O Brasil conta com pelo menos 5,3 mil jornais em atividade, impressos (63%) ou na internet (37%). Ainda assim, 70 milhões de pessoas, um terço da população, vivem em cidades desprovidas de qualquer cobertura jornalística local por esses tipos de veículos.

Os dados fazem parte de uma versão preliminar e ainda limitada do Atlas da Notícia, uma iniciativa do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo), entidade também responsável pelo Observatório da Imprensa, em parceria com o Volt Data Lab.

O projeto, publicado nesta terça-feira (7), busca consolidar um mapa com a cobertura geográfica do país por veículos de comunicação e, assim, obter um quadro do que os autores chamam de “desertos de notícias”. Ou seja, regiões do país que não são atendidas por nenhuma atividade profissional de jornalismo.

Mapa deserto de notícias, Atlas da Notícia

Mapa deserto de notícias, Atlas da Notícia

Em sua primeira etapa, o Atlas partiu de dados oficiais de jornais obtidos com a ANJ (Associação Nacional de Jornais), a Secom (Secretaria de Comunicação do Governo Federal) e por meio de crowdsourcing. Nesse último caso, a equipe do Projor recebia indicações de nomes de jornais impressos e sites de notícias de qualquer pessoa pela internet, os quais passavam por checagem sobre sua atividade e cumprimento de diretrizes básicas de jornalismo.

“A gente não quer dizer que esse é o retrato pronto e acabado do jornalismo no Brasil. Mas a gente considerou que já estava na hora de se publicar algum tipo de dado sobre jornalismo local. Esse é um primeiro olhar, o retrato mais preciso possível. Esse banco de dados pode e deve ser melhorado”, diz Angela Pimenta, presidente do Projor e responsável pelo projeto, ao Nexo.

O Atlas da Notícia usou de base um projeto deste ano feito pela Columbia Journalism Review, uma importante revista voltada à cobertura crítica do jornalismo americano, chamado “America’s growing news deserts”, que mapeia os “crescentes desertos de notícias” nos EUA, mas voltado exclusivamente ao fechamento de jornais impressos locais que, em alguns casos, passam a atuar apenas no digital.

O passo seguinte do Atlas brasileiro é incluir informações como circulação dos jornais e alcance geográfico, bem como ampliar o tipo de mídia, passando a abarcar também emissoras de TV e rádios (incluindo as comunitárias). “As rádios comunitárias cobrem de alguma maneira a vida local. No Amazonas, elas têm um papel fundamental, por exemplo. A gente parte do princípio que o jornalismo local será tão mais bem coberto quanto mais jornalismo profissional você tiver, ou ativismo que obedeça a protocolos jornalísticos”, diz Pimenta.

O Atlas espera servir como uma plataforma na qual será possível fazer o acompanhamento contínuo do desenvolvimento da indústria de notícias. Quantos jornais impressos ou online surgem, quais são fechados, quais mídias – rádios comunitárias, sites de notícia, etc – mais crescem por região do país, etc. Ou ainda identificar, por exemplo, se o crescimento de jornais impressos – segundo a ANJ, entre 2001 e 2013, o número de títulos saltou de 1.980 para 4.786 – está também se refletindo em uma maior cobertura fora das capitais.

Papel do jornalismo local#

A produção do Atlas parte da ideia de que a existência de uma produção jornalística profissional em uma cidade, cobrindo o cotidiano da sua vida pública, dá proteção à população local.

“O que a gente está inferindo é que se uma cidade não tem nada disso, jornal diário, TV, rádio ou um site, muito possivelmente ela não vai ter uma cobertura da câmara, do prefeito, das contas públicas e de questões importantes como educação básica, saneamento, segurança, meio ambiente etc. Ela se torna uma cidade mais vulnerável e sem um direito humano básico, que é o direito à informação.”

Angela Pimenta

Presidente do Projor

A jornalista lembra ainda da importância da narrativa local na cobertura de fatos importantes da cidade. Tomando o caso do desastre ambiental causado pela mineradora Samarco, que afetou cidades do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, como Mariana, ela diz que, apesar da cobertura da grande imprensa articulada de forma emergencial, a existência de veículos locais teria proporcionado um outro olhar sobre o caso.

“Quando aconteceu o desastre com a Samarco, se houvesse lá uma imprensa forte, ela estaria cobrindo com uma qualidade e proximidade a sua câmara e sua prefeitura, de uma forma que os grandes veículos não conseguem, porque não conhecem o campo, o chão, com tanta propriedade”, diz.

Concentração e desertos#

Além do mapa, o Atlas conta com gráficos que cruzam os dados sobre veículos jornalísticos impressos e digitais com IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) de cada cidade.

Em números absolutos, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília são as capitais com maior número de jornais e sites de notícia. Juntas, elas concentram 20,7% dos veículos do país. A capital paulista conta com 698, o Rio tem 217; e a capital federal, 197.

Gráfico de jornais e sites de notícia por cidade, Atlas da Notícia

Já na proporção populacional, dentre as capitais, Florianópolis aparece em primeiro (com 16,8 a cada 100 mil habitantes), seguida de Palmas (12,5), Porto Alegre (8,5), Brasília (7,7) e Cuiabá (7,6). Fortaleza é capital com a proporção mais baixa (0,9), seguida de Salvador (1,1) e Recife (1,3).

Fora das capitais, seguindo o critério de proporção, lideram Balneário Camboriú (SC), com 13,1; Barretos (SP), com 12,5; Itabira (MG), com 11; Criciúma e Chapecó (SC), ambas com 10,5. Em números absolutos, as cidades paulistas lideram: Campinas e Santos aparecem no topo com 30 veículos cada uma, Ribeirão Preto com 22, e Mogi das Cruzes e São Bernardo do Campo com 21.

Já quanto aos estados, proporcionalmente, o ranking é formado por Santa Catarina (8,8 veículos a cada 100 mil hab.), em primeiro lugar, Distrito Federal (7,8), Rio Grande do Sul (5,7), Mato Grosso do Sul (4,8) e Rondônia (4,4). Na outra ponta, no pé do ranking, estão Pernambuco (0,5), Maranhão (0,5), Pará (0,5), Ceará (0,6) e Alagoas (0,6).

Mapa de jornais e sites de notícia proporcionalmente por estado, Atlas da Notícia

Mapa de jornais e sites de notícia proporcionalmente por estado, Atlas da Notícia

Todos os dados usados pelo Atlas da Notícia estão com acesso livre no Github e em planilhas abertas na internet.

FONTE NEXO JORNAL