AS CONFIDENCIAS DE JOSÉ ORLANDO MURARO: Ato declaratório da minha velhice

Muraro

 

Ato declaratório da minha velhice

Texto I

Por José Orlando Muraro

 

-Você já se masturbou pensando em mim?

 

A pergunta era direta.  Ela estava grávida. Sentada à mesa na área dos fundos da casa, picava cenouras e batatas cozidas para fazer uma maionese.

 

Parou de descascar os legumes e estava esperando a resposta. Pouco antes disse estar incomodada com as mudanças no corpo devido à gravidez.

 

Parei de pesquisar no pequeno netbook. Espirei.

 

-Bom….Bokowisk escreveu que os velhos sempre se masturbam…. na época não levei isto em conta,mas….ele tinha razão…

 

Na  sexta-feira, 20 de outubro, eu completarei 60 anos. Era uma quinta-feira quente , típica de Cuiabá. Estava aguardando a liberação de  dinheiro de uma condenação em um processo que tramitou na Justiça federal. Talvez saísse na sexta-feira, dia do meu aniversário.

 

Eu havia encontrado com o marido dela, que me convidou para almoçar na casa deles. Ele ainda não havia chego do trabalho e eu vim  mais cedo para auxiliá-la, ter que sair para comprar alguma coisa, isto aí.

 

Voltou a picar os legumes.

 

-Sem esta de querer ser espetinho. Eu te fiz uma pergunta direta.

 

A gravidez realmente havia alterado seu corpo em demasia. Bem gorda, seios  imensos e toda a dificuldade para se locomover. Antes era uma morena bonita, bem bonita. Tivera uma gravidez precoce, mas a filha já estava na faculdade. Depois de vários relacionamentos que acabaram mal, finalmente havia encontrado este meu amigo.  E decidiram ter um filho.

 

-Tudo bem…. levantei a mão em juramento….já, eu confesso culpado….

 

Mas ela não se deu por achada. Sem me olhar, mandou outra:

 

-Várias vezes?

 

Cacete.

 

– Tudo bem….várias e várias vezes…. não dá pra mudar o rumo desta prosa?

 

-E fulana e sicrana?

 

– Uma vez ou outra…..

 

Ela sorriu.

 

-Obrigado. Então eu fui a mais homenageada….é muito bom para uma mulher grávida saber disto…..

 

Deu uma bela gargalhada, juntou a tigela de vidro com os legumes picados e se virou bem devagar para sair da cadeira. Espichou o pescoço, respirou fundo .

 

– Calma, garota…não vá explodir a sua mãe……este pezinho dela nas minhas costelas é de lascar…..incomoda muito.

 

Eu fiquei em silêncio. E literalmente saí voando em meus pensamentos.

 

Quando pisei no chão novamente ela me oferecia uma garrafa de cerveja para abrir. Dois copos na outra mão.

 

-Agora me diz….para onde é que você foi depois que desligou?

 

-Nada…lembrei de algo que aconteceu quando eu era pequeno…uma coisa que minha mãe falou, mas que eu só fui entender quando já estava com mais de 40 anos….

 

Abri a cerveja, despejei meio copo para ela e um até a borda para mim.

 

-Você é um ASPER, isto eu já sei…mas eu sou uma mulher…e a curiosidade é o que nos move….. conte-me…o que tua mãe disse?

 

Bom, minha mãe era professora primária. Normalmente, nos dias da semana, a panela de pressão com o feijão, enrolada em jornais, ficava no forno até a hora do almoço. O arroz e os bifes eram feitos assim que eu pai e minha mãe chegavam do trabalho.

 

As aos sábados e domingos, tudo mudava. Ela cozinhava bem demais, até bife de fígado com cebola era uma delícia. Aos sábados e domingos minha mãe reinava na cozinha.

 

Descendente de italianos pelos quatro costados, era uma “carcamana”, palavra que nunca achei a tradução correta. Pé rachado, dizia ela, mostrando os sulcos profundos no calcanhar.

 

Era um sábado. Estávamos na cozinha, eu, minha mãe e uma vizinha chamada Maria, que estava grávida. Minha mãe a convidara para almoçar em um sábado, já que Maria havia dito que estava repugnando a comida que fazia. E  o convite acabou ficando permanente para os sábados.

 

Ela estava imensa. Ajeitou-sena cadeira e disse a minha mãe:

 

-É dona Aracy…eu acho que este pepino já virou uma melancia….

 

As duas riram. Era uma piada feita pela minha mãe assim que soube que a Maria estava grávida:

 

-agora ela vai ver o quanto é duro comer pepino e cagar melancia….

 

Devagar e com cuidado minha mãe acabou de cortar aquele charuto de couve manteiga em fatias bem finas….depois, em uma panela bem grande, colocou o toicinho defumado para fritar. Meu pai comprava em manta, que ficava na geladeira. Naquela manhã eu havia cortado um pedaço generoso de toicinho em pequenos cubos….

 

– E as tuas crianças…deram muito trabalho na gravidez?

 

Minha mãe narrou os aperreios com as minhas duas irmãs, mas nada disse sobre mim.  Uma mais velha e outra mais nova do que eu. Maria olhou para mim, que estava sentado em uma cadeira na cabeceira da mesa.

 

-Mas e o Zé, deu muito trabalho na gravidez?

 

Ela juntou duas mãos com   couve picada e lançou dentro da panela. Repetiu a operação, mexeu bem com uma colher de pau  e depois desligou o fogo. Sentou-se em uma cadeira na outra ponta da mesa. Alcançou a garrafa de café e despejou em uma xícara….. depois  falou.

 

-Este aí? Não…..ficava quieto o tempo todo, quando se movia era muito devagar, mal dava para senti-lo. Não sei como, mas ele se escondia dentro de mim. Uma vez ele ficou quieto tanto tempo que achei que alguma coisa ruim tinha acontecido…..

 

Ela olhava duro para dentro dos meus olhos. Éramos dois estranhos, bem distantes um do outro…..

 

-Estranhos? Um filho e uma mãe?….Como assim?????….

 

Levantei e fui em busca de outra cerveja.

 

Bom, já que tinha de falar, era melhor vomitar tudo de uma vez e acabar aquele assunto que sempre me incomodou.

 

-Resumindo, quando tinha 44 anos, em uma das poucas vezes em que estive e Itanhaém, onde eles estavam morando, meu pai me contou que minha mãe engravidou de mim poucos meses após o nascimento da minha irmã. Moravam em uma pequena chácara, na periferia de Ourinhos. O parto nas mãos das parteiras. Com tudo isto, minha mãe passou os nove meses lamentando aquela gravidez e dizendo que não via a hora de me expulsar de dentro dela….. nunca fomos próximos um do outro….sempre mantive uma distancia segura da minha mãe….

 

E chega….não quero mais falar sobre isto…..

 

Ela ficou acariciando o imenso ventre.

 

-Calma garotinha…mamãe e papai te amam….mas fique bem boazinha…. mamãe te ama…..

 

Comecei a sorrir.

 

-Sabe, me passou um pensamento agora pela cabeça…… Tanto quanto a síndrome, os nove meses no útero da minha mãe definiram quem eu sou aos 60 anos.

 

– ?????

 

– Sempre soube a agi sabendo que  sobreviver dependia só de mim, dependia de como eu agisse ou fizesse….era eu, somente eu….. não podia contar com mais ninguém para resolver meus problemas….

 

Sorvi um longo gole de cerveja.

 

– Sempre fui um  pai omisso, distante, que mal acompanhou o crescimento das minhas filhas…e todas se deram bem na vida. Sabiam que não podiam contar comigo e tiveram que enfrentar seus próprios medos, seus fracassos e indecisões. E todas se firmaram sobre as próprias pernas e seguiram com a vida……mesmo o Victor e a Letícia, que ainda são menores, já sacaram que terão que enfrentar a vida com as próprias forças e sem contar com minha ajuda….

 

– É…este sempre foi o meu medo. Meu padrasto me mandou embora de casa quando engravidei. Não queria uma puta dentro de casa, disse-me ele. Fui morar com uma tia um tempo, e logo depois que minha filha nasceu fui trabalhar como doméstica, de um pessoal bem rico. Davam tudo aos filhos e só tiveram problemas. A gente não quer errar com os filhos, mas eles têm que andar com as próprias pernas.

 

Um barulho no portão.

 

-João chegou e a cerveja acabou…..

 

– Tudo bem, vou buscar mais……

-Você não vai ficar depressivo com esta conversa…ou vai?

 

-Não…um ASPER tem alto nível de serotonina no sangue….. estamos sempre felizes… somos como a hiena, que transa uma vez por ano, como carniça e está sempre rindo….rindo de quê, afinal?…

 

-Vá te catar  e busque logo a cerveja…

 

Encontrei João no corredor, que se espremeu para que eu passasse com a mochila cheia de cascos vazios. Um forte abraço e parti para o mercadinho.

 

Na rua respirei fundo…..os 60 anos já se passaram, com meus muitos erros e poucos acertos….tenho é que me preocupar com os vinte que me restam….. e será como sempre foi…… como o verso em uma música de Milton Nascimento:  -hoje faço do meu braço…. o meu viver…..

 

Chapada dos Guimarães, 7.11.2017

 

JOSE ORLANDO MURARO SILVA é advogado

Portador da Síndrome de Asperger

Categorias:Cidadania

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