PREFEITURA SANEAMENTO

Excesso de processos tira Pannunzio da blogosfera

Em artigo publicado nesta quarta-feira na Folha de S. Paulo, o jornalista Fabio Pannunzio, apresentador da Rede Bandeirantes, revela que o excesso de processos judiciais o forçaram a fechar sua página na internet e condena a judicalização do debate público.  Alguns dos processos contra Pannunzio, partem aqui de Mato Grosso, movidos pelo superprocessado deputado estadual Geraldo Riva (PSD). Mesmo fazendo uma leitura à direita dos embates políticos, Pannunzio merece a nossa solidariedade e a questão que ele levanta – dos processos que tentam calar os blogueiros e cercear a liberdade de expressão – é realmente um embaraço de grande monta para que a sociedade brasileira se enriqueça a partir da multiplicidade de opiniões que se apresentem na internet.  Cabe lamentar o erro do blogueiro de tendência direitista que não se mostra capaz de uma abordagem mais ampla da realidade, deixando de trabalhar com as contradições e deixando de informar aos leitores que blogueiros que ele trata como  “blogueitos estatais” (aqueles que se posicionam à esquerda, no espectro político),  também tem sido fortemente atacados, via processos judiciais, como no caso do jornalista Paulo Henrique Amorim. A tentativa de calar os blogueiros deve ser repudiada seja quais forem os blogueiros. A democracia se faz com multiplicidade de opinião. E a verdadeira liberdade – como dizia Rosa Luxemburgo e o direitista Paulo Francis (já falecido), polemista emérito, gostava tanto de citar – é a liberdade de quem discorda de você.  Confiram o artigo de Fábio Pannunzio. (EC)

Contra a avalanche, o jornalista desiste
POR  FÁBIO PANNUNZIO

Como jornalista a serviço de empresas de comunicação, fui processado só uma vez em 31 anos de profissão -a despeito de ter trabalhado a maior parte desse tempo como repórter investigativo e de ter feito dezenas de denúncias graves. E ganhei.

Há menos de quatro anos, criei um blog dedicado à reflexão política e à denúncia de iniciativas visando sufocar a liberdade de expressão, promover ou justificar a corrupção.

Ao longo de sua existência, tornei-me alvo de uma avalanche de processos judiciais. Foram oito ao todo, que me obrigaram a gastar uma fortuna com a contratação de advogados. Como blogueiro, descobri a condição de vulnerabilidade em que se encontram dezenas de jornalistas que decidiram atuar independentemente na internet.

Jamais fui condenado, mas é fato inquestionável que o exercício das garantias constitucionais é excessivamente custoso para quem não está respaldado por uma estrutura empresarial -ou não vendeu a alma ao diabo.

Contratar advogados, pagar custas e honorários, invariavelmente caríssimos, já constitui, em si, uma punição severa, mesmo para quem fatalmente será absolvido ao final de um processo sofrido e demorado.

Foi o que me levou à decisão de parar de publicar no blog.

Os dois primeiros processos vieram do Paraná, de onde uma quadrilha de estelionatários e traficantes de trabalhadores brasileiros para os EUA conseguiu censurar o blog durante alguns meses. A prisão dos denunciados fez com que a censura se extinguisse. Não satisfeitos e embora presos, passaram a pleitear uma indenização por danos morais.

De Mato Grosso chegaram outras quatro ações. O autor é o deputado estadual José Geraldo Riva, réu em 120 processos por peculato, corrupção e improbidade administrativa. Seu mandato foi cassado duas vezes por compra de votos, mas Riva ainda preside a Assembleia Legislativa do Estado, mesmo proibido de assinar cheques e ordenar despesas.

Boa parte dos textos teve como objeto o repúdio às práticas que o STF agora condenou como crimes praticados pelos mensaleiros do PT. O foco era o desvirtuamento ético, e não a questão partidária.

Também critiquei o mata-mata na segurança pública de São Paulo, Estado governado pelo PSDB. Daí brotaram dois outros processos.

O primeiro, uma queixa-crime do ex-comandante Paulo Telhada, que acaba de ser eleito vereador em São Paulo graças à imagem que ele alimenta de matador implacável. É o mesmo acusado de incitar no Facebook a campanha que culminou em uma série de ameaças ao repórter André Caramante, desta Folha.

O segundo é uma ação por danos morais movida pelo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, que novamente pôs o blog sob censura.

Não fui o único blogueiro a ter a sua atividade jornalística impedida por uma sequência de ações judiciais. Outro caso exemplar é a mato-grossense Adriana Vandoni, do blog “Prosa & Política”. Desde 2009, a publicação está censurada judicialmente pelo mesmo José Geraldo Riva.

Não defendo prerrogativas de qualquer natureza para o jornalismo irresponsável. O exercício do jornalismo se torna deletério quando há deslizes éticos, com prejuízos enormes para quem se vê caluniado, difamado ou injuriado.

Também não me insurjo contra o direito dos ofendidos de pleitear reparação diante de distorções e erros da imprensa. O blog, aliás, sempre criticou o engajamento do jornalismo a soldo de políticos suspeitos, que atua como uma máquina de destruir reputações. Tal máquina ataca inclusive jornalistas, como Heraldo Pereira, da TV Globo, e Policarpo Júnior, da “Veja”, vítimas de uma campanha difamatória hedionda movida pela blogosfera estatal.

Minha página eletrônica nunca aceitou qualquer forma de publicidade. Era mantida exclusivamente às expensas da minha renda pessoal auferida como repórter e apresentador da Rede Bandeirantes de Televisão. O exercício da liberdade de expressão, no ambiente cultural de uma democracia que ainda não se habituou à crítica (e a confunde com delitos de opinião), desafortunadamente, se tornou caro demais.

Mas sou forçado a concordar com os que entenderam minha atitude como capitulação. Porque o silêncio compulsório, que é o que desejam os inimigos da liberdade de expressão, só fará agravar o problema.

FÁBIO PANNUNZIO, 51, jornalista, é repórter e apresentador da TV Bandeirantes

4 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 189.74.59.235 - Responder

    Umn já foi agora só falta a Perua da Adriana e o Enock. São duas doenças malditas que tem que ser eliminadas.

  2. - IP 201.71.177.57 - Responder

    Concordo com a opinião do Enock quanto a judicalização do debate público, e é lamentável que o Pannunzio passe por isso. É claro que nunca concordei com o jornalista, mas tê-lo fora do ar não me agrada nem um pouco. Agora, o Pannunzio não disse que a pressão maior que sofreu veio justamente do PSDB, a quem defende e, nesse mister, agride o PT. Aliás, não existem pessoas mais sensíveis à divergências de opiniões, que travestem em linguagem jurídica como injúria, calúnia e difamação, que os integrantes ou simpatizantes do PSDB.

  3. - IP 177.5.123.2 - Responder

    Come no cocho de algum super-processado?

  4. - IP 200.17.60.247 - Responder

    Infelizmente, falar a verdade e mostrar denúncias embasadas em provas contra os coronéis que controlam esse Estado, dá nisso, ou melhor, não dá em nada. Depois da reportagem do Pannunzio, o super processado foi novamente reeleito e voltou ao comando da Assembléia, em Mato Grosso. Seu cumprade, o governador Silval, continua mandando recursos do cofre estadual para o deleite do deputados… A saúde? que nada… Esse governador sairá candidato ao senado e por isso os eleitores devem mostrar, nas urnas, toda rejeição para esse gestor meia-boca, como diz o Bezerra..

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

nove − 5 =