Arcebispo de Recife atualiza mandamento que nos deu Maluf. “Estupra, mas não aborta”, parece defender o arcebispo do Recife

Maluf e o Direito Canônico
Por Fritz Utzeri

Coitado do Maluf! Foi tão vilipendiado quando pronunciou o seu célebre “Estupra, mas não mata!”. E não é que ele tinha razão? Maluf deveria ser canonizado como o 35º Doutor da Igreja e fazer companhia a ilustres mentes como Ambrosio de Milão, Atanásio de Alexandria, Cirilo de Jerusalém, João da Cruz, Hilário de Poitiers, Tomás de Aquino e até três mulheres, duas Teresas (de Lisieux e de Ávila) e uma Catarina (de Siena). Será venerado nos altares como São Maluf de Piratininga, que dita a moral brasileira e, pelo jeito nesta igreja de Bento XVI, a do mundo.

Pelo menos é isso que estabeleceu o arcebispo do Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, ao afirmar do alto de sua hierarquia, que fazer um aborto, previsto em Lei para salvar a vida de uma menina de apenas nove anos estuprada e engravidada pelo padrasto, é crime mais grave que o de estuprar essa menina indefesa e entregue à guarda de seu algoz e estuprador. “Estupra, mas não aborta”, podia ser o dístico de tal alma piedosa. Felizmente nas sociedades ocidentais a lei do Estado é totalmente separada da lei eclesiástica.

Dom José baseia-se no Direito Canônico. Esse conjunto de leis é escrito pelo establishment do Vaticano para reger o comportamento dos católicos e é periodicamente atualizado em função de mudanças no comportamento da sociedade. Não tem nada a ver com a voz de Deus. O código atual data de 1983, quando João Paulo II o promulgou e revogou o anterior, datado de 1917 (a coincidência de data com a revolução russa não é mera coincidência), promulgado por Bento XV. Trata-se, portanto, de lei feita pela Cúria Romana.

Posso até estar enganado, mas não há qualquer refêrencia a aborto nos quatro evangelhos do Novo Testamento. Mas no Evangelho de São Lucas, há um dos raros momentos em que o Cristo se destempera e endurece. É quando fala das crianças e da fé que deve tornar as nossas almas puras como as delas. O texto está em Lucas 18.6 e nele fica absolutamente claro que Jesus achava que um estuprador deveria ser morto.

A Bíblia não é muito lida pelos Católicos Romanos. Aliás, sua leitura é até desestimulada pela Igreja. O católico padrão só toma conhecimento das escrituras durante a Missa quando o padre lê o trecho do Evangelho marcado para aquele dia. Desde Lutero, os protestantes de todas as categorias, transformaram a leitura e livre interpretação da Bíblia em elemento central de sua fé, e é exatamente essa corrente do Cristianismo que ganha cada vez mais adeptos sobre uma Igreja cujo culto se assenta na chamada tradição e em dogmas fechados, ditados por uma cúpula totalmente desligada do verdadeiro corpo da Igreja (os fieis).

Vejam o que diz o Evangelho. É Jesus quem fala pela pena de Lucas:
“18 – 1. Naquela mesma ocasião aproximaram-se de Jesus os discípulos dizendo: Quem é maior no reino dos céus? 2. Jesus chamando um menino pô-lo no meio deles, 3. e disse: Em verdade vos digo que, se vos não converterdes e não tornardes como meninos não entrareis no reino dos céus. 4. Aquele, pois que se fizer pequeno, como este menino, esse será maior no reino dos céus. 5. E o que receber em meu nome um menino é a mim que recebe. 6. Porem, o que escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço a mó de um moinho, e que o lançassem ao fundo do mar”.
Mais direto e claro impossível.

Já o aborto…

A posição atual da Igreja sobre o aborto só começou a ser elaborada em meados do século 19.  O elemento central dessa discussão é a partir de quando o óvulo fecundado pelo espermatozóide se torna um ser humano pleno, isto é, adquire uma alma. Ninguém é capaz de responder a esta questão (se é que a alma é uma questão) e um dos maiores, senão o maior doutor da Igreja, São Tomas de Aquino, aceitava a idéia aristotélica de que o feto tem inicialmente uma alma chamada “vegetativa”, um princípio vital presente nas plantas. Com evolução, ganharia uma alma “animal” e somente no quadragésimo dia, ou seja, quando o feto começa a ganhar características humanas, é que teria direito à sua alma “racional” e se transformaria num ser humano (nos fetos meninas essa “racionalidade” só se daria aos 80 dias, coisas do senhor Aristóteles. Reclamações em grego, por favor). Essa opinião foi endossada por muito tempo pela Igreja Católica.

Mas em 1670, o Papa Inocêncio XI (que ainda não era considerado “infalível”, coisa que só aconteceu em 1870), garantia que a alma infundia-se no corpo apenas no momento do nascimento. Em 1787, Pio VI dizia que a alma só passava a existir no primeiro ato de inteligência da criança (o que complicava ainda mais as coisas, pois há muita gente por aí que morreria sem ter direito sequer a uma alminha).

A excomunhão da mulher que abortasse só foi estabelecida pela Igreja no ano de 1869, quando Pio IX passou a garantir que a alma era recebida no momento em que o espermatozóide penetrasse no óvulo, a concepção. Isso foi decidido no Concílio Vaticano Primeiro, o mesmo que estabeleceu que o papa é infalível quando fala em matéria de fé. Tudo isso 1836 anos após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Haja fé

FritZ Utzeri é jornalista no Rio de Janeiro

Fonte: Montblaat Extra – via email

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SOBRE O MESMO CASO, EDITORIAL DO SAITE VERMELHO:

Aborto, excomunhão e um bispo sem piedade

 

O que uma equipe de médicos e funcionários públicos mereceria ao salvar uma menina de nove anos de uma situação traumática?
 

No mundo racional das pessoas de bem, esta equipe mereceria reconhecimento, respeito e homenagem. Mas na compreensão e sem piedade do bispo de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho, a equipe merece a excomunhão.

Estuprada pelo padrasto, a menina estava grávida de gêmeos e, para salvar sua vida os médicos da Maternidade Cisam, da Universidade de Pernambuco, no Recife, fizeram o que a lei e a ciência determinam: a pedido da mãe da menina, foi realizado um procedimento médico, através de medicamentos, que eliminou os fetos do ventre da criança.

Foram punidos com a excomunhão, uma punição muito grave para os católicos, que corresponde à expulsão da comunidade. O bispo extendeu a punição a todos os envolvidos no caso, poupando apenas a menina pelo fato dela ser ”de menor”, conforme suas palavras. Para ele, o estupro cometido contra uma criança de nove anos de idade é um crime menor e, por isso, deixou o padrasto fora da excomunhão.

O bispo Sobrinho não é um homem estúpido. Ele sabe que uma criança de nove anos de idade, com 33 quilos de peso, não tem estrutura física nem psicológica para suportar uma gravidez, ainda mais uma gravidez de gêmeos. Sabe também de todas as perversas consequências sociais que a criança e sua família enfrentariam se a gravidez fosse levada adiante. Mas nenhuma razão humanitária foi levada em conta pelo bispo para defender seus dogmas, que são desumanos e ofendem a compreensão de nosso tempo.

Não bastasse a iniciativa da excomunhão coletiva, um advogado da Arquidiocese de Olinda e Recife, Márcio Miranda, anunciou que vai apresentar uma denúncia de homicídio contra a mãe da menina por ter autorizado o aborto. Como é um aborto amplamente amparado pela lei brasileira, só resta entender a iniciativa do advogado como uma ameaça inquisitorial.

A continuar sendo comandada por gente obtusa como o bispo Sobrinho, a igreja católica, que tem no seu currículo a Inquisição (hoje chamada Congregação para a Doutrina da Fé) e outras perversidades, como as já frequentes acusações de pedofilia, perderá cada vez mais o respeito e a voz diante da sociedade.

Em sua cruel e fora de época defesa dos dogmas da igreja, o bispo afrontou a sociedade, nostálgico talvez do remoto passado em que a voz dos púlpitos tinha força de lei para toda a sociedade. Mas, no caso, a reação foi imediata. O presidente Lula considerou a decisão do bispo lamentável; o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, disse que ela foi ”radical” e ”inadequada”. A médica  Fátima Maia, diretora do Cisam, e que é católica, deu ”graças a Deus” por estar ”no rol dos excomungados”, e que não se arrepende de ter ajudado a menina. Em Brasília, Valéria Melk, representante do movimento Católicas Pelo Direito de Decidir se declarou indignada pela atitude do bispo: ela é ”uma crueldade”, disse.

Como bem lembrou o jornalista Ricardo Kotscho: ”E pensar que esta mesma Arquidiocese de Olinda e Recife já foi ocupada por um homem como dom Hélder Câmara, o bispo que nos tempos mais sombrios da ditadura militar, arriscava a própria vida para salvar a vida dos outros”.

 

 

 
 
 

 

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