TCE - NOVEMBRO 2

Caetano Veloso é a atração cultural do fim de semana, em Cuiabá. Sábado, Caetano apresenta, na Musiva, o show “Abraçaço”. Escrevendo sobre o disco do “artista de alma septuagenária”, Josiane Dalmagro identificou, nas canções, “melancolia, cansaço, desistência e a fadiga de um Caetano um pouco amargo”

Caetano Veloso grava vídeo convidando cuiabanos para seu show na Musiva

Stéfanie Medeiros
OLHAR CONCEITO

Caetano Veloso, gigante da história da música brasileira, vem a Cuiabá neste dia 2 de agosto (sábado) para uma noite memorável na casa de festas Musiva. Para convidar os cuiabanos para seu grande show, o músico gravou um vídeo.

O show que Caetano traz para Cuiabá é o “Abraçaço”, como diz o músico no vídeo. Este é o álbum que fecha sua trilogia com a BandaCê. Como os dois primeiros, foi produzido a quatro mãos por Moreno Veloso e Pedro Sá. Mas sua temática acabou por se revelar mais abrangente do que os planos iniciais de Caetano.

A batida de seu violão está presente na maior parte das músicas que o compõem, mas essa é apenas umas das conversas do disco. O próprio título, tirado da faixa “Um Abraçaço” – expressão que o cantor usa para finalizar alguns e-mails e sugere, segundo ele, não só um abraço grande, mas um abraço espalhado, abrangente ou múltiplo – confirma essa ideia de conceito alastrado. “Abraçaço” já é, portanto, o pós-tudo do que foram o adolescente “Cê” e o maduro “Zii e Zie”.

A conversa de “A Bossa Nova É Foda”, faixa que abre o disco num soco (como Caetano costuma abrir seus discos), passa por João Gilberto. Mais do que um violonista ou um cantor, ele é ali o “bruxo de Juazeiro”, o promotor da reinvenção do Brasil.

A letra de Caetano fala no “velho transformou o mito das raças tristes em Minotauros, Junior Cigano, em José Aldo, Lyoto Machida, Vítor Belfort, Anderson Silva e a coisa toda”. É a ideia do homem que nasce destinado a fraquejar, mas se faz campeão de UFC – que reverbera, em algum sentido, o discurso de Jorge Mautner, que vê o Brasil como criador de uma “Coisa Nova” onde o todo o planeta poderá beber. Também dialoga com a teoria de Tom Zé, segundo a qual o nosso país começou o ano de 1958 como exportador de matéria-prima, “o grau mais baixo da aptidão humana”, e, a partir da invenção musical de João, terminou o mesmo ano exportando arte ao mundo, “o grau mais alto da aptidão humana”.

Serviço

Show Abraçaço, de Caetano Veloso
Local: Musiva
Quando: 02/08/2014
Horário: 23:00
Realização: Musiva

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A jornalista e blogueira cuiabana Josiane Dalmagro e o cantor e compositor Caetano Veloso, que estará em Cuiabá neste sábado (2)

A jornalista e blogueira cuiabana Josiane Dalmagro e o cantor e compositor Caetano Veloso, que estará em Cuiabá neste sábado (2)

 

 

OPINIÃO

Estou triste, tão triste. Mas hoje mando aquele abraçaço!

 http://www.cuiacult.com.br/2013/02/estou-triste-tao-triste-mas-hoje-mando-aquele-abracaco-2/

 

 

Depois de um Cê marcado pela influência do rock raivoso, em Zii e Zie ele mostrou uma construção melódica mais característica das levadas “caetanísticas”, com o que foi nomeado de “transamba”, mas sem abandonar a ideia inicial.

No álbum, que em teoria, fecha a trilogia de Caetano com a banda Cê, o Abraçaço, lançado recentemente, ele mostra um pouco mais de uma alma septuagenária.

Frases pinceladas em partes diversas das letras todas mostram melancolia, cansaço, desistência e a fadiga de um Caetano um pouco amargo, como em “Vinco”: “Entre teus pés, teus pés outrora doces. Hoje amargados de asperezas-passos”, ou em “Funk Melódico: “Você produz raiva, confusão, tristeza e dor. Prova que o ciúme é só o estrume do amor”.

Porém os grandes destaques do novo disco são, sem dúvida três canções: Estou triste, Um abraçaço, mesmo nome do álbum, e A bossa nova é foda.

Em A bossa nova é foda ele faz uma analogia da dualidade leveza/peso, quando fala de um estilo musical considerado tão suave e doce e um estilo de luta pesada (MMA, citando lutadores como Anderson Silva e Vitor Belfort). O que ele quer dizer, ao entendimento de quem vos fala, lembra o renomado escritor Milan Kundera, quando ele diz que toda essa leveza na verdade é muito pesada. A bossa nova não é tão suave assim, pelo contrário, o seu peso e densidade são enormes e sentidas profundamente por Caetano, que viveu suas alegrias e tristezas intensamente.

“Um amasso, um beijaço, meu olhar de palhaço, seu orgulho tão sério. Um grande estardalhaço, pro meu velho cansaço, do eterno mistério”, são aquelas velhas tentativas vãs de entendimento desentendido. No fim o que sobra é “tudo que não deu certo e que não tem conserto”.

Agora, sem dúvida, a canção “Estou tão triste” faz jus ao seu nome e chega a deixar quem a escuta com essa sensação. Essa capacidade é singular! Ela mostra um Caetano desolado, desistente e como ele diz na letra: “vazio e ainda assim farto”, sozinho no “lugar mais frio do Rio”, seu próprio quarto.

O disco todo passa aa sensação de alguém que usou muitas palavras, sentiu de um tudo e colocou isso de tantas formas no papel e na música que ficou “exasperado”. Como alguém que já não tem pressa e nem passo e desistiu.

O desespero fica claro na repetida frase de “Parabéns”, “Tudo mega bom, giga bom, terá bom”. O álbum é uma vontade de que tudo deixe de ser essa repetição infinita de tristeza e sofrimento.

 

Josiane Dalmagro é jornalista em Cuiabá

Categorias:Cidadania

2 Comentários

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  1. - Responder

    Melancolia, cansaço, sim. Amargura, não. O amargo foi pinçado para reforçar uma ideia equivocada. Exemplo: ao citar Funk Melódico: “Você produz raiva, confusão, tristeza e dor. Prova que o ciúme é só o estrume do amor”. Caetano está na verdade a responder a uma canção de Vinícius de Moraes, que diz ser o ciúme o perfume do amor. Ciúme, o estrume do amor: nada mais caetano, coerente com sua discografia. Ave, Caetano..

  2. - Responder

    Josi, sua linda!

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