TCE - DEZEMBRO

BLOGUEIRO LUIS CARLOS AZENHA: Dilma vira a mesa ao denunciar vazamento; a quem interessava divulgar a falsa delação premiada de Delcídio do Amaral? Nesta quinta-feira, o país passou uma longa jornada horas às voltas com um conto do vigário que pretendia vender gato por lebre, aquecendo a temperatura política a partir de um episódio em que havia muita fumaça e pouco (quem sabe nenhum) fogo

Dilma vira a mesa ao denunciar vazamento; a quem interessava divulgar a falsa delação premiada de Delcídio do Amaral?

Captura de Tela 2016-03-03 às 19.26.06

por Luiz Carlos Azenha, no Viomundo

O vazamento da falsa delação premiada do senador petista Delcídio do Amaral é lance de House of Cards.

O procurador-geral Rodrigo Janot classificou de “ato jornalístico”, não jurídico.

Isso não significa que não haja uma minuta de delação ou o simples registro escrito do que Delcídio teria dito a investigadores depois que foi preso por tentar atrapalhar a Operação Lava Jato, com autorização do STF referendada pelo Senado.

Janot confirmou que nunca foi homologada delação premiada do ex-líder do governo Dilma no Senado. Ou seja, o que quer que ele tenha dito por enquanto não tem valor jurídico, mas político.

Na reportagem da IstoÉ, assinada por Débora Bergamasco, consta que ele pediu seis meses de sigilo sobre seu depoimento.

Por que? É o tempo com o qual Delcídio contava para se livrar da cassação no Senado. Como? Através da chantagem de colegas. “Se me cassarem, levo metade do Senado comigo”, teria dito o senador quando ainda estava na cadeia.

Ao defender o governo Dilma, o ministro Jaques Wagner usou o argumento da Escola Base: “Esse fato é intolerável em um estado democrático de direito. É feito um linchamento público seja de quem for para, depois, alguém dizer que não valeu, até porque ela deveria estar protegida por sigilo. Eu entendo que a delação perdeu o seu valor de fato, do ponto de vista do processo judicial, e virou a execração pública, para depois algum provar algo diferente”.

Por sua vez, o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, também enfatizou a manobra política: “Nós recebíamos muitos recados, inclusive alguns foram publicados na imprensa. Falava-se que se governo não agisse pra tirá-lo da prisão, ele faria retaliações. Eu não sei dizer se há delação premiada, mas se efetivamente houve, há forte possibilidade de ser retaliação, até porque isso foi anunciado previamente. Se o governo não fizesse nada, ele retaliaria”.

O que está em jogo é muito: a destituição e possível prisão da presidente da República e do ex-presidente Lula!

Chama a atenção o fato de que o vazamento tenha acontecido através de um canal pouco acionado pela Força Tarefa da Lava Jato, que invariavelmente prioriza a revista Veja e o Estadão. Será que a IstoÉ se antecipou à concorrência, que pretendia fazê-lo mais perto das manifestações previstas para 13 de março? É uma hipótese a considerar, quando sabemos que a autora da reportagem é muito próxima do ex-ministro Cardozo e o vazamento aconteceu logo depois dele trocar o Ministério da Justiça pela Advocacia Geral da União.

Informação é poder e o timing da divulgação, politicamente, mais ainda.

1. O próprio Delcídio pode ter vazado? Sim, emitindo um sinal de que se tiver o mandato salvo no Senado, pelo PMDB e PSDB, pode devolver o favor derrubando Dilma e prendendo Lula. Por outro lado, ele perde consideravelmente o poder de chantagem, já que qualquer mudança ou nova versão dada ao que foi publicado pela IstoÉ enfraquece a credibilidade do delator.

2. Alguém ligado à Lava Jato ou à oposição pode ter vazado? Sim, já que isso turbina as manifestações de 13 de março. Pode ser também uma forma de constranger o Supremo a homologar logo a delação do senador petista. Mas, como existe o risco de desgastar o papel de Delcídio como delator, fica a dúvida.

3. O próprio governo poderia ter se adiantado para desarmar armadilha de Delcídio? Possível. Seria uma forma de tirar dele o poder de chantagem e esvaziar o timing do juiz Moro e/ou da oposição. É razoavelmente conhecida a tática de furar o balão informativo alheio. O conteúdo de outro “vazamento” recente, que dava conta da quebra de sigilo de Lula e de toda a sua família, não se concretizou. Nada melhor que o vazamento de uma falsa delação premiada para desmoralizar futuros vazamentos, mas é óbvio que o conteúdo da IstoÉ enfraquece Dilma, Lula e o PT, já que ao longo do dia o conteúdo foi transformado em verdade absoluta pela mídia.

Abaixo, a nota do senador Delcídio do Amaral, que traz um adendo revelador: ele reitera o seu “comprometimento com o Senado da República”. “Comprometimento”!

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Em respeito ao povo brasileiro e ao interesse público, o Senado Delcídio Amaral e a sua defesa vêm se manifestar sobre a matéria publicada na Revista IstoÉ na data de hoje.

À partida, nem o Senador Delcídio, nem a sua defesa confirmam o conteúdo da matéria assinada pela jornalista Débora Bergamasco.

Não conhecemos a origem, tampouco reconhecemos a autenticidade dos documentos que vão acostados ao texto.

Esclarecemos que em momento algum, nem antes, nem depois da matéria, fomos contatados pela referida jornalista para nos manifestarmos sobre fidedignidade dos fatos relatados.

Por fim, o Senador Delcídio Amaral reitera o seu respeito e o seu comprometimento com o Senado da República.

SENADOR DELCÍDIO AMARAL
ANTONIO AUGUSTO FIGUEIREDO BASTO

*****

Leviandade premiada contra Delcídio

 

:

Logo depois de tomar conhecimento da reportagem da revista Istoé anunciando que Delcídio do Amaral fizera uma delação premiada que comprometia Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula Silva, enviei um pedido de entrevista a um dos principais assessores do senador. A resposta chegou pelo whatspp às 10h53, fazendo referências diretas à reportagem que seria o grande assunto do dia:

— Não estou em Brasília. Estamos preparando uma nota, obviamente, negando!

Publicada em seguida como manchete do Brasil 247, a informação de que o senador Delcídio do Amaral preparava um desmentido que mudaria a história do dia passou cinco horas e 49 minutos no portal, enfrentando, solitariamente, uma avalanche de notícias que tratavam a reportagem da Istoé como expressão de fatos verdadeiros. A Bolsa de Valores subiu. A oposição tentou engrossar o coro do impeachment. Recém empossado como o Advogado Geral da União, o próprio José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça por cinco anos e três meses, deu declarações infelizes, nas quais dava crédito a reportagem da Istoé e colocava em questão a credibilidade de Delcídio.

A nota anunciada chegou, pelo mesmo whatsapp, cinco horas e 49 minutos depois de ter sido informada ao 247 pela assessoria de Delcídio. “À partida, nem o senador Delcídio nem a sua defesa confirmam o conteúdo da matéria da jornalista Debora Bergamasco” diz o pequeno texto, assinado pelo próprio Delcídio e pelo advogado Antonio Augusto Figueiredo Basto, o principal cérebro jurídico por trás das delações premiadas da Lava Jato, e que chegou a reunir-se com o senador logo após sua prisão, em novembro de 2015. “Não conhecemos a origem tampouco reconhecemos a autenticidade dos documentos que vão acostados ao texto,” acrescenta a nota, para completar: “Esclarecemos que em momento algum, nem antes nem depois da matéria, fomos contatados pela referida jornalista para nos manifestar sobre a fidedignidade dos fatos relatados.”

Apesar do tom prudente, evitando adjetivos categóricos, a nota tem o valor de afirmar pontos essenciais. O primeiro: aquele texto publicado pela Istoé pode ser o rascunho preliminar de uma oferta de delação premiada negociado por Delcídio do Amaral logo após sua prisão, quando audiências do senador com Figueiredo Basto chegaram aos jornais. Pessoas próximas que tiveram acesso ao senador, nos primeiros dias após a prisão, guardam a imagem de uma pessoa próxima do desespero, que sentia-se desamparada, vítima ideal de técnicas conhecidas de coerção psicológica.

Mas também pode ser uma versão unilateral, confeccionado por uma das partes — réu, advogado, ministério público — envolvida nas negociações, sem o aval indispensável dos demais.

Em qualquer hipótese, o ponto fundamental é o seguinte: não se trata de uma delação premiada nem merece ser tratada como tal. Isso porque este tipo de documento expressa um acordo de valor jurídico preciso, que deve ser avalizado pelo principal interessado — o delator — e referendado pelo Ministério Público e pela Justiça. Nada disso ocorreu com o documento divulgado pela revista.

Pior. A repercussão desse texto de paternidade incerta e natureza indefinida só pode ser explicada por um traço de comportamento comum em boa parte dos veículos de comunicação envolvidos na cobertura Lava Jato — a capacidade para publicar uma denúncia sem um esforço indispensável para separar os fatos comprovados das versões interesseiras. Nesta quinta-feira, o país passou uma longa jornada horas às voltas com um conto do vigário que pretendia vender gato por lebre, aquecendo a temperatura política a partir de um episódio que havia muita fumaça e pouco (quem sabe nenhum) fogo.

O triste resultado é que no fim do dia, os telejornais e a maioria dos portais falavam de cara limpa, sem qualquer autocrítica ou retificação, nas “denúncias de Delcídio” ou na “delação premiada do senador”. Bastaria ter aguardado por uma curta nota divulgada no fim da tarde para compreender que não se tratava nem de uma coisa nem de outra. Mesmo quem estivesse convencido de que tudo o que se podia ler na revista tinha como base a palavra do senador, sem qualquer alteração, edição ou montagem, tinha obrigação de conferir o que lhe era atribuído. Chamar o texto de “delação premiada” implicava em lhe dar uma credibilidade que não possuía nem merecia. Como esclareceu o PGR Rodrigo Janot, não era um documento jurídico, mas “uma reportagem.”

A pressa está na origem de muitas reputações enterradas no cemitério do mau jornalismo do mundo inteiro. A fé cega em fontes que à primeira vista se mostram confiáveis explica vexames históricos, como a Escola Base, em São Paulo. Este caso tem um agravante particular, explicável pela conjuntura política: a vontade de alimentar de qualquer maneira a pressão contra Dilma e contra Lula. Este é o fator que explica o clima de circo incapaz de responder a uma singela nota de 14 linhas.

NOTA OFICIAL NO BLOG DO PLANALTO

Todas as ações de meu governo têm se pautado pelo compromisso com o fortalecimento das instituições de Estado, pelo respeito aos direitos individuais, o combate à corrupção e a defesa dos princípios que regem o Estado Democrático de Direito. Nós cumprimos rigorosamente o que estipula a nossa Constituição.

Em meu governo, a lei é o instrumento, o respeito ao cidadão é a norma e a Constituição é, pois, o guia fundamental de nossa atuação.

Por isso, à luz de nossa lei maior defendemos o cumprimento estrito do devido processo legal. Os vazamentos apócrifos, seletivos e ilegais devem ser repudiados e ter sua origem rigorosamente apurada, já que ferem a lei, a justiça e a verdade.

Se há delação premiada homologada e devidamente autorizada, é justo e legítimo que seu teor seja do conhecimento da sociedade. No entanto, repito, é necessária a autorização do Poder Judiciário.

Repudiamos, em nome do Estado Democrático de Direito, o uso abusivo de vazamentos como arma política. Esses expedientes não contribuem para a estabilidade do País.

Dilma Rousseff, Presidenta da República do Brasil

—-

MAIS INFORMAÇÃO

O rescaldo da delação de Delcídio

Luis Nassif, em seu blogue

Nesses tempos de informação online, há uma tendência massacrante de pretender produzir notícias de imediato, em resposta à fatos explosivos.

É bom separar fatos objetivos, deduções e factoides.

O que se pode dizer:

Sobre a delação

O texto da suposta delação é verossímil. Tudo indica que é real.

As discussões sobre se é delação ou não são porque, para se tornar delação, depende da aprovação do Ministro Teori Zavascki, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Qual o motivo do vazamento? Ou é o Procurador Geral da República (já que a delação foi feita a ele) pretendendo vazar o relato para pressionar Teori; ou são pessoas visando anular a delação por quebra de sigilo.

Sobre o papel de Delcídio

Delcídio é personagem chave de toda a estratégia política do governo no Congresso. A base era composta pelo PT, por parcela do PMDB – incluindo seus principais operadores. E o botim era mais amplo, dividido também com parlamentares do PSDB, como o senador Aécio Neves (vide Furnas). Delcídio era o operador mor desse esquema. Conhece todos os podres não apenas da sua base como do Congresso.

Com a reeleição, Dilma Rousseff investiu vigorosamente contra o esquema, precipitando, aliás, a crise política. Portanto, jamais viu Dilma com bons olhos.

Sobre o direcionamento da delação

As fontes da revista preocuparam-se em informá-la que a delação atinge parlamentares de todos os partidos, para salientar sua suposta isenção. Nenhum prócer do PSDB, nem do PMDB – Renan, Temer e muito menos Aécio Neves, do PSDB –, nenhum de seus grandes parceiros aparecem na delação.  Apenas pequenos chantagistas do baixo clero, como o deputado Francischini.

Sobre a qualidade das denúncias

A maior parte das supostas denúncias refere-se a rumores já disseminados através da mídia, dentro da guerra de informações da qual delegados e procuradores tornaram-se vozes (em off) ativas.

Relata a preocupação de Dilma com a prisão de dois presidentes de empresas-chave para o país. E duas tentativas de cooptar candidatos a Ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) para sua libertação. Ambas as supostas tentativas circulavam em forma de boato pela mídia. Aconteceu a interferência? Não, porque um não aceitou a indicação e o outro renunciou à relatoria.

Ou a reunião de Lisboa, entre a presidente Dilma, o Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski para comprometer as investigações. Houve algum ato concreto? Não, porque Lewandowski não teria aceito, porque o candidato ao STJ não aceitou etc.

É provável que o relato tenha se dado sob forma do questionário induzido: “Você sabia se houve uma reunião assim, assim, assado, em que se tentou tal e tal coisa? “. É o interrogado se limita a responder que: “Sabia”.

A melhor maneira de tirar a prova do pudim seria, em algum momento do futuro, o PGR divulgar a gravação do interrogatório. E divulgar a íntegra para saber se, mais uma vez, houve a blindagem de Aécio na delação ou apenas na edição da IstoÉ.

Sobre os R$ 50 mil a Cerveró

Delcídio foi flagrado oferecendo R$ 50 mil mensais a Cerveró. Está sendo processado pelo crime de suborno. Pela conversa grampeada pelo filho de Cerveró, sabia-se que Delcídio tinha uma relação histórica com ele. O maior prejudicado pela delação de Cerveró seria o próprio Delcídio. Na delação, Delcídio diz que quem mandou pagar foi Lula.

Sobre Pasadena

“Acusa” Dilma de conhecer as tais cláusulas polêmicas, que, segundo o próprio Delcídio, seriam absolutamente normais em contratos daquela natureza. Se eram normais, a única acusação que pesaria contra Dilma é o da ignorância de apresentar como suspeitas cláusulas normais.

Mas, pela relevância de Delcídio na base de apoio, não se deve desqualificar de antemão todo o seu relato.

FONTE BLOG DO LUIS NASSIF

——–

Lula entuba a IstoÉ e a suposta delação

A sociedade brasileira não pode mais ficar à mercê de um jogo de vazamentos ilegais, acusações sem provas

lula___________________phixr.jpg

“O ex-presidente Lula jamais participou, direta ou indiretamente, de qualquer ilegalidade”

Do Instituto Lula:

Nota sobre acusações publicadas na revista IstoÉ

São completamente falsas as acusações feitas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em matéria publicada hoje (3) pela revista IstoÉ.

O ex-presidente Lula jamais participou, direta ou indiretamente, de qualquer ilegalidade, antes, durante ou depois de seu governo, seja em relação aos fatos investigados pela Operação Lava Jato ou quaisquer outros citados pela revista.

A sociedade brasileira não pode mais ficar à mercê de um jogo de vazamentos ilegais, acusações sem provas e denúncias sem fundamento.

Assessoria de Imprensa

Instituto Lula

—–

Lula reage ao jogo nojento do “será que teve delação”?

beijoqueijo

Só num país onde a Justiça se tornou um escárnio e os vazamentos, seletivos e cheios de chantagem política passaram a ser não mais um crime, mas uma regra, se poderia viver o que se viveu hoje com a “delação-será-que-foi-será-que-não foi” de Delcídio do Amaral.

O que deveria ser sigiloso – o conteúdo da delação – não é e o que deveria, diante de uma versão, ser esclarecido ao público: se há ou não delação, vira objeto de chicanas.

Rodrigo Janot diz que “não sabe” e até o pretenso delator diz que “não confirma” os termos da delação mas deixa no ar a chantagem de “poder ter feito ou estar fazendo”, porque enquanto não homologada a delação não se consuma e pode ser “desfeita”.

É para quê, para ver se intimida ou “consegue carinho”?

Ainda que, portanto, não se saiba exatamente a que se tenha de contestar, fez muito bem Lula em reagir, pela nota divulgada por seu Instituto, que reproduzo abaixo:

“São completamente falsas as acusações feitas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em matéria publicada hoje (3) pela revista IstoÉ.

O ex-presidente Lula jamais participou, direta ou indiretamente, de qualquer ilegalidade, antes, durante ou depois de seu governo, seja em relação aos fatos investigados pela Operação Lava Jato ou quaisquer outros citados pela revista.

A sociedade brasileira não pode mais ficar à mercê de um jogo de vazamentos ilegais, acusações sem provas e denúncias sem fundamento.”.

Não pode ficar, mas está, porque temos instituições e imprensa dedicadas, como se vê, onde o que um bandido diz – ou, neste caso, dizem que ele diz – vira verdade até que se prove o contrário.

 

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

4 × três =