisam desesperadamente se manter nos noticiários. Num tempo dominado pelas imagens estarrecedoras, pelas falas cortantes e pelos gestos escandalosos, ser performático é vital para quem não vive sem aparecer – ou para quem depende de aparecer para poder agir.

Para um ministro, porém, a opção preferencial pela linguagem performática acarreta complicações. É verdade que, ao romper com formalidades vazias (como as gravatas que enforcam), Minc espana o pó dos velhos ritos, o que tem um efeito positivo. Suas performances poderão constranger os articuladores de operações sombrias e os senhores das devastações clandestinas, e isso seria muito bom. Por outro lado, sendo um representante do governo e, portanto, do poder, ele se encontra obrigado a observar algumas regras “caretas”, como a regularidade e todos os imperativos da rotina administrativa – coisas que provocam alergia nos mais radicais. Um ministro de Estado, enfim, não tem como ir muito longe em sua vertente performática.

Sem querer desanimar ninguém, é bom lembrar que, na democracia, o Estado não se pode pretender teatral. Muito menos performático. Quanto menos estetizado ele for, mais impessoal e mais universal será. O poder democrático deve primar pela constância, pela previsibilidade e pela serenidade. Sem isso os cidadãos, as empresas e as instituições não têm parâmetros para prosperar. Aliás, com as árvores também é assim. Para germinar, crescer, florir e dar frutos, elas dependem da regularidade dos ciclos da natureza. A gritaria ecológica cumpre sua função civilizadora, mas até as árvores precisam de um pouco de sossego.

Eugênio Bucci é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (USP) e colunista do Observatório da Imprensa. Artigo publicado no Estadão.
 

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