Artistas de Mato Groso se posicionam sobre o impeachment. Segundo Amaury Tangará, “a posição dos artistas mato-grossenses não é unânime em torno da defesa da democracia e contra o golpe. Muitos temem por seus empregos e por retaliações dos governos estaduais e municipais, muitos alinhados com o golpe; enquanto outros, apesar de supostamente serem formadores de opinião (a função basilar de um artista), permanecem na ignorância e adestrados pela grande mídia que lhes indica meias verdades ou falsas afirmativas sobre o governo da presidente Dilma”.

Amauri Tangará

Amauri Tangará

Artistas se posicionam sobre o impeachment

Muitos foram os convidados a se manifestar sobre votação que acontece neste domingo, mas poucos tiveram a coragem de dar a cara a tapa

Amauri Tangará diz que é contra o impeachment. “Acredito no bem e na vitória da presidente Dilma neste domingo”, afirma ele, que gravou clipe contra o que chama de golpe
JOÃO BOSQUO
DC ILUSTRADO DIARIO DE CUIABÁ

Os artistas, ora os artistas, são as antenas da raça humana, escreveu em um determinado tempo o poeta (ah, sempre os poetas) Ezra Pound. E como anda o pensamento / antena / dos nossos artistas mato-grossenses nestes tempos de impeachment que podem mudar os destinos de nosso país? Os homens, creio, vivem suas provas, às vezes diárias, de tempos em tempos, e assim também são as instituições e as cidades, os estados e a nação. O Brasil está passando por uma prova, cujo resultado – positivo ou negativo – nós, enquanto coletivo, só saberemos com o passar de décadas.

Amauri Tangará, ator, escritor, cineasta e, podemos assim dizer, ativista que procura trabalhar na linha da inclusão social, repartindo seus conhecimentos para que mais e mais pessoas tenham acesso às ferramentas da linguagem da sétima arte e possam fazer documentários, ficção e, mesmo, jornalismo com uma câmera de vídeo, não se furta em manifestar.

Segundo Amaury Tangará, “a posição dos artistas mato-grossenses não é unânime em torno da defesa da democracia e contra o golpe. Muitos temem por seus empregos e por retaliações dos governos estaduais e municipais, muitos alinhados com o golpe; enquanto outros, apesar de supostamente serem formadores de opinião (a função basilar de um artista), permanecem na ignorância e adestrados pela grande mídia que lhes indica meias verdades ou falsas afirmativas sobre o governo da presidente Dilma”.

Tangará diz que, mesmo a despeito de todos aqueles que não cumprem sua função basilar, “gratamente depara com uma grande leva de artistas que tem plena consciência de seu papel de intérpretes dos acontecimentos”.

“Eu, por exemplo, acostumado que sou a criar enredos para filmes e espetáculos, me deparo com estratégias incríveis para enganar e ludibriar a ingenuidade da população em geral. O que às vezes me assusta é a capacidade de um artista que viveu tempos difíceis e sombrios, de novamente se deixar enganar pelas palavras dos falsos profetas políticos. Mas a arte é libertária. A cultura é democrática por instinto. Afinal, carrega consigo os códigos de nossa identidade, nossas raízes e não terá jamais controle por órgãos ou cor partidária”.

“Somos, todos nós artistas, os guardiões da memória e da consciência de nosso povo e precisamos nos conservar lúcidos e sem expectativas vãs, para continuar nosso processo de resistência e luta rumo a um mundo melhor. Acredito no bem e na vitória da presidente Dilma neste domingo, já que, como cidadã e líder, jamais abandonou suas ideias e ideais. Estou com ela”, arremata Amauri Tangará.

Capilé Charbel – músico, produtor musical, participou de bandas como Caximir, GTW, Nidhog, pesquisador de viola caipira, hoje radicado em São Paulo, trabalhando basicamente com trilha sonora cinema/publicidade, mas que mantém seus laços de afetividade com os movimentos culturais locais – é curto e objetivo e diz que “sou contra o impeachment da presidente Dilma, não por ela, mas por ser inconstitucional e por que vai – segundo ele – criar um precedente terrível”.

Mário Olímpio, gestor cultural, falando do impeachment foca sua posição na questão da política cultural. Segundo o Mário, “nada muda para a política cultural. Com Dilma ou sem Dilma, o orçamento para a cultura sempre foi ínfimo. Sem dinheiro, não há política pública. Só um intenso trabalho de organização pode mudar o cenário. E isto envolve educação, economia e democracia”.

O também cineasta Bruno Bini, diretor de filmes premiados como “S2”, sendo sua mais recente produção o curta metragem “Três tipos de medo”, não foge da raia e diz que “falando exclusivamente do processo que corre na Câmara, não vejo motivos que justifiquem o impeachment. Não dá pra confundir desacordo com o governo com razão para impedimento. Da forma como está, é um processo muito mais político do que jurídico. Sou a favor das investigações, a favor da punição para crimes de corrupção comprovados, mas contra esse impeachment da forma como foi construído”.

O poeta, romancista e acadêmico Eduardo Mahon que, no próximo dia 26, lança a Trilogia da Palavra, livros de poesias, e está no prelo com o romance “O Fantástico encontro de Paul Zimmermann”, opina que, segundo ele, “qualquer movimento jurídico ou político de impedimento é um brusco solavanco democrático que demanda sacrifício. Importa saber que, mesmo com um trauma enorme na vida política brasileira, não tenhamos ruptura da ordem constitucional. Do meu ponto de vista, a presidente avançou o sinal da responsabilidade para sustentar a reeleição, o que já vimos, alias, com Fernando Henrique Cardoso, por ocasião da emenda constitucional que permitiu o seu segundo mandato. Os órgãos de controle reprovaram a manobra de Dilma Roussef que teve a infelicidade de ter contra ela uma crise econômica realizada justamente por essas manobras fiscais irresponsáveis. Um clima de desconfiança política, arrocho econômico e falta de carisma pessoal, contaminou os parlamentares que tendem a votar favoravelmente ao impedimento. Qualquer quadro é péssimo. Dilma saindo é traumático. Dilma ficando é uma tragédia em termos financeiros, políticos, administrativos. Só espero que nossos governantes nacionais não sejam indignos a ponto de sairem do poder direto para a cadeia, como aconteceu em Mato Grosso”.

A escolha de Ezra Pound para abrir esta reportagem – fica combinado – não foi por acaso. O poeta amado, considerado o maior do século 20, equiparado a Albert Einstein – o que este foi para física ele foi para a poesia. Esse poeta referenciado por toda uma geração namorou, noivo e casou com o fascismo. Mas não quero ser mau crítico. Ezra Pound dizia que “o mau crítico se identifica facilmente quando começa por discutir o poeta e não o poema”. A obra de Ezra Pound sobrevive a tudo isso, mas que sempre tem uma vozinha a nos lembrar de que ele aderiu ao fascismo. Sorte dele ser o grande poeta que foi. Eu, como um poeta menor, não posso ser dado a cometer esse tipo de vacilo e, por isso, me declaro contra o golpe, entendendo que é o povo que deve escolher sempre o seu presidente e não um Congresso de corruptos. Mas que todo este processo ajude nossas instituições a se consolidarem. Já será um avanço.

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