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As verdades inconvenientes que a campanha “Agro Pop”, da Rede Globo, tenta esconder

Por Rafael Rioja Arantes, no site ideiasnamesa.unb.br

Desde meados de 2016 a Globo passou a exibir no horário nobre de sua programação e com múltiplas entradas a campanha “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é tudo”. Concebida pela gerência de Marketing e Comunicação da própria emissora, os vídeos de 1 minuto continuarão a ser “martelados” nos intervalos das novelas, jornais e programas até junho de 2018.

Segundo os criadores, a campanha têm entre outros objetivos:

“tratar a importância dos produtos agrícolas e das coisas do campo; procuramos também sempre citar quantos empregos aquela atividade agrícola gera e quanto ela movimenta na economia”

O Brasil é sem dúvida um país de vocação agrícola fruto de nossa exuberante biodiversidade, e não por outra razão, tivemos em nossas terras desde que os europeus “descobriram” nossos povos indígenas e nossas riquezas naturais, seguidos ciclos de produção capitaneados por diferentes caravanas colonizadoras. Nos dias de hoje, essa riqueza agrícola continua, sem sombra de dúvidas, a movimentar a economia brasileira. Mas o que realmente está por trás da campanha “Agro é Pop” e quais as verdades inconvenientes que ela tenta esconder?

Agro é Tech   

A retórica de que o agronegócio gera riquezas e atua no combate a fome não é recente e nem exclusividade brasileira. A “Revolução Verde” iniciada nos Estados Unidos na década de 50, e que de verde mesmo teve só o nome da cor, trouxe a promessa de acabar com a fome no mundo através do uso da tecnologia aumentando a produção de alimentos. Em termos absolutos, a produção de gêneros alimentícios aumentou, mas mesmo décadas depois, problemas como a fome e a insegurança alimentar e nutricional continuam a assolar mais de 800 milhões de pessoas ao redor do mundo.

O grande legado da dita “Revolução Verde” foi na verdade a concentração de grandes porções de terras nas mãos de poucos latifundiários e o escoamento de pacotes tecnológicos e de insumos por multinacionais estrangeiras que incluíam agrotóxicos com princípios ativos excedentes da segunda guerra mundial, fertilizantes químicos e sementes transgênicas destinados a países em desenvolvimento como o Brasil.

Em território nacional, agrotóxicos banidos na União Européia e em outros países no mundo circulam com isenção de impostos e linhas de créditos bancárias para pequenos agricultores condicionadas ao uso dos venenos. Esse cenário levou o Brasil à condição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo com sérias implicações para a saúde humana incluindo consumidores e trabalhadores rurais, e para o meio ambiente. A Associação Brasileira de Saúde coletiva (ABRASCO), compilou em 2015 sua versão mais recente do Dossiê: “Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde“, livro com mais de 600 páginas reunindo artigos, estudos e pesquisas mostrando entre outros aspectos, as contaminações pelo uso de agrotóxicos que vão desde o comprometimento de aquíferos locais até a presença de compostos tóxicos no ar e no leite materno.

Além de se destacar no consumo de agrotóxicos, o agronegócio brasileiro também nos colocou no patamar de maiores produtores de milho e soja transgênica ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Do ponto de vista da segurança para saúde humana do consumo de organismos geneticamente modificados (OGM), a publicação “Lavouras Transgênicas” analidou 750 trabalhos publicados e mostrou que a única certeza é de que não existe consenso científico sobre o consumo seguro deste tipo de alimento. Não resta dúvidas, no entanto, dos sérios agravos para biodiversidade, soberania e segurança alimentar causados pelo monopólio de patentes das multinacionais que controlam a produção de OGM. Recentemente a equipe do IM traduziu matéria alertando que pequenos agricultores da Tanzânia, estão sendo criminalizados por utilizar e trocar sementes nativas ao invés de comprar as sementes transgênicas  da Syngenta. A situação de extrema gravidade não é exclusividade do país Africano e se repete em outras regiões.

O Brasil saiu em 2015 pela primeira vez na história do mapa da fome segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e essa conquista foi possibilitada não pelo modelo “Agro Tech” sinônimo de agrotóxicos e sementes transgênicas. De acordo com a entidade, os principais fatores que possibilitaram essa conquista foram as políticas de combate a fome e insegurança alimentar e nutricional que resultaram nos programas como o “Fome Zero” e o “Bolsa Família”. As iniciativas de transferência de renda e o fornecimento de uma alimentação adequada e saudável por meio de diferentes ações e programas foram de fundamental importância para esse novo cenário.

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As verdades inconvenientes que a campanha “Agro Pop” tenta esconder: Segunda parte

por Rafael Rioja Arantes

Publicamos na última terça-feira a primeira parte do texto sobre a campanha desenvolvida pela globo em parceria com o setor do agronegócio, “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é tudo”. Nele, trouxemos alguns dados históricos e a retórica usada pelo agronegócio que tenta confundir o uso do que o setor chama de tecnologia, em nome do acumulo de riquezas de poucos latifundiários e empresas multinacionais – e quem paga essa conta são os agricultores, a saúde humana e o meio ambiente. Sempre sob o falso discurso de “acabar com a fome no mundo” ou sob a justificativa de gerar riquezas para o país, confira aqui.

Nessa segunda parte, damos sequência para entender da onde vem a popularidade do “Agro Pop” e porquê esse modelo de negócio “Agro(não) é Tudo”.

O Agro é Pop

Basta ter assistido por poucas vezes os vídeos da campanha criada pelos marqueteiros da globo para ter claramente registrado no subconsciente a mensagem de que o “Agro é Pop”. Mas de onde vem essa popularidade toda?

A famosa bancada do agronegócio no congresso é uma das maiores e mais poderosas. Ela é composta por nada mais nada menos do que 207 (40%) dos 513 deputados, e por 24 (30%) dos 81 senadores das casas. Eles se organizam em torno da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que se reúne todas às terças-feiras em uma casa de luxo na QL 10 do Lago Sul em Brasília. A cada encontro, são debatidos os temas do “cardápio”, como eles mesmos denominam os encontros. No último, realizado dia 21 de fevereiro, a Frente mostrou no que está de olho nas próximas semanas:

“composição das comissões permanentes para 2017, principalmente as de Agricultura, de Meio Ambiente e de Constituição e Justiça; Também merecem a atenção as comissões especiais da Reforma da Previdência e do Trabalho; Não menos importante é o Projeto de Lei 3729/04, que trata do Licenciamento Ambiental.”

Para entender de uma forma mais clara o que significa quando a Frente define suas linhas de atuação em projetos de lei e comissões, aqui vão alguns exemplos recentes: O PL 4.148 com o objetivo de retirar a identificação de transgênico dos rótulo de alimentos já chegou a ser rejeitado em uma das comissões, mas a bancada ruralista conseguiu que ele prosseguisse por outros caminhos. No ano passado a polêmica voltou à tona e o projeto de autoria do deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS), que já foi presidente da FPA, à circular pelo congresso. Felizmente, a mobilização da sociedade civil articulada pelo Instituto de Defesa do Consumidor conseguiu fazer com que o PL não avançasse na surdina como pretendido.

Outro exemplo de atuação da FPA se traduz no PL 3200/2015, conhecido como PL do Veneno, de autoria do deputado Covatti Filho (PP/RS), que já tem até comissão instaurada para dar andamento ao projeto. Entre as principais propostas, estão a mudança do nome de “agrotóxicos” para “defensivo fitossanitário e de controle ambiental”. Em relação a esse ponto, o Ministério Público Federal (MPF) soltou uma nota de repúdio sob a alegação:

“O termo ‘agrotóxicos’ expressa a nocividade dos produtos e é amplamente difundida e conhecida da população, ‘sendo a substituição por termo novo, na prática, ofensa aos princípios da transparência e da informação’. A alteração também confundirá a distinção entre as substâncias utilizadas nas culturas orgânicas e não orgânicas. A prática ‘é um verdadeiro greenwashing, ou seja, modificação da imagem mediante métodos que levam a pensar tratar-se de produto ecologicamente responsável’”.

O PL também propõem que o sistema brasileiro de controle e aprovação de agrotóxicos, extremamente permissivo como já abordado no primeiro texto, seja ainda mais fragilizado. Atualmente, essas decisões precisam passar pelos Ministérios do Meio Ambiente, Saúde e Agricultura representados pelo IBAMA, ANVISA e MAPA. Segundo o projeto, ficam excluídos os representantes da Saúde e do Meio Ambiente e as decisões passarão a ser tomadas apenas por uma comissão intitulada de CTNFito, alocada dentro do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento. Essas são apenas algumas das tantas “propostas” que o PL do Veneno traz. O MPF também escreveu nota contra essa proposta e o PL de maneira geral, confira.

A popularidade da bancada ruralista não vem por acaso, e aliás, ela custa caro. Os principais financiadores das campanhas destes deputados são empresas do agronegócio que chegam a investir milhões para eleger apenas um candidato. É dessa forma que se deturpa a função de um congresso cujo papel deveria ser o de legislar segundo os interesses da população, e passa a garantir os interesses das corporações, mais especificamente nesse caso, o setor do agronegócio.

As ramificações da bancada não se restringem apenas ao congresso. No começo deste ano, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense causou um extremo desconforto no setor do agronegócio ao lançar o seu enredo “Xingu, o clamor que vem da floresta”, especificamente em relação ao trecho: “O belo monstro rouba as terras dos seus filhos / Devora as matas e seca os rios / Tanta riqueza que a cobiça destruiu”. Matéria do El País mostrou que o senador ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO), pré-candidato à presidência em 2018, sugeriu a criação de uma comissão temática para investigar a escola de samba ao afirmar que: “a escola ‘denegriu’ o setor (agronegócio) e difamou quem deveria ser enaltecido”.

Classificar o setor do agronegócio como “pop” é um eufemismo, o termo “Agro é Pop” é na verdade uma abreviação para definir um setor poderoso que perpetua seus interesses por meio do dinheiro.

Nem todo Agro é (mau)negócio

A propaganda “Agro-Globo” tenta popularizar o agronegócio como algo positivo e descolado, a partir da construção da imagem de que o setor é o grande responsável pela geração de empregos e pela produção dos alimentos que chagam à nossa mesa. O que não aparece na televisão no entanto são os fatos invisibilizados atrás dos números.

Em publicação recente conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), foi constatado que apenas 36% dos empregados pelo agronegócio tem carteira assinada. O dado revela o caráter extremamente informal do setor, que possuí 9 milhões de trabalhadores no segmento primário recebendo uma renda mensal média de R$ 891 na agricultura e R$ 998 na pecuária. É também do agronegócio quem vem 30% das 1.010 pessoas resgatadas em 2015 de condições análogas à escravidão.

Em relação à produção de alimentos, o agronegócio cria mercadorias, mas quem produz os alimentos que chegam à nossa mesa são os pequenos agricultores e os agricultura familiares. Em estudo pioneiro, pesquisadores da Universidade de Minnesota criaram o primeiro Mapa de Pequenos produtores em países em desenvolvimento, e constaram que eles produzem mais da metade das calorias alimentares do planeta e convertem mais de 70% delas diretamente para o consumo humano de alimentos. Mais especificamente no Brasil, mesmo com a concentração de terras ser predominantemente em propriedades rurais classificadas como grandes ou enormes latifúndios característicos do agronegócio (acima de 15 hectares), são nas pequenas propriedades (até 5 hectares) que é cultivada a maior parte de nossa comida.

A Agroecologia se apresenta como um modelo alternativo e real para um sistema alimentar mais saudável e inclusivo. A agroecologia é uma ciência que tem como premissa a construção de uma relação sustentável entre o homem e a terra, e apresenta características específicas como a presença da agricultura familiar, produção orgânica, pequenas propriedades, diversidade de culturas, o respeito as características locais e o comércio socialmente justo. É um sistema ecológico extremamente complexo e que se contrapõem ao modelo hegemônico do agronegócio.

No Brasil a criação da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO) em 2012 estabeleceu um marco. A PNAPO demandou a elaboração do Plano Nacional de Agroecoloia e Produção Orgânica (PLANAPO 2013 -2015) responsável pela consolidação da produção orgânica e agroecológica no país. Apesar da segunda edição do plano para o período 2016-2019 estar lançada, ainda há muito que avançar. O Plano identificou o papel dos pequenos agricultores para a produção de laimentos, e teve como intuito dar suporte a sistemas de produção de base sustentável com foco na agricultura familiar.

O agronegócio pode até ser “pop”, mas se um simples enredo de escola de samba já tira a bancada ruralista do sério, não restam dúvidas do porquê uma campanha com todo o aparato global precisa ser insistentemente repetida em horário nobre durante dois anos. Só assim pra sustentar através da automatização a ideia de que um sistema com acumulo de riquezas e poder nas mãos de poucos, e calcado no desmatamento e uso intensivo de agrotóxicos e sementes transgênicas é mais coerente e benéfico do que um sistema que garante a soberania e segurança alimentar e nutricional com inclusão social e preservação ambiental.

FONTE BLOGUE IDEIAS NA MESA


2 Comentários

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  1. - Responder

    Masturbacao sociológica e agro chata.Tudo que a Globo faz,é criticada e mais do que isso,provoca ódio dos petralhas vagabundos,que não trabalham não produzem e são os eternos parasitas da nação.

  2. - Responder

    Osmir agora defendendo o envenenamento do solo, rios e alimentos… Osmir, araponga aposentado, é um veneno, além disso puxa-saco de ruralista e Globo… mas no capitalismo cada um se vira como pode…

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