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Brasil perdeu um grande brasileiro: Osiris Lopes Filho. Osiris se destacava por sua inteligência, sua honradez, seu preparo técnico e sua capacidade de argumentar

Osiris Lopes Filho
Por Paulo Nogueira Batista Jr

NA SEMANA retrasada, perdi um grande amigo e o país perdeu um brasileiro extraordinário: Osiris Lopes Filho (foto), auditor fiscal e ex-secretário da Receita Federal. Como disse Eduardo Suplicy, em pronunciamento no plenário do Senado, Osiris foi um dos mais brilhantes servidores públicos do Brasil. Ele se destacava por sua inteligência, sua honradez, seu preparo técnico e sua excepcional capacidade de argumentar.
Osiris não tinha paciência com a superficialidade de muitos debates sobre a questão tributária no Brasil.
Poucos se arriscavam a discutir com ele. Com humor e ironia, e às vezes com certa veemência, ele costumava destroçar mitos e opiniões superficiais sobre reforma tributária.
Como secretário da Receita Federal no governo Itamar, Osiris marcou época. A sua obsessão era o combate à sonegação. Promoveu o fortalecimento da administração tributária e aumentou a arrecadação sem criar novos tributos ou aumentar as alíquotas de tributos existentes.
Osiris pediu demissão em 1994, quando o impediram de cobrar os impostos devidos sobre uma grande quantidade de produtos comprados no exterior pela seleção brasileira de futebol, que voltava dos EUA com o tetracampeonato.
Durante a sua gestão, Osiris não poupou os ricos da fiscalização. Determinou, por exemplo, a investigação de sinais exteriores de riqueza, como propriedades de luxo, iates e aviões, confrontando-os com a renda declarada ao fisco.
Nem preciso dizer que Osiris nunca foi popular com a turma da bufunfa. Por outro lado, era muito respeitado pela opinião pública e pelos especialistas em tributação. Foi o mais votado para o cargo de secretário da Receita Federal, em eleições organizadas pelo sindicato dos auditores fiscais, em 2007.
Depois que me mudei para os EUA, falávamos com menos frequência. Estive com ele uma última vez, em setembro do ano passado, em Brasília. Ele me pareceu muito abatido e bastante envelhecido.
Creio que nunca se recuperou totalmente da morte de um dos seus filhos. Mas conversamos bastante e almoçamos juntos. Ele, como sempre, deu-me conselhos e orientações, tudo naquele tom irônico e gozador, tão característico dele. E me disse algumas coisas significativas, que um dia talvez possa revelar.
Osiris era um amigo leal, amigo de hora difíceis. Por exemplo, quando o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, atual vice-ministro das Relações Exteriores, ficou em total ostracismo no governo FHC, Osiris o acolheu, dando a ele sala, computador e secretária, no seu escritório de advocacia, em Brasília. De lá, Samuel continuou lançando os seus petardos contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e outras barbaridades da política externa daquela época.
Barbosa Lima Sobrinho dizia que o Brasil sempre teve dois partidos: o partido de Tiradentes e o partido de Joaquim Silvério dos Reis. Nacionalista apaixonado, Osiris foi um destacado integrante do partido de Tiradentes, que fica agora irremediavelmente desfalcado.
Vou sentir muito a sua falta. Estou escrevendo este artigo com o coração pesado, com a sensação de que o tempo foi passando e eu não consegui dar a esse amigo, que agora se foi para sempre, a atenção, o convívio e o apoio de que ele precisava, especialmente depois da morte do filho.
Nunca se deve adiar um gesto de amizade. Lamento não tê-lo encontrado mais vezes nas viagens que fiz a Brasília, desde que fui trabalhar em Washington.
Estou em Brasília neste momento. Vou procurar Eduardo Suplicy e Samuel Pinheiro Guimarães para matar um pouco a saudade desse nosso grande amigo comum e grande servidor do Estado brasileiro -Osiris Lopes Filho.

 

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PAULO NOGUEIRA BATISTA JR., 53, escreve às quintas-feiras nesta coluna. Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago).

pnbjr@attglobal.net

Fonte Folha de S. Paulo

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