“Público não está trocando de canal, mas de mídia”

Global Fernanda Torrres reconhece: JN perdeu

Atriz global e colunista da Folha de S. Paulo resume fenômeno de esvaziamento de audiência da TV aberta; “O público não está trocando de canal, mas de mídia”, assinala; ela reconhece que a internet está ainda mais avançada que as televisões pagas; “A TV por demanda aponta um futuro em que o espectador monta a sua própria grade. Algo já praticado na internet, onde os comerciais são destinados a um público alvo e os navegadores trocam indicações entre si”; tempo de Cid Moreira já passou; mas publicidade é concentrada em mais de 60% nas tevês abertas; e a maior parte das verbas, na Rede Globo; força do hábito ou do jabá?

247 – A atriz global Fernanda Torres tocou em texto numa ferida aberta dentro do principal jornal da Rede Globo de Televisão. Em coluna publicada nesta sexta-feira 22 no jornal Folha de S. Paulo, Fernandinha, como é conhecida entre seus amigos, lembra na abertura do artigo Vale-TV que em seu tempo de menina – ela é nascida em 1965 – se acostumou a saber a hora do jantar por ouvir a voz de Cid Moreira no Jornal Nacional. Mas conta que, hoje, seus filhos já não têm mais essa referência. Eles não se guiam pela entrada no ar de William Bonner e Patrícia Poeta. Nem os escutam nem os assistem. Estão atentos a outras mídias, ligados nas tevês por assinatura e conectados à internet.

A propósito de discutir a suspensão, pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, do direito de uso do chamado Vale-Cultura para a feitura de assinaturas de tevês fechadas, Fernanda aborda com precisão o tema do esvaziamento da audiência na tevê aberta. A referência inicial ao Jornal Nacional, neste sentido, é emblemática. Apesar de ter um dos espaços publicitários mais caros da mídia brasileira, o JN já não é mais aquele. Nos últimos tempos, perdeu nada menos do que 40% de sua audiência histórica. Ainda se sustenta, no entanto, nas preferências dos muitos responsáveis pela indicação de anúncios nas agências de publicidade, os chamados ‘mídias’.

Nos anos 1960, quando fundou a Rede Globo, o empresário Roberto Marinho criou um sistema único de remuneração das agências de publicidade. Em troca de veiculação, ele estabeleceu o B.V. – Bônus de Veiculação. Trata-se de um instrumento existente até hoje, aprimorado através dos tempos, e disseminado entre outras emissoras. Por ele, as agências recebem de volta parte do dinheiro investido em publicidade. O B.V. também é conhecido por jabá.

Boa parte da explicação na insistência na concentração publicitária no Jornal Nacional, apesar das perdas de audiência e, consequentemente, de repercussão, está no B.V. O que Fernanda Torres defende é a reabertura das negociações para se incluir a possibilidade de uso do Vale-Cultura – um avanço para o consumo de produtos culturais e de entretenimento no País – poder vingar, também, para assinatutas para tevês pagas. Ela não diz com todas as letras, mas deixa clara, em sua coluna, que, hoje, as tevês fechadas – e os sites de internet – são realmente muito mais interessantes que o Jornal Nacional.

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CONFIRA, AGORA, O ARTIGO DE FERNANDA TORRES PUBLICADO NA FOLHA DE S.PAULO

Vale-TV
Fernanda Torres

QUANDO EU era pequena, sabia pela voz do Cid Moreira se era hora da janta, pela do Chico Anysio se era hora de dormir, e pelo riso do Dick Vigarista se era hora de ir para a escola. A TV, como os primeiros relógios públicos da idade média, regulava a vida dos brasileiros.

Esse fenômeno não existe mais na geração dos meus filhos. O cotidiano deles é pautado por desenhos animados e filmes, pelos realities e programas de curiosidade científica. Todos veiculados na TV paga.

Mas a TV por assinatura dá traço de audiência no Brasil. Como explicar? Pode ser que minha família faça parte de uma elite sem nenhum significado para a economia, mas sempre que olho o meu guri entretido com o computador e a TV, me pergunto se esse zero está correto.

Os “gatonets” conectam os bairros populares há tempos e nunca foram contabilizados. Para combater as redes clandestinas, comandadas por milícias organizadas, foram oferecidos contratos a um custo de R$ 30 às comunidades pacificadas do Rio de Janeiro.

Que mudança trará a legalização e subsequente inclusão da TV paga nas pesquisas?

O público não está trocando de canal, mas de mídia. Foi-se o tempo dos 100% de ibope. O número de aparelhos ligados segue uma tendência de queda, enquanto os milhares de sites de relacionamento e vídeo games on-line se multiplicam. Em um quadro tão pulverizado, o pequeno resultado tem relevância.

Antes, as empresas de telecomunicações controlavam o conteúdo e a emissão de sinal. Hoje, a telefonia detém a transmissão, enquanto as antigas emissoras se consolidam como produtoras de programação.

A TV por demanda aponta um futuro em que o espectador monta a sua própria grade. Algo já praticado na internet, onde os comerciais são destinado a um público alvo e os navegadores trocam indicações entre si. Porta dos Fundos é um fenômeno de views.

Perde-se por um lado, ganha-se por outro. Uma empresa que produz novelas, séries, programas de esporte e notícia não contará apenas com as 24 horas do dia, os sete dias da semana, ela possuirá um catálogo disponibilizado em incontáveis janelas simultâneas.

A concorrência com os importados será ainda mais dura. As dezenas de seriados americanos entram aqui pagos e com um nível de qualidade que ainda não possuímos. A TV americana está na vanguarda da cultura de massa. É experimental e popular, arriscada e bem-sucedida.

Se a ampliação do mercado não servir para fortalecer o que se faz no Brasil, serviremos apenas de pasto, não criaremos nada capaz de dialogar com o que é feito no resto do planeta.

Na contramão da ameaça estrangeira, raras multinacionais coproduzem séries brasileiras. É um modelo. Mas a maioria dos programas nacionais exibidos na TV fechada é de entrevistas, realities e alguma ficção de baixo custo. Ela ainda é um celeiro de ideias subutilizado no Brasil.

A ministra Marta Suplicy voltou atrás na decisão de incluir a TV por assinatura na lista de beneficiados do Vale-Cultura. A classe artística respirou aliviada, era uma competição desleal. Mas a proposta, não sei se consciente, ou inconscientemente, fez circular a ideia do Vale-TV e mostrou que o MinC deseja influir no setor.

Caso o faça, é preciso cuidado para que não só as duas extremidades da transação, o povo e as “über” “teles”, saiam ganhando, mas também a faixa intermediária, que inclui os grandes e pequenos produtores de TV.

O modelo de atender à base e ao topo da pirâmide social, jogando o miolo para escanteio, faz parte da nova ordem econômica mundial.

Remando contra a maré, François Hollande conseguiu que o Google ressarcisse os periódicos franceses pela exibição de links de notícia nos resultados de busca. Foi firmado um acordo para aumentar a receita de publicidade on-line e criou-se um fundo de € 60 milhões (cerca de R$ 156 milhões) para fortalecer as mídias digitais.

É preciso preservar o mundo material. É ser Hollande, ou assistir, agora com a televisão, único setor cultural do país que vingou como negócio, a tragédia vivida pela música. Nela, ganharam as empresas de tecnologia e o internauta, enquanto a indústria fonográfica amargou perdas irreparáveis.

2 Comentários

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  1. - IP 177.64.233.254 - Responder

    Até que esses dias inovaram, exibindo o erro na abertura do tal jn, pra ver se viram fofoca na rede, não assisto mais essa porcaria, nem tv ligo..mas são tão patéticos e previsiveis, a gente quer ver e ouvir quando é que irão falar a verdade sobre Renan Calheiros, mostrar os protestos que irão chutar esse infeliz do senado, junto com aquele pastor safado, hipocrita, preconceituoso e homofobico da camara, quem falou que esse asno serve para ser presidente de comissão alguma, ainda mais de direitos humanos..Quem usa internet é por que cansou da tv aberta, pq nem desenho animado passa mais..fica aquela Fátima Bernardes enganando as pessoas, com aquele programa insuportável que ela apresenta…pelo menos, a internet é melhor do que ficar vendo seriados dos canais pagos, é tudo a copia um do outro, nada de qualidade, só muda os atores..a gente pode se informar, pesquisar, xingar alguns feladasputas, e também saber se estamos ou não sendo felasdasputas..por que aqui não dá pra ser passivo.

  2. - IP 177.64.244.138 - Responder

    O Anderson Sabóia acima , pode ser nome fictício , não entendeu que se está falando de troca de mídia , mas ele se somou aos gays para atacar o Deputado Feliciano , quevse tornou, sem querer , herói dos heteressexuais e dos religiosos e se misturou a esta horda que desqualificam a natureza humana , a paz social , o bem estar das famílias , que , ameaçados , estào se unindo silenciosamente pra dar uma resposta aos movimentos gays , que esperamos , não seja pior que antes , quando gays eram assassinados individualmente….estão procurando chifre na cabeça de cavalo , mormente , quando se tem o exemplo bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra. Quanto ao Renam Calheiros , é coisa de política e as minorias e maiorias . Quem o elegeu tem poder e não adianta ficar gritando por aí….não seja um asno postando críticas isoladas , pois o brio da sociedade está no limite…

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